O ano era de 1995, havia acabado de ingressar no terceiro ano do ensino médio na escola do interior de Passa Quatro e como sempre, muito comunicativa e perceptiva nos seus dezessetes anos, já nas primeiras semanas de aula, notou que era observada por um rapazinho franzino e nada bonito. Seu rosto cheio de espinhas e seus dentes amarelados quando sorria. Nada bonito, ela pensava.
Faziam trabalhos juntos e nos intervalos das aulas sempre estavam nos mesmos núcleos de amigos. Moravam relativamente próximos e para ela, ele nada lhe atraía, ao contrário…repelia tamanha feiura.
Seus olhos adolescentes estavam no amigo dele, de vinte anos, másculo, com um sorriso maroto e lábios que ofereciam beijos quentes a quem quisesse como ela.
Numa tarde quente de maio daquele ano, achou uma carta entre seu caderno ao retornar do intervalo da aula de português. Olhou ao redor e curiosamente abriu e pôs-se a leitura em letra cursiva.
Era uma carta de admiração de alguém por ela. Destacou um trecho “ Quando o amor é sincero ele vem com um grande amigo, e quando a amizade é concreta ela é cheia de amor e carinho” Shakespeare. Guardara a carta, a aula iniciara.
Não sabia quem seria o remetente da mesma, mas tampouco quis procurar.
Três semanas depois, recebera outra carta e nesta, desta vez, o autor estava sendo mais audacioso e usou novamente Shakespeare, “Quando a boca não consegue dizer o que o coração sente o melhor é deixar a boca sentir o que o coração diz”
Ela então começou com as deduções… Inocentes deduções. Lembrou-se de lábios, vontade de beijar e imaginou que o autor era o rapaz de seus sonhos másculo e apaixonado por ela, pensara.
Resolveu retribuir e escreveu em pequenas linhas um trecho do livro que tinha por cabeceira de Antoine de Saint Exupéry: “Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim o único no mundo e eu serei para ti a única no mundo” . Dobrou o papel de carta que usara e numa oportunidade, colocou entre o caderno daquele que julgava ser o apaixonado autor.
Fez um pequeno poema a parte e este entregaria pessoalmente: “Como não duvidar, se o que belo me escreves, não ouço de teus olhos e não vejo de teus lábios”? – e dobrou o papel de carta dentro do estojo. Esse poema ele ouviria de seus lábios e depois os mesmos beijaria em sua imaginação.
Observara todos os movimentos dele e como ele reagira a leitura posteriormente. Não havia se identificado.

Ele tampouco dera importância, na verdade, até satirizou ante os amigos do fundo da sala que tinha muitas meninas aos seus pés e ele não tinha dona em seu coração.
Ela, que já se iludira com a figura daquele rapaz, chorava por dentro. Coisas de adolescentes, dizia sua mãe ao vê-la triste em seu quarto. Coisa boba ouvia sempre.
Meses se passaram, estações mudaram e o ano letivo caminhava para o final. O seu rapaz dos sonhos, estava sempre com alguma menina, porém, nunca com a mesma. E tampouco a notara, para sua amarga tristeza.
A campainha tocara certa noite de uma sexta feira em sua casa. Estava sozinha e demorou um pouco para atender. Mas não encontrou ninguém lá. Havia apenas uma carta presa nas grades do seu portão. Letra miúda e com palavras de amor. Escrita cursivamente cada palavra, ali alguém se declarava a ela. Apaixonadamente.
Ele citara desta vez Exupéry, “Foi o tempo que perdeste com tua rosa que fez a tua rosa tão importante”. Tu és a rosa mais bela que há no meu jardim…
E finalizou com um idioma que ela desconhecia totalmente: בואו האיחוד האירופי טה עמר.
Ela não sabia nem o que queria dizer, mas ao pesquisar, viu no idioma hebraico uma pergunta não tão corretamente escrita: Deixa eu te amar?
Procurou o autor da carta, quem assinava a mesma e discretamente viu o nome daquele rapaz, não o que estava em seus sonhos pueris, mas o feio. Sim, o mais feio daquela sala. Que horror! Pensou! Sequer sentia vontade de beijar seus lábios. Imaginava que ele beijasse muito mal e que até sua saliva fosse abundante e se afogaria!
As aulas seguintes foram de distanciamento da parte dela daquele que havia se declarado. Ela não o queria. Nem tentar faria! Por certo, ele sofrera, mas calado.
Ao final daquele ano, todos seguiram seus rumos. Ela passara no vestibular de Farmácia e saíra da cidade. Nunca mais tivera contato com os amigos da turma, tampouco com o rapaz feio.
Vinte anos se passaram. Estava em seu apartamento na Av. Rebouças na grande São Paulo. Ainda não havia casado, mas estava como farmacêutica num grande laboratório da cidade e ingressara no Doutorado em Farmacologia. Tinha todos os méritos profissionais e de status que a sociedade preza. Mas ainda não tinha todas as lacunas da sua vida preenchidas.
Iria se mudar para Campinas dentre alguns dias para estudar e teve que ajustar seus pertences, tirar coisas e colocar fora, encaixotar e ver o que era útil levar. Tinha muitos papéis e livros ao longo da vida. Iria dar alguns inclusive.
Pegou o exemplar de O Pequeno Príncipe. Este ainda era-lhe um grande apreço e dele não se desfaria. Ao folhear o mesmo, viu três papéis dobrados e amarelados e um pequeno pedaço de papel de carta.
Eram as três cartas de 1995 e o terceiro, o poema que fizera para o seu amor de adolescência.
Remeteu-se a tantas lembranças e viu que estava tão bem estruturada, mas que não completamente. Viu que precisava dividir a sua felicidade com alguém. De que adiantaria estar tão bem socialmente, mas não emocionalmente?
Lembrou-se de sua escritora preferida e sussurrou um belo verso da mesma: “Não procure alguém que te complete. Complete a si mesmo e procure alguém que te transborde” Clarisse Lispector.
Voltou a arrumar as caixas. Nesta nova mudança, teria que desfazer também de suas bagagens desnecessárias e inclusive dos preconceitos que a acompanhavam, inclusive da beleza que no seu momento juvenil, talvez a tenham impedido de ser feliz e dividir naquela fase a felicidade que lhe era ofertada através do menino feio. Como no livro preferido estava escrito, “Só se vê bem, com o coração. O essencial é invisível aos olhos”.
Por fim, pensou num provérbio português, onde verdadeiramente. “Quem ama o feio, bonito lhe parece” e como Shakespeare disse, “Fortes razões, fazem fortes ações”. Ela precisaria agir, fortemente.

Texto escrito por: Fabiana Colimoide

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