Blog Livros e Resenhas – Todas as pessoas são dignas…/Fabi Colimoide

Aquele domingo na capital de Florianópolis estava perfeito para uma caminhada na orla, porém ela decidira aceitar o desafio de contribuir com seus talentos, tempo e conhecimento profissional junto aos voluntários que atendiam moradores de rua semanalmente como parte de um projeto ligado a uma ONG.

Na verdade, era desafiador assim proceder, pois tinha tantas atividades a fazer em suas férias do doutorado na UFRJ, que era loucura para muitas pessoas ela dispensar o pouco tempo de recesso dos exaustivos estudos.
Mas, tinha no íntimo a tênue intuição de que sairia melhor do que quando entrara neste projeto.
Cada um dos doze jovens tinha a responsabilidade de localizar um morador das ruas daquela localidade e atender as suas necessidades básicas como higiene, roupas e afins.
Ela adentrou a rua por volta das sete da manhã e sentia os raios do sol sobre sua pele clara e aveludada. Seus cabelos ruivos até a cintura estavam amarrados em um rabo de cavalo. Usava jeans e camisa regata branca com um desenho de duas mãos espalmadas. Estava maquiada com sua vaidade permitida e necessária. Avistou ao longe uma pessoa deitada e recolhida com alguns papelões como cobertor da brisa matutina. Tinha um cachorro sardento como vigilante.
Ao se aproximar, sentiu o seu abanar do rabo como dando liberdade para que ela pudesse abordar aquele suposto e adormecido homem. Surpresa se encontrou ao ver a silhueta de uma jovem mulher que atendeu ao chamado feito pela jovem.
“Você aceitaria um dia diferente com cuidados especiais?”- a jovem questionou a mulher ali agora sentada que lhe observava de soslaio. Parecia muda ou fazia-se assim como bem queria e talvez como defesa. Talvez tantas pessoas maldosas a abordassem e intentasse o mal.
Mas depois de muitas investidas, ela aceitou.
O dia diferente que a jovem a convidara seria numa escola próxima, com banho, corte de cabelo, tratamento de manicure e pedicure, troca de roupas e uma proposta de mudança de rumo, além das refeições naquele dia. E foi assim… Como um dia digno de lembrança àquela mulher que não queria no primeiro momento dizer seu nome. Tinha vinte e dois anos, estava nas ruas por conta de uma gravidez indesejada e que optara por abortar.

Não podia voltar, pois sua vergonha e culpa eram-lhes maiores do que o amor dos pais que a esperavam por longos meses. Não se prostituíra, tampouco era usuária de drogas, exceto por algumas doses de álcool nas noites frias e depressivas. Digna era seu nome e assim fora chamada durante todo aquele dia.
Seus cabelos foram cortados após um bom banho, bem como hidratados. A jovem voluntária, enfermeira por formação, a tratava com terno carinho. As unhas foram tratadas e aquela jovem fizera questão de fornecer-lhe roupas novas, ainda que provenientes do bazar social.
Uma deliciosa e farta alimentação foi disposta a todos os moradores recolhidos ali naquele ensolarado dia. Reuniões motivacionais e com orientação quanto à retirada de documentos e inclusão no mercado de trabalho foram ministradas.
Uma proposta de moradia em albergues de uma ONG estava a disposição de todos.
A alegria era visível nos olhos e a cada sorriso de homens e mulheres que precisavam recomeçar. Digna se aproximou da jovem voluntária e a olhando com ternura, agradeceu dizendo que a jovem era muito boa.
Boa?- a jovem pensava e respondia – a bondade em mim provém de Deus que é bom todo o tempo conosco. Você tem vontade de ver sua família?- perguntava-lhe enquanto a maquiava suavemente.
Digna respondera que sim. Como ansiava voltar ao lar materno e recomeçar na vida.
Os dias seguintes foram de recomeços, tanto para a jovem cheia de tantas teorias e agora esvaziada de si mesma e preenchida por um pouco da vida de Digna.
Digna, fora tratada naquele dia com uma dignidade que não acreditava poder sentir mesmo com tal nome. Semanas depois tivera um encontro familiar promovido pela enfermeira que lhe assistira com empatia. Seus pais a aguardavam com tanta ansiedade que aceitaram o pequeno e sardento cãozinho que sua filha adotara nas ruas também.
Aos poucos, a vida voltava ao normal para Digna que tivera uma simples oportunidade de ter um dia de dignidade, de acolhimento a despeito de ser uma moradora nas ruas. Tinha um lar, tinha dignidade, tinha beleza em si. Sua vida sofrida com sinuosas curvas, a fizeram sofrer, mas um novo amanhecer era-lhe possível.
Resgatada fora. Há centenas hoje de homens e mulheres que perderam em algum momento a dignidade e o senso do valor da própria vida. Para todos estes, a despeito das investidas ou não governamentais,  ainda há espaço para as ações solidárias como da jovem, embora douta em saber para alguns, mas que decidira praticar o que sempre ouvia como crença: “Quando o fizeres a um destes, a Mim o fizeste… Porque tive fome e deste-me de comer, tive sede e deste-me de beber, era estrangeiro, e hospedastes-me, estava nu e vestiste-me, adoeci, e visitastes-me, estive na prisão, e fostes ver-me” Mateus 25:35-36, 40. Esse foi e sempre será o maior ensino dado aos homens, cujas lições somente terão fundamento, se forem praticadas.

Cada ser humano tem como direito básico ser tratado com respeito, apreço e com a dignidade mínima a ele adquirida, ainda que perdida. Cada ser humano tem o dever de fazer valer os direitos outrora esquecidos e que envolvem uma cidadania e humanitarismo que cada dia mais necessita ser lembrado e praticado. Foram ensinos deixados por Um Homem, segundo ensinos religiosos, que ousou praticar e deixar como exemplo a cada um de nós.

Aquela jovem voluntária finalizou suas férias com a seguinte conclusão: Todas as pessoas são dignas de apreço, de respeito, de solidariedade e, sobretudo de amor na essência e nobreza de toda sua prática.

Texto escrito por: Fabi Colimoide.

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