Todos somos sobras, mas não podemos ser restos

Depois de uma certa idade, e creio que a partir dos trinta anos, todos somos sobras do que fomos, mas não podemos ser restos.

Sobras do que fizemos com as pessoas em termos de experiência de vida e sobras do que fizeram conosco, das mesmas experiências.

Aliás, quem considera o outro resto do que sobrou, traz para si a sua própria inutilidade e insignificância. Resto é o que ninguém quer; sobra é a parte menor depois de todos estarem saciados. Quem considera o outro resto, tem o coração cheio de arrogância e prepotência. É o resto de si mesmo.

Podemos ser a sobra do que nos resta? Mas jamais o resto de nós mesmos. Digamos que a sobra está na mistura de tudo o que somos agora e que o resto é a sobra de uma única coisa somente. Sobramos na experiência acumulada. O resto de nós é quando não vivemos nossas próprias experiências, porque ficamos presos, fechados, oprimidos, reprimidos pelo abuso do outro em nossas vidas.

Bom e belo é quando somos todos as nossas sobras, porque temos ainda algo a dar, a compartilhar, a ceder, a ganhar e ter, diferentemente do resto que podemos ser e – estima e amor-próprio em baixa – cremos que ninguém quer seriamente nosso resto ou o resto que somos.

Somos sobras de tudo o que fomos e fizeram de nós, mas também fizemos nas pessoas. Restar quer dizer “faltar pouco”; sobrar quer dizer “tem mais do que o completo”. Restar é nunca estar completo; sobrar é ainda ter espaço para o mundo, a despeito da completude.

Insisto que depois de uma certa idade todos seremos sobras. Sem uma única exceção. Aceitar a sobra do que somos e a sobra do que as pessoas são é um ato lindo de respeito e amor verdadeiro. Quem aceita ser resto não se ama, não se respeita, e nunca foi uma pessoa completa ainda que por culpa do outro. E provavelmente o pouco que lhe resta nunca chegará a ser completo.

Aceitar a nossa síntese, a nossa história, os nossos anos e as nossas experiências. Se nos vermos como resto, nada será útil, porque não terá nada senão o pouco do resto que é. Se nos vemos como sobra de tudo por que passamos e fizemos, teremos nossa alma cheia de sentimentos que somente o tempo fez lapidar e deixar mais acolhedores porque os caminhos existiram em nossa existência e já percorremos muitos deles.

Falemos assim às pessoas que querem compartilhas nossas sobras: “Me dê a sua mão. Podemos ir juntos. Não quero ser o resto do que você ainda não teve e nem ter o seu resto, que você quer esconder. Somos sobras do que vivemos. Sobra muito de mim para o mundo porque sou um pequeno riacho já poluído, mas límpido na nascente quase sempre transbordando: não de desperdício. Só os meus limites emocionais que se acumularam. Me dê a sua mão e nos completemos. Temos bastante ainda para sobrar um para o outro neste tempo que nos resta…”

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