Sabe aquele “Ok” seco na resposta? – Blog resenhas

O Pe. Fabio de Melo diz que aquilo que mais cansa a gente é ter que dar explicação sempre. Por outro lado, somente tem de se explicar quem, no mínimo, se expõe conscientemente, certo?

Quero explicar o famoso “Ok” seco das respostas irritantes, como se por trás dele resumisse um singelo e carinhoso “obrigado”, “combinado”, “fico agradecido” etc., e não o sadismo da tortura psicológica tão mau aos relacionamentos.

Para isto, vou usar alguns trechos de um belíssimo artigo que li, chamado “O Silêncio como Tortura” de um psicanaliata italiano, e acho que vai à alma dos “Ok” secos de desprezo e, por isto, desnecessário até.

Olha este trecho:

“O silêncio é uma das armas mais poderosas que se pode empregar contra o outro; expressão de falso vitimismo, (…) porque confina seu adversário em estado de constante incerteza emotiva.”

Ok. A ponte do diálogo foi quebrada e levou a relação entre duas pessoas que se amam ao conflito. O silêncio passa a ser tortura. Mas nem sempre deve ser assim. Por vezes, perdemos o assunto e não temos mais o que falar, o que é natural. Se jogarmos limpo, nossa sinceridade do silêncio acaba deixando-o acolhedor. Eu mesmo, inúmeras vezes, já disse: “eu não sei o que falar mais”, ou “eu estou sem assunto agora”. Usei meu silêncio a favor da minha impotência comunicativa. Ganhei méritos pela honestidade. É covardia e espírito pequeno o silêncio como tortura que, através do silêncio intencional, cria incertezas emotivas. Aliás, ainda mais quando o outro percebe a infantilidade do ridículo.

Outro trecho:

“Nas dinâmicas de casal a resposta do masculino muitas vezes é inadequada, pueril, tola. São poucos os homens que evoluem integrando seu componente feminino (…). Em sentido psicológico deve tornar-se sempre feminino (…): muitos homens também são vítimas do silêncio feminino sádico e culpabilizante.”

O silêncio da mulher é interpretado pelo homem como infantilidade ou fraqueza ou dor pessoal arquivada e reprimida. O silêncio do homem é interpretado pela mulher como tortura e desamor, por isto ela sofre angústias. Ok. Então, a mulher que usa o famoso “ok” seco quer mostrar seu comportamento masculino de tortura para atormentar à alma do homem? Tiro errado! Quando muito, apenas masculinizará mais a relação e construirá maiores argumentos de distanciamento. Ok representa ok no universo masculino. Homem algum entra em banheiro público reparando nos detalhes. Seu olhar é seu propósito direto do mictório. Não existe olhar para lado algum. Uma linha reta machista e viril. O simples “ok” seco feminino para o homem é um ingênuo “estou criando barbas, aumentando minha testosterona, relaxando nos banhos diários e ausências totais de cremes corporais”. Não funciona como tortura psicológica o “ok” seco feminino. Irrita pela infantilidade apenas.

Último trecho:

“…é impossível não se comunicar. Consequentemente, também, o siléncio é uma forma de comunicação, uma forma diferente como as mensagens duplas, as comunicações oblíquas, por negação etc. A sua característica é, porém, de serem indecifráveis e deixarem o recebedor das mensagens em estado de incerteza.”

O cuidado com o sentimento alheio pertence a uma categoria bem especial de seres humanos. Minha irmã, separada, me disse que a maior tortura para a mulher separada é ver o ex-marido bem. O contrário também é verdadeiro. Por isto o cuidado com o sentimento das pessoas é algo raro. Querer ver o outro sofrer aliviam as dores da ausência e da separação. Quantos “ok” seco não resumiram um “sofra, seu FDP!”? Daí entra o cuidado dos espíritos superiores. Em minha memória recente, falo “ok” para amigos homens com certa frequência. Amigos homens, claro. Jamais o silêncio seco para uma mulher, porque eu não sou adepto à tortura. Melhor um posicionamento claro, ainda que machuque do que deixar a dor da dúvida, que agoniza. A dúvida para o homem acaba virando sexo e bebida; a dúvida para as mulheres potencializa doenças, porque o primeiro extravaza e a segunda somatiza assustadoramente.

O silêncio como tortura é sadismo. Um sádico é um doente. Precisa de orientação para entender que este mal volta para si em algum momento. O “ok” seco para sofrer a dúvida é feio, frio, e falta de humanidade. Ninguém muda a dor interna rapidamente espalhando “ok” seco para sofrerem. Nem por isto tem de provocar dores. É pouco. Bem pouco para si. Que a comunicação seja sempre a mais plena possível. Ok?

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