Olhei no relógio, já passavam das duas da tarde daquela sexta-feira. Estava próxima da Praça da Sé. Aquele conglomerado multicultural estava aos meus olhos. Uns gritavam “convertei-vos”, outros malandramente olhavam as bolsas e valores alheios na expectativa de uma furtiva posse a si. Alguns jogavam carteado ou prosa fora.

E o que mais me chamou atenção fora uma frase:”esse morto ainda está aí!” – esbravejou um homem a minha frente.

Desviei meu olhar. Na cena, a grande igreja da Sé. Bonita, suja por fora, porém por dentro com um misto sagrado. Tumulto. Fui levada a sair daquele local devido a pressa dos ponteiros de meu relógio e dos atropelos dos pedestres. Tanta coisa ainda por fazer… Mas ainda pude senti o ar rarefeito das mortes. Um crime passional? Premeditado? Heróico? A mídia se encarregaria de propagar.

O que lembro de todo esse fatídico ato: uma inocente aparentemente em risco de vida, um acusador e assassino concreto e um transeunte para alguns que tomou o lugar de anonimato por outro de salvador. O que ele tinha a ver com o ato em si? Nada declarado aparentemente. Era como uma carta fora do baralho.

Remeto-me a um evento ocorrido e registrado nas linhas dentre uma coleção de sessenta e seis livros com mais de muitos mil anos de registros.

O dia? Uma tarde de sexta-feira também e numa nona hora local.

O local? Um monte chamado Caveira ou Gólgota.

O Salvador? Um carpinteiro, filho de um casal humilde e de apenas trinta e três anos ( tão novo!).

O assassino? A inocente? Estavam entre a multidão. Ambos. Aliás, em grande quantidade.

Os motivos do inocente ter uma morte ignominiosa e vexatória se resumem a quatro letras: amor.

Um amor por uma humanidade desmerecedora e sem pretensões de tornar-se justificada de algum mérito exato. Sim, eles estavam lá naquela tarde fria e sombria. Uma tarde onde um Homem morreu junto a salteadores, numa cruz que não lhe era sob medida, pois não era para si.

E onde estávamos?

Tanto naquela sexta fatídica na Sé, quanto na multidão volupiosa que condenava um homem, sem culpa, onde estávamos? Eles, esses homens, não mensuraram passos, forças ou intrepidez para defender o que criam: lutar pelo outro a despeito de qualquer coisa. E homens que mesmo sabendo destes riscos, como o morador de rua da Sé, correram sem reservas para socorrer alguém em perigo.

Nós estávamos em perigo ante um inimigo e Ele, no Calvário não mediu esforços para socorrer-nos. A história diz isso. A fé nos move a crer. A humanidade requer ouvir e saber. Sim, todos saberão assim como do homem em luta por uma desconhecida.

A diferença é onde queremos estar após tudo isso aos nossos olhos e ouvidos, pois ainda lateja a pergunta: onde estávamos? Onde iremos querer estar? De qual lado? Em nosso peito teremos altruísmo pelos desconhecidos? Ainda que por classificação de loucura, ousaremos atos de heroísmo nas palavras, nas atitudes? Onde estaremos neste mundo que caminha para a frieza de falar que quem morre é apenas um transeunte ou torpe louco de arriscar a vida por quem não se conhece? Onde estaremos ao frisar que ainda bem que mataram o homem? Onde?

Falta-nos o mesmo amor demonstrado naquela tarde no Monte do Gólgota? Cada dia mais quero me convencer de que nos poderá faltar tudo, menos, o amor altruísta e abnegado de apenas seres humanos…humanos de verdade e de fato.

Texto escrito por: Fabiana Colimoide.

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