Parece que a dor do abandono (quem nunca?) é a essência da separação para a parte mais fraca e mais frágil de uma relação – aprendi na relação com a minha filha que eu sou a parte mais forte e, por este motivo, tenho que ceder mais facilmente. O mais forte tem que ceder.

Quem mais fala da dor é porque mais abandonado se sente, mais dor carrega, e sofre, e agoniza, e se desespera solitariamente. Adoro o termo abandono. Meu coração se compadece e sinto vontade de adotar todos os abandonados. Tenho coração de mãe.

Sou ainda lembrado persistentemente, porque escrevo, de que retomo alguns aspectos de minha separação em meus textos quando escrevo. Sou lembrado que há recalques não ainda solucionados justamente porque escrevo. Aliás, recalque é um ato falho do inconsciente. E recalques valem apenas para os adultos. Raramente crianças e adolescentes tem recalques: eles tem medo, temor, susto. Por isto nós adultos somos o lado mais forte das relações com eles.

Adoro a dúvida. Mas não suporto a indecisão. Quem gosta de indecisão? Eu gosto da dúvida porque alimenta a reflexão. Amo refletir. Saboreio a reflexão como daquelas balas azedinhas que vem do Japão e que doem nos lados da boca, em cima da mandíbula. Estão sentido aquela dorzinha agora? Caso afirmativo, são os neurônios-espelho.

Discordo dos recalques porque escrevo. Mas alimento as dúvidas porque me separei e aí vem as reflexões. A separação – feito tudo que é novo na idade madura – foi que me deu sentimentos novos, mas previsíveis e calculados, que eu não tive de forma tão intensa até então. Tive e tenho de escrever a respeito. Recalque? Há artista recalcado? Quem não teme a arte é porque sabe que a vida passa. O passado confirma esta verdade. O resto é vaidade e alienação.

Não virei escritor após me separar. Já o era, antes mesmo de namorar, e o escritor adormeceu por uma década. Quando escrevia eu já fazia de outras experiências minha visão, sensação, abstração, assimilação de palavras de reflexão. Ora, uso das minhas experiências para entender algo que vale para muitos. Sempre há um coração querendo entender-se.

Digo, para fechar agora, que cada qual com seu alimento emocional para fazer a sua sopa ou o seu cozido. Mais tempero. Menos tempero. Eu adoro pimenta e tenho uma tese relativa à pimenta que demonstra maturidade com a sua vida corporal: quem ama pimenta tem o corpo livre  de constrangimentos e sem recalques. Enfim, nossa modernidade ajuda a escrever porque ajuda a ter mais leitores. Aos meus leitores, comam pimenta com queijo e vinho tinto. Vão amar a experiência…

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