Eram dezesseis horas no seu relógio. Ela olhava com ar vazio ao corredor daquele lugar. Detestava hospitais. Remetiam-lhe tristes recordações. Perdera seu pai vítima de cirrose hepática, tivera seu irmão mais velho hospitalizado por pneumonia e agora, se via como acompanhante de seu namorado. Estava aguardando o médico voltar do setor de diagnóstico por imagem para conversarem sobre os exames que ele, seu namorado, fora submetido. Há meses ele estava tendo tosse persistente, rouquidão há semanas, perdeu peso inexplicável e a falta de ar que sentia aos pequenos esforços como tomando banho, estavam sendo motivo de exames realizados anteriormente. O que a fez obrigá-lo a procurar um médico fora quando em um jantar no seu apartamento, ele numa sessão de tosse incessante, eliminara sangue em meio ao escarro expelido. Não estava bem. Ela sabia disso, embora ele nunca lhe dissesse. Escondia suas queixas, pois para ele não queria incomodá-la com “nada demais”, mas ela como sempre, preocupava-se com ele. Amar faz isso, quem ama cuida e protege, ela pensava.

Levantou-se ante a presença do médico franzino, com óculos postos e vários papéis nas mãos.

– “E então doutor, o que ele tem afinal?”- questionou.

-“Então… Nos exames de radiografia do tórax, citologia do escarro e marcadores biomoleculares feitos antes, não tivemos tanta certeza do diagnóstico fechado, mas neste último exame de hoje a tarde, na tomografia computadorizada de baixa dosagem, detectamos que precisaremos fazer alguns outros tratamentos mais complexos e…”

-“Tratamentos mais complexos? Como assim?” – ela o interrompeu subitamente.

-“Bem… detectamos uma massa tumoral elevada e significativa no lóbulo direito do pulmão e indícios de alteração na cavidade oral com sugestão de tumorações ali, inclusive. Teremos que acompanhá-lo e vou encaminhá-lo ao setor de oncologia. Por sorte, conseguiremos estadiar o avanço do tumor e células cancerígenas, a falta de ar dele frequente é pela presença do tumor” – ele secamente finalizou a ela.

-“Câncer? Está me dizendo que ele está com câncer no pulmão e na boca? Como assim? Ele apenas fumava ocasionalmente charutos e só! Não me recordo dele fumar cigarros!” – Ela atônica disse ao profissional de jaleco branco à frente.

-”Sim, ele me disse ser tabagista social há anos e etilista bem frequente. Um indivíduo tabagista tem sete vezes mais chance de desenvolver um câncer de boca ou garganta, por exemplo. Se é etilista, as chances do câncer são seis vezes mais presente. A combinação de tabaco e álcool potencializa o risco para 38 vezes mais chances de câncer de vias aerodigestivas altas. E todos os tipos de consumo de tabaco aumentam as chances de câncer principalmente de boca e de faringe. Tanto as formas inalantes (cigarro, charuto, cachimbo, cigarro de palha) como os hábitos de mascar fumo-de-rolo e de aspirar tabaco (rapé) são prejudiciais à saúde. E ainda que pouco seja esse hábito, a exposição como fumante passivo trás riscos também – explicava didaticamente a ela.

– “Isso quer dizer que ele vai morrer doutor?” – e marejados seus olhos estavam.

-“Teremos que tratar inicialmente com quimioterapia, até porque na broncoscopia já havia dado alteração. Alguns fatores associados contribuem para as células cancerígenas desenvolverem-se, como sedentarismo, baixo consumo de verduras e frutas e o álcool. Mas fique tranquila, pois o oncologista traçará a melhor conduta. O importante foi que a detecção aconteceu e poderemos tratar. – e assim ele finalizou toda a técnica explicação e saiu pelo corredor em seguida.

Para ela, em síntese: incorreria na perda do seu namorado, pensava drasticamente. Sabia que essa doença é ingrata e muita das vezes letal. Uma lágrima rolou sobre sua tez fria ante as informações ouvidas minutos antes.

Olhara o corredor novamente e o aparelho televisivo local com diversas notícias e pessoas ali dentro daquele quadrado. Para ela, nenhuma importava ao não ser seu namorado que a aguardava na enfermaria no andar superior. O homem que amava agora estava em seus pensamentos como um filme. Lembrou-se de inúmeras vezes que o acompanhou e ele apreciava os seus charutos. Lembrou-se de Gutierrez, um cubano que trouxera uma caixa de Cohiba e do Montecristo e que foram avidamente apreciados tão logo recebidos. Sua memória a levou para os hábitos do namorado, pois era um locutor de rádio, sedentário, com hábitos alimentares sem porções de frutas, verduras e legumes. Era da geração fast food, rapidez no prato. Apreciava um bom vinho, uísque e cerveja. Outra lágrima teimou em rolar, dessa vez mais intensa.

O medo da perda daquele que amava era seu sentimento ali. Ela queria que se fosse para morrer, que ele morresse de amores por ela, como ele eloquentemente sussurrava em seus ouvidos nas noites em que estavam ante o luar.

Despertou desse filme com a televisão anunciando a Campanha Nacional de Combate ao Fumo. Olhou no celular, dia vinte e nove de agosto, eram dezenove horas. Com as mãos sobre o rosto pediu que Deus fizesse o melhor àquele que amava. Não se tratava de drama. Pois sabia muito bem que as consequências são colhidas de todas as ações boas ou ruins Mas num misto de fé e consciência de que dias difíceis enfrentaria seu amor. São dias difíceis…pensou.

Levantou, olhou-se no espelho e certificou-se de que não transmitiria o choro ao seu homem amado. Seguiu rumo ao mesmo. Ele precisava dela. Mais do que ela julgava precisar dele.

Foi recebida com um sorriso amarelo daquele deitado no leito, abatido e com olhos sem esperança.

Beijou-o como se fosse a primeira vez no jardim de sua casa quando iniciaram o romance. Sorriu-lhe e sussurrou ao ouvido: “-Eu te amo e estamos juntos. Vai passar. Venceremos!”.

Olhou nos seus olhos e viu que o brilho não estava de todo apagado. Havia esperança. Na verdade, sempre haverá esperança quando há amor, nas lutas, sobretudo, pensou.

Escrito por: Fabiana Colimoide

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