Mágoa, Rancor, Raiva, Ódio

Ficar destilando mágoas constantemente traz o benefício do alívio no momento. Nem sei se sou adepto a este tipo de alívio porque ele engana quando a mágoa vira rancor sem se dar conta porque já é raiva e ódio. E rancor é doença emocional. A cura geralmente vem de dentro, a cura de todas as doenças emocionais.

Como a maioria de tudo de nossas vidas presentes, a mágoa vem de um passado, que passou por um arrependimento, uma frustração, uma desilusão que se iniciou uma ilusão. Até aí, são aprendizados necessários, né? Entre o passado de mágoas e o futuro dos sonhos, o presente é puxado para ambos os lados. Evidentemente, estamos muito mais no passado, já que é nossa realidade: o que vivemos. Evidentemente o rancor é todo o mal do passado dominando a vida presente sem espaço para o perdão. Que Deus nos livre de todos os rancores.

Viver no passado remete à nossa origem umbilical, fetal, embrionária, ao nosso começo e existência, à nossa eternidade paradoxal de ter sido o que somos neste exato momento. O futuro? Está lá longe como realidade do Fim do Mundo, da implosão do Sol em Super Nova, de algum cataclisma avassalador na Terra ou caos Apocalíptico desfazendo tudo que é orgânico em nosso mundo em complexos elementos químicos instáveis buscando equilíbrio. A tendência do Universo é sempre o equilíbrio, isto é, menos gasto de energia. Nosso futuro vem com esta esperança: equilíbrio.

Falar de nossas mágoas ajuda sim no equilíbrio das frustrações emocionais do passado e que algumas pessoas fizeram com a gente e fizemos a elas também. Insistir sempre nestas mágoas pode ser um sintoma de rancor, que é tão angustiantemente destrutivo quando a Super Nova do Sol em alguns bilhões de anos. Rancor, ódio, raiva é esquecer o futuro, anular o presente, aniquilar as origens de nosso passado embrionário e gastar boa parte de nossa energia no mal alheio dentro de uma doença emocional. Para ser direto: não vale mesmo à pena!

Delicie-se na comida, na bebida, na vida que passa e nos diversos complexos sentimentos dentro de nós, sendo nenhum exclusivo a nós. Todos os sentimentos são e foram e serão compartilhados. Ninguém vive imune ao frio, à fome, à dor. Frio a gente dá um jeito de se cobrir, fome tem que comer algo e para isto a natureza é cruel com quem é comido, já a dor devemos sentir como a fome e o frio. Quanto menos mágoa e sem nenhum rancor dor a dor, ela passa mais rapidamente. Não é reprimir a dor – comum às mulheres. É visualizar o futuro em uma viagem, em um novo projeto, em algo que agregue coisas boas às pessoas, até mesmo um projeto social de corte e costura da sua avó. Neste caso, cada qual deve buscar visualizar seu futuro diminuindo as mágoas do passado.

Vida que segue. Vida que se repete. Ciclo que inicia e termina. Ciclo do sol, que nos aquece e nutre a terra com sementes para nos dar o que comer. Já a dor… Paciência, né? Coisa humana. Que as mágoas durem pouco e que nunca virem rancor, ou ódio ou raiva… A vida passa. Nosso passado está lá.


Flávio Notaroberto, escritor, professor e autor independente dos livros Contos Suaves e Não é Conto nem Fábula. Este ano publica seu primeiro romance, “Miguelito: Memórias”.

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