Era uma tarde de março de 2009. Ela, moça da cidadezinha de Manhuaçu em Minas Gerais, agora aos seus vinte e oito anos, tornara-se moradora da grande São Paulo. Filha mais velha de quatro irmãos, havia sido aprovada numa seleção de mestrado pela Universidade de São Paulo  para estudar Literatura.

Nunca havia tentado nada além do perímetro de sua cidade e muito embora tivesse universidades federais no seu Estado, seu ideal era estudar na que agora estava como mestranda. Dona de um meigo sorriso, cercada de inúmeros amigos, com uma carreira promissora. Resolveu arriscar sair da casa dos pais em busca do sonho.

Ao passar dos meses e anos, ainda sentia muito por não adaptar- se a cidade. Parecia que seu jeito incomodava as pessoas, uma vez que era muito atenciosa e isto era confundido em grande maioria com carências ou “grudes”. Aos poucos ela foi perdendo a vontade de se preocupar com os outros.

Já não mais mandava mensagens, emails ou telefonemas aos amigos distantes. Sequer fazia questão de ser a mesma de antes. Olhou-se numa tarde com garoa lá fora e achou-se sem sentido… Havia perdido algo que lhe pertencia desde sua tenra idade! Não era mais a mesma, havia sido produto do meio…

Então chorou como uma criança que perde algo de estimado valor, algo que sempre dormia e carregava. Algo que era seu. Não sabia o que fazer, tinha poucos amigos, poucas pessoas que entendiam quem era de fato. O ritmo da cidade era de muito trabalho, cada um cuidando de sua vida. Onde encontraria solução? Passou dias a fio sem sequer sair de si mesma… Descobrira-se perdida… Perdida em si mesma.
Foi quando ela resolveu me ligar e pedir um ombro amigo. A ouvi atentamente, demoradamente e confesso que me questionei ante minha débil e falha humanidade.
O desabafo fora necessário, aos poucos, me tornei seu confidente naquele início da noite,, pois nossa amizade perdurara a distância e o tempo. Eu mais ouvia do que falava, não tinha muito que falar, era a experiência dela afinal. Foi quando instintivamente perguntei-lhe sobre quem ela era.

Silêncio dilatado… Arrependi-me por questionar e já esperava a ríspida resposta.

Tal qual surpresa, a ouvi sussurrar: “não sei mais quem sou e me desconheço. Preciso voltar ao que era antes” – e a ouvi soluçar.

Senti as lágrimas quentes dela em minha face, senti sua dor e sua inexistência paradoxal ante o seu passado e o meio em que estava vivendo.

Queria segurá-la em meus braços e acariciar seus ruivos cabelos, torná-la para si mesma. Mas percebi que eu não poderia trilhar o seu caminho, mas sim, dar-lhe minhas mãos, meus ouvidos e meu ombro amigo.

Doce menina… Apaixonante menina… Uma bela mulher que me encantara e hoje estava em crise existencial ante as perdas.

Finalizamos nossa conversa com um discreto “boa noite… isso vai passar”.  Não havia mais palavras. Silente nos encontramos.

De um lado da linha telefônica, eu atônico por estar distante e me sentir na mesma condição dela no que tange da frieza e distanciamento das pessoas ao redor e eu mesmo assim me encontrava, ainda que não morasse nesta cidade chamada São Paulo. Do outro lado, a ruivinha que eu tanto amava, só e perdida em si.

Esta mesma ruiva, doce menina, adormeceu no sofá naquela noite. Acordou na manhã fria da metrópole com o feixe de luz na janela sobre sua cútis aveludada. Olhando o relógio, viu que já eram nove da manhã. Levantou-se, lavou o rosto, abriu as janelas e olhou a Avenida Brigadeiro Luis Antônio. Viu tantos pedestres correndo na avenida e entre as pausas dos faróis nos cruzamentos. Viu pedintes, trabalhadores e ouviu o ensurdecedor barulho dos carros, ônibus e motos. Estava em São Paulo. Mas apenas estava ali, mas não era dali.

Olhou para o seu pequeno apartamento e viu seus livros e cd”s dos Beatles ao lado do pequeno aparelho de som. Pegou o espelho e se contemplou. Decidiu escolher a vida que latejava na sua essência e não o que se tornara devido às fragilidades que fora acometida. Ela era uma grande mulher, uma maravilhosa mulher, pensou. Por fim, sentou frente ao seu computador e com seu smartphone nas mãos, começou a redigir uma mensagem aos seus amigos distantes. Sua inspiração fora Machado de Assis e escreveu aos amigos: “Cada qual sabe amar ao seu modo; o modo, pouco importa; o essencial é que saiba amar”, amo vocês e estou com saudades! Beijos!

Levantou-se e foi se arrumar. Tinha vida em si e muitas outras vidas lá fora que precisavam ver seus olhos brilhantes com esta vida renascida. Precisava sorrir e tornar o mundo alheio com esperança de que a despeito do meio em que se é inserido, não se precisa estar contaminado pelo mesmo. Pode sim amar as pessoas, demonstrar-se afeiçoada às mesmas e externar empatia e altruísmo nas relações sociais. Isto seria sinônimo de saúde emocional e muitos estão ausentes disto. Ainda eram produtos do meio agressivo e frenético do mundo materialista e não humano ao qual fazemos parte. A diferença, ela deduziu, está nas ações e em como imagina no seu íntimo.

Ela escolhera retornar a vida. Escolheu amar ao seu modo. Havia se encontrado em si mesma.

Escrito por: Fabiana Colimoide

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