Livros e Resenhas-Surpresas nas lentes do amor

Apressada estava para mais uma sessão de fotografias que estava contratada a desenvolver naquele dia ensolarado de maio. Mês das noivas, mês de grandes projetos profissionais que desenvolvia com muita satisfação. Amava fotografar. Já havia feito book desde gestantes até de casais de idosos em bodas de ouro.

Em todas as situações sempre era surpreendida por alguma notoriedade entre os pares envolvidos. Cada flash e click de sua câmera fotográfica registrava momento ímpar entre eles. Olhares e gestos que diziam mais do que palavras. O amor era tão perceptível ao momento ali que ela se envolvia em cada história de amor que registrava nas lentes de sua câmera.

Já era fotógrafa há sete anos e tinha uma trajetória que envolvia ensaios dos noivos evoluindo aos casamentos no altar. E era lá, no altar que registrava o olhar do noivo ao receber a noiva conduzida pelo pai ou outro parente no longo tapete vermelho. Ria em seu íntimo por perceber o apaixonante sentimento que parecia transpor as lentes em suas mãos.

Tinha tido essa experiência há três anos e infelizmente não consumara o ato no altar. O rompimento do noivado com dois meses da data agendada causou-lhe amarga tristeza. Ela percebera que seria infeliz ao lado de um homem que era dominador e egoísta e fora ele quem terminara a relação para cinco meses depois oficializar uma nova relação com uma das suas melhores amigas. Era grata a Deus por ter visto antes de dizer o “sim” diante dos céus e das testemunhas aqui nesta terra. Tivera perdas financeiras, mas não maiores que as emocionais.

Agora, estava diante de mais um casal. Ele, com quarenta e sete e ela com trinta e oito. Ambos tinham também suas vivências e a maturidade do tempo. Ambos resguardados para a relação a dois que planejaram e agora, estavam nas lentes de uma simples fotógrafa, deixando as lembranças para anos vindouros e para a posteridade conhecer o momento único deles.

O Jardim Botânico da cidade estava com muitas crianças que corriam e brincavam com outras crianças e fugiam dos seus pais. Estes, sentados na grama, com frutas e contemplativos da natureza ao redor. Nada daquilo importava ao casal ali a frente. Exceto eles mesmos em si. Ambos pareciam os únicos naquele vasto campo verdejante e com cântico dos pássaros e as flores variadas ao redor.

A noiva, ainda virgem, fato que fizera questão de confidenciar nas conversas. E surpresa para a fotógrafa, foi a descoberta de que o noivo também. Na mente dela, inicialmente pareciam ambos terem algum problema para estarem até essa idade se guardando até o casamento. Nesta geração tão atropelada onde primeiro moram juntos, experimentam-se sexualmente e depois, se julgarem correto e bom, casam-se. E por fim, ainda se separam por incompatibilidade de gênios. Não há mais tolerância, gentileza e compreensão entre os cônjuges, ela pensava.

Mas o que deixava feliz, a despeito de todas essas escolhas nas relações, é que ela também sonhava com isso para a vida dela. Sonhava ainda subir ao altar, virgem também, para olhar nos olhos do noivo e dizer sim para a vida toda. Sonhava em lutar pelo amor, se este quisesse acabar por gostos diferentes, por dissabores do dia a dia e pelas diferenças entre os gêneros.

Acreditava no amor a si mesma e entre cada casal que tinha o privilégio de fotografar. Compreendia que suas feridas internas estavam no processo de cura e o tempo estava sendo seu aliado maior. Como diz uma frase: “necessário deixar o tempo passar para curar”.

Terminaram a sessão de fotos ao cair da tarde. O casal estava feliz. Faltavam apenas dez dias para a cerimônia num sitio do interior e outras fotos seriam feitas no dia do evento. Sonhos, metas, vontades. Assim é na relação onde há amor envolvido. Os princípios daquele casal não foram esquecidos na memória da jovem fotógrafa. Em sua lente cada registro continha o olhar puro e genuíno de um homem e uma mulher que mantiveram princípios e valores próprios a despeito da idade.

Ela caminhava ainda no Jardim Botânico rumo a sua casa após despedir-se dos nubentes quando avistou um amigo de infância e que estudara no pré-vestibular. Fazia alguns anos que não se viam, embora tivessem contato pelas redes sociais e afins. O reencontro trouxe lembranças de uma amizade genuína que o tempo não apagara e que na ocasião que o rompimento do noivado ocorrera, fora solidificada pela companhia dele em diversos dias após, com sua atenção e carinho diante da dor no peito dela. Ambos conheciam bem um ao outro devido a sólida amizade no passado.

Conversavam, sentaram na grama, ficaram descalços sentindo a relva verde e úmida. Ouviram os pássaros e contemplaram as flores como nos tempos antigos. Nas lentes dela, houve esses registros que nunca passam despercebidos por uma fotógrafa. Nos olhos dele a ela, o registro estava de uma antiga paixão de adolescência que agora poderia ser o princípio do sentimento do amor.

Ambos livres e desimpedidos. Ambos com vontade de amar. Conversaram, riram e sequer perceberam que em dias vindouros, juntos caminhariam passo a passo, cada qual com suas histórias e valores, cada qual em respeito ao outro. Nas lentes do amor, do amor no tempo oportuno. A vida carreia surpresas e recomeços aos corações, basta apenas acreditar.

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