Blog Livros e Resenhas-Trilogia Breathing – Sinaleiro/Fabi Colimoide

Ela era uma pedagoga cheia de vida em contribuir aos alunos que atendia diariamente a despeito dos conflitos que eles carreavam em cada classe. Adquirira vasta experiência junto aos pais e aos filhos que tinham sonhos, lutas e desafios estudantis.
A cordialidade e apreço a cada lar alcançado eram suas características relevantes que a tornavam mais estimada entre a direção da escola em que já trabalhava a sete anos dos seus vinte e nove anos. Estava passando por dias difíceis frente aos problemas comportamentais de alguns juvenis. Saía quase todos os dias da escola com impaciência. Percebia que precisava de descanso. Por ser muito comprometida, se sentia sobrecarregada nos últimos dias.
O sinaleiro ou semáforo como melhor conhecido, estava fechado e ela aguardava impacientemente a liberação. Tinha tanta coisa a ser feita, ela pensava. Foi quando entre observar os carros, ora buzinando, ora silentes aguardando o tráfego liberado, viu a silueta de um menino franzino, tez bem morena, olhar melancólico, magrinho e atípico da característica dos moradores da grande Porto Alegre. Devia ter uns oito a dez anos e como um sinaleiro fazia malabarismos e sinalizações entre uma pausa entre os carros no semáforo.
“Tia, me dá um trocado para ajudar minha família?” – ele a abordou tocando no vidro do carro dela. Parecia inofensivo, porém, ela, estando cansada e num misto frenético de não querer contribuir com vícios ou exploração de trabalho infantil, negou e tão logo o semáforo liberou passagem, foi apressada para casa.
Sinceramente ela não recordava de ter visto aquele menino ali, mesmo porque o policiamento local da região cuidava sempre com os transeuntes e pedintes. Mas se incomodou em seu lar com aquele menino visto ali. Pensou que ele poderia estar numa escola, estudando e ainda que o auxílio familiar pudesse ser realmente uma necessidade. Até pensou em voltar naquele cruzamento, mas logo dissipou a ideia frente aos seus inúmeros afazeres.
Os dias seguintes ela sempre observava o menino ali a fazer pequenos malabarismos em busca de parcos trocados que dizia serem para auxiliar a família. Ela decidiu dias depois em abordá-lo para melhor saber sua história. Ele tinha dez anos e era natural da grande São Paulo, onde sua mãe e seus outros dois irmãos haviam se mudado por conta do falecimento do pai, vitima do tráfico de drogas. Sua mãe estava em depressão e com síndrome do pânico que a impediam de trabalhar. Aquela pedagoga fora até o lar daquele juvenil e vira as condições precárias que aquela família vivia.
Ela ainda não tinha filhos no casamento, mas se realizava em cada ação concretizada por seus alunos que sempre procurava auxiliar. Decidira contribuir de alguma forma para que aquele menino tivesse de volta o que era-lhe por direito: educação. Sim, ela cria que esta transformava homens e mulheres e confirmando sua decisão, ouviu dos lábios do menino, quando perguntou o que ele gostaria muito de fazer e ter. “Queria voltar a estudar. A tia da escola me mandava sempre para a biblioteca e eu gostava muito de ler”. – ele respondeu com determinação.
Ela olhou ao redor na pequena casa de apenas um cômodo grande com banheiro e pia com chão batido. Viu que poderia sim auxiliar aquele menino a resgatar o que lhe era por direito e fora usurpado pelas decisões dos homens adultos. Decisões que custaram a vida do pai dele. Agora, estava órfão de pai e parecia ser o arrimo naquela casa. Ele não pedira um tênis de marca ou um celular de última geração, mas com sinceridade solicitou o que tinha como um direito adquirido, porém roubado. Quantos roubos neste país assim ocorrem a cada dia quando uma criança é privada de ampliar a mente com estudo e é posta nas margens das ruas das desigualdades sociais e luta por sobrevivência. Outros encontros dali em diante entre eles foram frequentes.
Onze anos se passaram após aquela tarde em que decidira se atentar no semáforo para aquele que agia como um sinaleiro frente aos carros. Sinalizando a sua urgente necessidade de resgatar o que tinha como direito.
Agora, ela, na sua casa se arrumava para assistir ao Recital dos alunos do curso de Música da Faculdade Federal local. Entre os componentes, estava o menino outrora franzino e com olhar melancólico que um dia estivera como sinaleiro em um cruzamento. Ela contribuíra nos seus estudos, auxiliara aquela família para que os demais irmãos dele também estudassem e para que aquela mãe voltasse a dignamente trabalhar na sociedade. Era uma das merendeiras da escola que a antiga pedagoga ainda trabalhava, porém agora, como diretora adjunta.
Gratidão era expresso no olhar da mãe do jovem rapaz que entrara a compor a orquestra com um violoncelo nas mãos. “A dívida está paga desde o momento que seu filho voltou a estudar. O saber é algo que ninguém pode nos tirar. É direito adquirido!” – ela ouviu da diretora naquele local.
Com maestria a orquestra apresentara o musical com melodias de Bach, Vivaldi e Beethoven. Emocionante ver os jovens na apresentação. A música entrava com suavidade nos ouvidos da jovem que agora estava mais amadurecida na vida e profissionalmente. Ela descobrira o doce prazer de contribuir na realização dos sonhos alheios. Nos sonhos de jovens que estavam em conflito com os pais. No coração de um juvenil que agindo como sinaleiro no cruzamento, de modo pueril lhe ensinara a maior lição que não adquiriria nas academias de letras: da humildade e altruísmo na prática frente às necessidades dele e de tantos outros. Sim, a cada realização do sonho de um jovem, ela se realizava também. Agir assim era um preço inestimável e ver o olhar com brilho de esperança naquele jovem rapaz era a sua maior satisfação naquele instante.
Uma lágrima rolava pela sua face emocionada por fitá-lo entre outros jovens, feliz e ativo no saber. Sim, conhecimento é direito adquirido, ela repetia internamente para solidificar sua essência de ser humana num mundo de desigualdades desumanas, de direitos roubados.

Texto escrito por: Fabi Colimoide.

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