Ela entrou rapidamente na quitinete que morava. Seu semestre da faculdade de nutrição estava cheio de atividades e isto envolvia rapidez nas responsabilidades assumidas. Estava envolvida no stand da Festa do Tomate no próximo fim de semana de início de setembro em Paty de Alferes. Apresentaria os benefícios do tomate seco como complemento alimentar no stand de Culinária do Tomate. Isto lhe concederia alguns pontos na disciplina que estava pendente.

Seus livros estavam abertos sobre a mesa e lá estava a redigir o texto de sua breve explanação. “Grande fonte de antioxidantes e fito nutrientes, redutores do risco de câncer. Ótimos aos homens na prevenção do câncer de próstata e alguns estudos dizem prevenir riscos de câncer no pulmão. Rico em vitamina C, A e em beta caroteno. Contém manganês e vitamina E  e rico em licopeno, que reduz o risco de doença cardíaca, níveis de colesterol e ainda previne a degeneração macular devido a idade…” – Foi interrompida por alguém à porta. Era seu namorado.

O recebeu com um longo e apaixonante beijo. Todos os dias almoçavam juntos e ela ia treinando pequenos pratos. Dizem que homens se conquistam pelo estômago, pensava tão ingenuamente.

Não seriam pelos pratos que deteria alguém do seu lado, pois os odores inebriantes seriam momentâneos ante a permanência do amor sincero e que resistisse às fomes deste mundo.

Sequer percebera-o um tanto distante. Para aquele dia, tinha preparado um prato de macarrão penne com orégano e regado de azeite e algumas azeitonas bem graúdas. Os tomates secos dariam o toque especial acompanhados com rúcula. Suco de uva puro e a sobremesa estavam na geladeira, uma deliciosa torta de tâmaras com castanhas e maçã regada com toque de canela. Havia caprichado. Tinham alguns meses de namoro e ela queria comemorar.

Aprendera a fazer os tomates secos em casa. Amava cozinhar e já queria treinar bastante. Apaixonada como sempre, ao estudar sobre os benefícios deste fruto, curiosamente percebeu que ao partir em metade cada fruto, o mesmo era semelhante internamente às câmaras cardíacas. Nunca tinha percebido isso, mas a semelhança ao coração a fez se agraciar mais com a importância deste fruto para a saúde e para o coração, sobretudo. Ela ajustou a mesa com uma bela toalha. Afastou os livros. O momento era da prática do amor, pensou.

Comeram, saboreavam tudo com muito carinho e a sobremesa ainda estava na geladeira para degustação. Seus olhos eram puro amor ao rapaz a sua frente. Ele, indiferente naqueles minutos finais e isto a fez questionar o que estava acontecendo, interrompendo sua última garfada.

O amor acabou – ele disse sem olhar em seus olhos.

Como? – Ela perguntou firmemente.

Isso mesmo – e agora seus olhos fixavam o prato vazio. –Eu quero um tempo, não te amo como deveria, na verdade, talvez eu nunca tenha te amado e só a tenha visto como uma presença agradável que me fez bem esse tempo juntos. Foram meses que gostei muito, mas acabou – e ia levantando.

Como assim acabou? – Ela ainda não acreditara no que ouvira. – Olha nos meus olhos, diga que não me ama! Diga! – segurou na mão que queria partir daquela mesa, mão que se apressava para romper a maçaneta e alcançar o vasto mundo externo daquela simples quitinete. Mão e corpo de um homem que queria fugir.

Ele não ousou olhar nos olhos dela, na verdade, ele só agiu como muitos, não assumindo o que falava. Era mais um covarde, ela pensou num misto de raiva vulcânica.

Respirou fundo e olhou-lhe nos olhos, procurou aqueles olhos que amava, mas que agora, eram fuzilados com o orgulho da alma – Só isso? Acabou e fim? – e fixava o seu olhar firmemente.

– Me desculpe – sussurrou aquele a sua frente e em seguida saiu fechando a porta atrás de si.

O mundo dela girou em 360 graus, pois ela não saiu do lugar. Antes tivesse feito um ângulo de 180 graus e descobrisse que ele estaria a lhe esperar na volta… Volta de um pesadelo, pensara.

Manteve-se a mesa, olhou a frente. Em seu prato, havia deixado um pequeno tomate seco e o garfo fincado no mesmo, a última garfada dela.  Lágrimas que estavam contidas raivosamente no momento anterior, agora copiosamente escorriam sobre sua face morena e iam preenchendo o prato raso a sua frente. Pareciam querer transbordar o prato que estava ali. Prato que agora estava úmido.

Nem sabia como seria o depois. Agora, ela tinha uma certeza: que assim como partira um tomate na sua cozinha para preparo do que considerava como um complemento saboroso da sua macarronada, agora seu coração estava seco e partido. Seco do amor e só teria que cuidar para que não secasse o perdão e a vontade de se reerguer daquela mesa, daquela perda e trilhar o recomeço.

Manter seus compromissos assumidos ante as pessoas que ainda precisavam na exposição que participaria ouvirem que tomates fariam bem aos corações e a saúde.

As perdas teriam que ser superadas… Teriam que ser digeridas secamente. Mas o sabor da comida, agora, estava amargando em seu interior. E novamente voltou a chorar, copiosamente.

Escrito por: Fabiana Colimoide

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