Reparem na essência destas palavras:

“O que nos entristece verdadeiramente e que nos torna amarga a existência refere-se sempre à relação com nossos semelhantes. Pessoalmente estou convencido de que sofremos quando somos mal-entendidos pelos outros e sentimos com isto aviltados, maltratados, desvalorizados.”

Não são palavras minhas. São palavras de um artigo chamado “A Dor do Homem” de um psicanalista jungano. Ele não considera a dor em função do desespero de problemas de mal-funcionamento do cérebro. Muito menos dor física. A dor do homem seria emocional mesmo – aquela de fora para dentro. Tirando este parênteses, parece-me perfeita a síntese dele: somos mal-entendidos.

Por princípio, a dor, a mágoa, a solidão, o rancor, a angústia e sentimentos semelhantes são algo íntimo e pessoal. Bem pessoal mesmo. A psicanálise peocura dar outra abordagem ao íntimo da dor, ainda mais no que diz respeito ao sofrimento do envolvimento emocional. Mesmo assim ela é pessoal.

Sofremos quando deixamos de amar. Sofremos e fazemos o outro sofrer, nosso semelhante, de quem gostamos, queremos bem, queremos feliz, porém, não mais queremos como parte de nosso corpo, de nossa companhia. Em contra-partida, quem não amamos mais tende a nos querer sofrer também, nos ver sofrer muito, nos fazer sofrer, como equilíbrio da dor sentida. Psicanalista algum se impressiona com isto. Assusta um pouco os indefesos. O susto é o inacreditável com o inesperado.

Ser comunicativo traz ao homem que sofre boa vantagem. Ser cominucativo e culto leva um pouco ao inesperado e ao espanto para quem anda perdido e se procura. Ser cominucativo, culto e atencioso leva ao encanto. E ser encantador por um período leva ao amor. Amor é encanto. O amor pode ser correspondido, mas o amor pode ser ao mesmo tempo correspondido e dificilmente realizável. O sofrimento vem neste momento. Mesmo o amor realizado pode terminar. O fazer sofrer aparece a partir de então. Desejamos sem ter ou não desejamos ou temos mais…

Entristece-me verdadeiramente a dor evitável. Creio que fazer o outro sofrer, além de ser algo do inconsciente da pessoa, causa um alívio momentâneo, mas enganoso. Ou um alívio duradouro se a pessoa realmente for muito fraca. Como eu tenho uma baita consciência disto tudo, meu cuidado com o sentimento das pessoas chega a ser como lavar uma taça de cristal. Não descuido da fragilidade.

Retomando o texto acima, “sofremos quando somos mal-entendidos”, e eu acrescento: “propositadamente mal-entendidos!” Ainda que a pessoa não tenha plena consciência. O sentimento de amor pelo outro, que não mais correspondemos, turva as palavras porque ele espera veneno em tudo. Nunca néctar. Botar dois para conversar quando um quer ver o outro sofrer vira uma guerra de perdedores e cada vez mais desafetos. É triste. Talvez necessário. Mas é triste.

De minha parte, escolho escrever para fazer o processo inverso: compreender e fazer refletir. Sou compreensível e reflexivo. Da vida, nada levamos. Poder deixar bons momentos para quem nos ama de verdade é uma dádiva. Dadivemos!

Flávio Notaroberto, escritor, professor e autor independente dos livros Contos Suaves e Não é Conto nem Fábula. Este ano publica seu primeiro romance, “Miguelito: Memórias”.

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