Livros e Resenhas-O limite da razão com o polo da emoção

Ele folheava o prontuário do cliente que acabara de ingerir 40 comprimidos de olanzapina. Dera entrada em torpor e quase morte. Na verdade era essa a intenção do homem de quarenta anos que decidira ampliar a dose habitual do medicamento que usava para tratar seu transtorno bipolar. Como farmacêutico, sabia muito bem a ação da medicação usada para esse fim.
Fora diagnosticado depois de longos anos de sofrimento no seu íntimo. Diversas alucinações, fuga da realidade. Tudo começara com uma necessidade de autoafirmação e ampla busca por aceitação alheia. Incontido no seu íntimo via coisas onde não existiam. Sentia sensações e sentimentos carreados de projeções que somente ele percebia ao redor.
Sua esposa o deixara por não conseguir mais suportar tamanha luta interna dele consigo mesmo e contra ela e os filhos inocentes. Já havia, segundo o histórico, sofrido de depressão e com tentativas suicidas por mais de uma vez. Interessante, o farmacêutico ponderava ao virar a página da história familiar, como ele desde criança sofria de transtornos mentais sutis e que já tivera inclusive internado quando pequeno para tratamento de uma massa a ser investigada na calota craniana na região occipital. Tinha a cicatriz visível da pequena e delicada cirurgia que se submetera. Era um pequeno tumor diagnosticado precoce e em tempo.
Segundo relato da sua mãe, uma portuguesa já bem idosa e com poucos estudos, ele era bem introspectivo, tinha dificuldades de expressar sentimentos e com poucos amigos ao longo de sua infância. Adolescente reprimido e com senso de culpa, tinha a mente voltada para si. Inteligente, contudo, uma mente brilhante. Frustrado por um casamento desfeito onde o seu alicerce rompera as entranhas da lucidez e o descontrole o enraizou pouco a pouco.
Buscara assim, outro alicerce para suas emoções necessárias e fugas da realidade. Instabilidade de humor cada vez mais frequente. Negativa de sua parte, porém, para a busca por auxílio profissional. Cada vez mais era perceptível a sua necessidade de autoafirmação. Momentos de agressividade ele externara sem pudores. Perdera o senso da razão e tampouco buscara a realidade necessária: de que precisava de ajuda. Precisava e suporte psicológico para as suas infindáveis fugas da realidade, onde enxergava o que não existia.
Assim, o profissional ouvira dos lábios da ex-esposa e da ex-sogra como ele estivera nos últimos meses. Não sabiam lidar com essa situação. A ex-esposa até mencionou as agressividades que ele fizera questão de cometer, verbais em alto e bom som a quem ouvisse a tornando a culpada pelas decisões dele de sofrimentos. Ele na verdade não aceitara que ela recomeçasse a sua vida amorosa. A todo tempo, ele queria externar situações e fatos que estavam no seu íntimo como se fossem a realidade. Parecia querer evidenciar estar por cima da situação real, onde seu egocentrismo precisava ser amaciado publicamente.
Não aceitava apoio de nenhuma espécie quando mencionavam como a psicoterapia poderia auxiliá-lo na fuga da vida aqui fora. Uma fuga do eu interno que ele explorava inteligentemente e de modo brilhante a ponto de não transparecer suas mais cruéis fragilidades. Fragilidades estas que nem a família, nem ele mesmo conseguiam administrar. Era etilista e tabagista social, o que piorava o tratamento necessário.
O farmacêutico ajustou os óculos e prosseguiu na leitura da internação. Aquele homem já fazia uso do medicamento há apenas seis meses. Seu último relapso da vida real fora a relação floreada com uma jovem muito mais nova que ele e extremamente o oposto dele, em beleza, jovialidade e aptidões. Ora afirmava uma coisa, ora contradizia a mesma coisa, perfazendo momentos de busca por justificar-se, ser aceito, não sofrer condenações ao redor. Numa busca frenética por aceitação, não suportando mais a perda de si mesmo e a luta entre o gigante dentro do peito, resolveu a automedicação do antipsicótico que o psiquiatra receitara. O fato de ele ter ido ao psiquiatra, não fora por vontade própria. Sua prima, o levara a contra gosto dele para uma avaliação. Dali em diante, as medicações fariam parte da trajetória dele.
Agora, ele estava no pronto atendimento de uma grande emergência, numa pequena sala de pequenos atendimentos, continha uma sonda de grosso calibre em uma de suas narinas e sofrera o processo de desintoxicação necessário. Ele tentara resolver de seu jeito a dor da vida. Tentara apagar a luta que tinha todos os dias no seu cérebro como se tivesse um animal selvagem que necessitasse de fortes grades. A mente é a cidadela de pensamentos e estes, a ele, eram vilões. Depreciava-se constantemente. Faltava-lhe a maturidade que julgara ter, porém não era vivida.
E aí, pensava agora o farmacêutico ao observá-lo adormecido na maca com biombo entreaberto, que a família a ele estaria sendo determinante para o processo de cura. Uma cura que aquele homem precisava almejar mais do que a morte. Precisava reconhecer que era humano, falho e necessitado de maturação da sua mente. Um processo que era vital ante a dor que a bipolaridade causava a cada instante nele o afastando da realidade e levando-o para o mundo da fantasia, da instabilidade racional e emocional.
Assim como ele, milhares estão no limiar da loucura. Ora não enxergando a sua real condição em face da fantasia das emoções, ora reconhecendo que algo não está estável, porém, sem coragem de buscar a ajuda necessária. A ajuda correta, antes que as prisões das emoções os levem para as margens da loucura.
O farmacêutico fechou o prontuário a si e foi entregá-lo ao psiquiatra chamado de sobreaviso para atender mais uma vítima de si mesma. Uma vítima entre milhares de homens e mulheres que vivem sob o cárcere das fatídicas emoções frenéticas e alucinógenas quando não controladas e trabalhadas. Emoções que se enraízam profundamente no desequilíbrio do ser e do estar. Aquele homem entraria naquele dia para a estatística dos que necessitavam de saúde mental, quando estava a ponto de perdê-la por completo. Poucos são os que enxergam essa realidade ante a ilusória vida que buscam viver no consciente ironicamente inconsciente.

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