Numa realeza, a palavra do rei não volta atrás, pois isto é sinal de fraqueza. Bem como este ser sempre o dono da razão, da experiência e do saber. Sabe muito mais do que os outros. Sabe tanto que se sente na condição de monarca, em autonomia para interpretar e julgar atitudes alheias, faladas, expressas em atos solitários ou coletivos e até mesmo o silêncio de outrem.
Na condição de rei, é sabedor a olhos humanos de vastos livros, inúmeras teorias que outrora o permitem julgar o outro. Mas quero ressaltar que se chega a uma etapa monárquica em que o rei se vê nu. Ou seja: o rei está nu!!!

Sem sua coroa real do intelecto e sem seu cetro de direcionamento ao comportamento alheio. Suas vestes que o tornam tão digno de julgar a nudez de outrem que visualiza com olhos parcos, não cobrem mais seu corpo.

E quando isso acontece? Quando se torna perceptível que o rei busca tantas interpretações no outro a ponto de falsos argumentos coletivos ou individuais, mas não consegue descobrir-se em si mesmo.

Não tira a venda dos olhos reais para enxergar o óbvio: é miserável, cego e agora está nu. Muito mais do que julgamentos de certos ou errados que vê no outro, mas não enxerga em si mesmo suas mais débeis necessidades e fragilidades.

O rei está nu.

Nu quando se vê apaixonado e sem condições racionais de admitir-se frágil e delicadamente envolvido por aquilo que lhe faz tão bem a alma, porém, a covardia encontra lugar em seu reinado, pois teme não ser aceito com suas vergonhas íntimas, com sua nudez de manias e trejeitos peculiares e próprios.

O rei está nu quando busca desculpas para seus atropelos e dureza de ações, palavras e olhares. Ele tem a rudeza em si, mas não consegue ver a nobreza do pequeno ser no peito e insiste em ser o que se espera dentro da realeza, ainda que seja um nobre menino no seu íntimo.

Está nu quando percebe que a indiferença praticada lhe doeu muito mais do que naqueles que praticou intempestivamente como se usasse o escudo real, porém, sem a presença da batalha com o outro. A batalha está travada internamente em si na verdade. Medo do descontrole situacional. Não é o forte e insensível. É apenas um rei nu… Completamente nu. Como uma criança.

O rei está nu. Necessita de vestes de humildade, de resignação para entender que é ele quem precisa ser compreendido em si mesmo. Que é ele quem precisa deixar segurarem suas frágeis mãos de monarca e permitir-se ser conduzido pelos caminhos que atemorizam sua majestade ante a sensação de perda de controle, mas que são caminhos do amor de verdade.

O rei está nu quando percebe que os sentimentos do coração que nutre de modo alheio e que lhe contribuem para viver de verdade o sufocam. Sim, pois se perde a majestade no trono imperado pelo nobre e real sentimento do amor, sem malícias ou interesses egoístas, apenas puro e doce.

E o que o rei deve fazer ante sua nudez? O ideal é aceitar-se nu, pois nu veio a este mundo e nu tornará a terra. Inclusive até o pulsar de seus sentimentos reais no peito de monarca, pois necessita enxergar-se como homem apenas, antes de rei e que ainda sendo débil, frágil, requer descer da altivez do saber e perceber sua situação comportamental, social e, sobretudo, emocional. É chegada a hora de usar o espelho real, sem estar coberto pelos fartos tecidos acetinados da realeza, tampouco espelho quebrado.

É… O rei está nu… Verdadeiramente nu.

Precisa perceber-se assim para enxergar a necessidade da rainha como a sua companheira e auxiliadora para se vestir e prosseguir na realeza. O trono tem duplicidade de monarquia, com respeito e cumplicidade. O caminho não pode ser feito sozinho sobre o tapete aveludado e longo dessa realeza.

Requer, de verdade, cobrir-se com as vestes da humildade no lugar das vestes reais, segurar as mãos de alguém ao invés do cetro real, colocar a coroa do amor e da sabedoria sobre a cabeça ao invés da coroa de ouro e ousar caminhar sobre o chão batido com buracos, desníveis, mas acompanhado, no lugar de fazer o percurso sobre um simples e temporário tapete aveludado vermelho que é destruído por traças ao longo do tempo.

 

Semelhantemente, homens e mulheres encontram-se como vieram ao mundo: sem vestes, porém, ainda se acham vestidos em si mesmos. Ledo engano. Necessitam conhecer-se a si mesmos, antes de ousarem decifrar o outro, ante as condições do comportamento humano que os instigam.

Necessário viverem apenas como humanos, sentindo-se como humanos e olharem como tais aos outros humanos tão falhos quanto a si mesmos. Aceitando as necessárias mudanças, não visualizando como se fossem grandes montes e sim como caminhos a serem trilhados, com apenas um passo por vez, mas que sejam iniciadas tais passadas rumo à completude. Iniciando de dentro para fora, do Alto para baixo e de si para os outros que tanto o instigam na nebulosa compreensão humana. Necessário aceitar as mãos alheias que tanto querem acolher e acompanhar.

Necessário despir-se em si mesmo primeiramente…

Todos, sem exceção estamos nus e necessitamos do outro para nos vestirmos e nos mantermos assim por uma vida inteira.

Escrito por: Fabiana Colimoide

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