Livros e Resenhas – O melhor roubo

Roubar é uma violação das leis morais e civis existentes e ela sabia muito bem, uma vez que estava a alguns meses cursando o estágio no escritório de advocacia no subúrbio da cidade. Faltavam alguns meses para concluir seu tão sonhado propósito de ser uma advogada e sua personalidade firme, ética e humana a inspirava a defender as causas nobres dos menos favorecidos.

Sempre muito dedicada aos estudos, pouco tempo dedicava para as atividades sociais entre os amigos. Focada no seu preparo profissional, nem percebia os olhares que ele cruzava a cada dia que ela adentrava na subseção com sua graciosidade, ainda que ingenuamente devido a falta de experiência nas paqueras e amores vividos.

Dono de um par de olhos azuis e cabelos levemente grisalhos, associado ao seu porte atlético da prática de suas corridas no parque florestal da região a cada manhã, era um homem vivido e realizado. Já era advogado da vara cível há anos e queria experimentar o doce sabor de viver a vida na intensidade distante de somente trabalhar. Tinha tudo que planejara desde os ternos anos de sua juventude, exceto uma família. Perdera sua mãe em pouco tempo e sentia a ausência de uma esposa, de uma companheira.

Ela, em sua vida, não tinha muitas vaidades e ambições. Tinha um coração voltado para práticas humanitárias e de auxílio ao próximo. Tampouco sentia necessidade de amar alguém como nos relacionamentos que suas amigas sempre a incentivavam a viver. Ela acreditava que no tempo certo apareceria alguém que mexeria com seu coração e seus maiores sentimentos que ela por certo não hesitaria em compartilhar.

Era o horário vespertino que antecedia um longo feriado e todos da subseção combinavam uma social após o expediente num bistrô próximo do trabalho. O horário de verão contribuía para que um passeio ao parque local também fosse uma opção para ela que preferia estar em meio a natureza a em ambientes muito movimentados. Não era antissocial, mas o silêncio e a paz ela encontrava e optava depois de um longo dia agitado como aquele.

Observava as bromélias e os pardais que brincavam em bandos com sua maestria de voos rasantes, quando se sentiu observada pelos olhos azuis e sedutores do advogado mais experiente e agora observado fora do terno social e sombrio.  Ele lhe sorriu e se aproximava. Ela não entendia bem o que poderia classificar como o que experimentava ali. Afinal, o via todos os dias, mas nunca lhe fitava os olhos.

Ele se justificava por estar ali, pois também preferiria a solicitude do contato em meio a natureza do que a agitação da equipe do trabalho.Ela acreditara, embora ele tivesse a intenção mesmo era de estar junto dela. Estava atraído por sua meiguice e apreço pelos mesmos valores que acreditava e procurava praticar.

Conversavam sobre diversas situações do cotidiano e descobriam aos poucos diálogos traçados muitas afinidades e algumas diferenças que a idade, a experiência e a vida sustentavam. Para ele, isso era um desafio, pois queria estar mais próximo dela como que numa ânsia por descobrir nela a vida que ansiava a si. Ela sentia ali um misto atrativo fisicamente por ele, pelo seu charme e a segurança da sua idade que era proporcionado em um pouquíssimo tempo. Seu coração parecia a galopes estar.

O sol declinava no horizonte e aos poucos a noite ia se aproximando. Eles sentaram por um breve espaço de tempo entre a chegada e a saída do parque. Estavam muito próximos e ele percebera a inexperiência dela frente a si e ela só tinha uma certeza: de que aquele momento fosse eterno.

Olhares mais intensos e o toque nas mãos foram sentidos. Pareciam querer transpor a distância existente entre eles por longo tempo. Um tempo como perdido para ele, pois a conquista nunca fora oportuna. Um tempo exato para que ela despertasse para as suas necessidades.

Relacionar-se era arriscado, para ela, por sentir-se vulnerável ante o desconhecido. Para ele, o relacionamento era a consequência de suas vontades reais e agora mais vívidas. Não no misto de ter uma pessoa como a sua saudosa mãe, mas sim, como uma candidata a companheira.

Ele acariciava ali agora os cabelos daquela mulher e via seu olhar inebriante e convidativo para o encontro almejado por ambos e incontido por meses a distância. Ele roubara-lhe furtivamente um beijo como num selo de carta. Ela retribuíra e oportunamente ele com a sensualidade da busca de ambos os lábios e sua língua a explorar o desconhecido e desejado universo dela que entregue estava sem reservas.

Cada vez mais intenso o contato se tornava e ele percebia o quanto ela estava ali inocentemente rendida aquele momento. Não como as outras que ele já se relacionara, onde se quisesse poderia concluir em um ato sexual rápido e egoísta. Era-lhe diferente, pois a observava há tanto tempo e via a pureza de uma mulher que queria ousar conhecer melhor. Ela de verdade não tinha nenhum momento como esse e inocentemente não queria que findasse.

Os beijos roubados têm um misto saboroso de se tornarem inesquecíveis e os melhores sentidos. Aquele momento ali se perpetuaria na memória de ambos e ainda que o tempo os separasse, tinham a certeza de que o roubo ali fora o melhor permitido e vivido. Eles saíram do parque já com a lua cheia a complementar o início de outros longos dias de convivência, de busca por maior conhecimento e cumplicidade, longe da ilusão da paixão cega, mas da busca pelo amor amadurecido e que resiste a tudo, inclusive as diferenças.

Juntos ousariam caminhar. Ele com anseio por uma relação mais sólida, com respeito ao tempo dela e com a sua busca nada momentânea pelo prazer. Ela com a coragem de experimentar os sentimentos mais nobres e que sentia serem necessários de cultivar, a despeito das diferenças. Faria bem a ambos certamente.

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