Blog Livros e resenhas- O sal e a luz/Fabiana Colimoide

Ele olhava crianças brincando de “pique esconde” no vasto bosque de onde fora o jardim Imperial no Rio de Janeiro. O cheiro da relva molhada pela chuva forte da noite anterior era acentuado. Tal chuva havia causado a queda da energia. Ao fundo do cenário, ele podia contemplar a comunidade de uma das escolas de samba campeãs do carnaval carioca. Contemplava tudo isso enquanto terminava de lanchar e passava o tempo sem muito que fazer ante a escuridão dentro da sala do seu apartamento. Somente uma luminária dava um tom reluzente que na penumbra destacava-se. Ele segurava em uma das mãos um pedaço de pão com tomate, alface e queijo branco. Estava insosso. Na pressa da fome esquecera-se do tempero primordial.

Como operador de telemarketing a cada tarde tinha a oportunidade ouvir pessoas e de falar na tentativa de vender produtos e serviços.

Agora, seus pensamentos se voltaram para uma cliente que atendera na tarde anterior e que desabafara suas dificuldades justificando assim sua recusa pelos serviços ofertados. Era mãe aos vinte e três anos, já sem o pai da criança de dois anos que com broncopneumonia estava internada no hospital da região e isto lhe apertava no peito as preocupações de mãe. Sem muitos recursos, moradora da comunidade que ele avistava na manhã da sua janela, dizia das lutas que estava a cada dia vivendo.

Sem muito jeito para tratar de assuntos assim, ele se lembrava de apenas dizer que ela precisava confiar em Deus e que daria tudo certo com seu pequeno filho internado. Ele era um tanto seco para relacionamentos, tivera poucas experiências, poucos amigos e a vida agitada que levava, não investia muito tempo para isso. Não sentia falta até a tarde anterior.

Olhou para a luz que incidia sobre o ambiente, ainda que timidamente devido à imensidão do ambiente ao redor e a pequena lâmpada no bocal. A luz iluminava a despeito do espaço desafiador ao redor, muito maior que a mesma a ponto de parecer que as trevas da escuridão   a pudessem abafar.

Sua memória se reportou a um homem da Central do Brasil que quase em sussurro dizia para a multidão apressada que “era preciso ser luz do mundo e sal da terra”. Ele mordeu o último pedaço do sanduíche, porém sentiu a falta do sal. Pegou o saleiro e colocou uma pitada no pedaço nas mãos e saboreou com mais vontade. O sal fizera a diferença no interior do seu último pedaço e que fora o melhor de todos os anteriores. Tudo porque o sabor estava melhor.

Era necessário se misturar também com as pessoas, com busca por bons relacionamentos e, sobretudo cultivar os mesmos. Tinha suas dificuldades. Sabia bem disso. Mas fazer se influente no meio e no interior das pessoas, bem como sensibilizá-las era desafiador. Afinal, sempre deixaremos alguma marca na vida das pessoas, ora beneficamente ou o contrário no coração alheio. Tocamos os corações com palavras, ações e atitudes, ele pensou.

Quanto a luz, ele parou a pensar. Essa influencia externamente, trazendo da escuridão para a luz. Da tristeza para o lampejo da alegria. Sim, a luz tem o poder de iluminar, de trazer feixes de luminosidade e de direcionamento dos passos por conta de iluminar o caminho outrora escurecido em trevas.

Quantas pessoas sem luz e que não sentem o sal!Ele balbuciou.

Dificilmente parava para pensar. Mas, o “apagão” no prédio o induziu a não fazer outra coisa, senão pensar, ainda que no escuro com um sanduíche insosso.

Ele queria ser sal. Queria contribuir para dar sabor à vida ao redor. Para as poucas pessoas que poderia fazer contato, pois se conseguisse fazer a diferença para uma única pessoa que fosse já se sentiria satisfeito e feliz.

Também ansiou ser luz. Precisava auxiliar as pessoas ao longo do percurso. Precisava iluminar, pois de trevas o mundo já está abarrotado.

Olhou novamente para além da janela. Viu a grande comunidade verde e rosa com sede da escola de samba logo no início da subida do morro. Ali morava a mulher que ele conversara na tarde anterior e que desabafara um pouco de seu sofrimento e tamanha luta. Ele via discrepância e sofrimento ante seus olhos. Não conseguia entender algumas desigualdades.

Queria e precisava fazer a diferença, ainda que incorresse na incompreensão. Afinal, eram os riscos desta fatídica existência.

Sim, seria sal, influenciando de dentro para fora, dando um sabor, sem perder sua essência. Seria sim, a luz também. Contagiando de fora para dentro, sendo ele mesmo. Sem clichês ou rótulos da midiática sociedade da grande cidade. Seria simples e puramente um homem de sonhos e anseios. E lutaria pelos mesmos.

Foi desperto dos pensamentos com a alegria das crianças do apartamento vizinho com a volta da energia a iluminar todo o ambiente, dissipando a escuridão que outrora o acompanhava nos pensamentos. Passou os olhos pelo ambiente. O saleiro estava ali ao lado da luminária que desligou num click. Lado a lado. Ambos essenciais. Somos chamados para sermos assim neste mundo de relações descartáveis com escuridão na alma.

Já eram quase onze daquela manhã. Perto do horário de sair para mais um dia de trabalho. De ouvir atentamente as pessoas. De ouvir as recusas e lutar pelos aceites ante suas ofertas. Seria mais um dia de oportunidade de proceder como um sal, como uma luz. O trabalho lhe aguardava lá fora.

As pessoas lhe esperavam, ainda que sem perceberem, lá no exterior e no interior de si mesmas.  Ele precisava caminhar ainda que em meio a escuridão e num mundo insosso das validações das pessoas.

Texto escrito por: Fabiana Colimoide.

Blog Livros e Resenhas

 Curta nossa página XD

Estamos no Google+

Comentários

Comentários