Livros e Resenhas-Lê pra mim?

Mais uma sexta feira na capital paulista e ela atravessava a cidade através do metrô entre os bairros da zona central para a periferia da zona leste. Trabalhava como atendente num hotel e dedicava parte de sua semana agitada para estar com duas crianças estudantes de uma escola pública participante do projeto “Lê para mim?”.
Elas ouviam-na ler sobre contos e literatura brasileira voltada ao público infantil. Em paralelo elas teriam o incentivo para escreverem a sua própria história. Solidificariam o hábito da leitura e da escrita.
Ela estava neste projeto desde o início do ano letivo e os encontros semanais eram cada vez mais apreciados e validados em contraste com as idiossincrasias que os genitores, adictos em recuperação, além da localidade onde residiam cercadas pelas diferenças sociais ofereciam como futuro certo.
A escola era o canal de libertação para as duas meninas de dez anos. Ambas desenvolviam a cada encontro as vontades de pensar mais e crescer constantemente. Os sonhos eram-lhes brotados no pequeno peito e transcritos para pequenas folhas de papéis em cada encontro.
Para aquela jovem de trinta e oito anos, a sensação de poder ser útil e contribuinte para o avanço de duas infantes que lhe foram confiadas no projeto não tinha preço. Era-lhe uma sensação inenarrável. Cada tarde que finalizava o encontro, tinha a sensação de dever cumprido. Sentia-se pequena ante cada luta que as pequenas traduziam nas palavras.
Entendia bem o que era uma vida não muito fácil. Natural de Imperatriz do Maranhão iniciara seus estudos tarde por conta de responsabilidades assumidas e impostas frente aos irmãos mais novos. Ingressara após três tentativas para cursar Geografia na Unifesp.
Ser moradora num estado com mais de 43 milhões de habitantes e ainda mais na capital era desafiador. O ritmo frenético e impositivo de trabalho, não margeavam oportunidades para trabalhos de cunho voluntário e ainda mais por um ano completo como o que ela estava vivendo.
Gostava de ler e apreciava escrever. Sabia a influência que os livros podem fazer na vida de homens e mulheres, em especial quando crianças. A imaginação aflora, os sonhos despertam e a esperança renasce.
Monteiro Lobato já havia dito que um mundo é feito de homens e livros. E por isso, que ela ainda não desistira de prosseguir no projeto, embora suas outras atividades sobejassem como prioritárias a cada semana. Mas seu compromisso com as pequenas era maior e mais recompensador, uma vez que ao conduzi-las, também era conduzida para ser melhor cada dia.
Percebia-se egoísta quando intentava parar os encontros. Por vezes, olhar para o próprio umbigo era-lhe mais cômodo do que ver que pequenas crianças cada dia tinham a oportunidade ímpar de alimentar esperança e assim, num futuro, serem maiores e melhores.
Não se escolhe o lar e tampouco os pais ou as circunstâncias que vivemos, mas o que se faz com o que fizeram conosco, será determinante para o progresso. As crianças estudantes dali precisavam ser conduzidas e acompanhar seus passos, era o desafio a todo que ingressava nesse simples, porém significativo projeto social por um ano letivo.
Seus pais lhe ensinaram que “quem quer acha os meios, já quem não quer, acha as desculpas” e que “o tempo quem faz somos nós”. Assim, ela prosseguia validando as histórias que lia a cada uma das meninas e em cada história delas traçadas numa folha de papel.
Precisamos sair de nossa zona de conforto e de nossa esfera de comodismo e olharmos um pouco mais além. Sempre teremos oportunidade de sermos mais úteis, em todas as estações do ano, a cada mês, semana e dia. Não precisamos de titulação ou especialização. Apenas de boa vontade. Fazer o bem, ainda é coisa rara, mas extremamente necessária.
Assim ela conduzia sua vida e podia sentir a cada encontro, olhares de perspectiva de um mundo melhor nelas. Ações simples que externavam o que armazenado era solidificado no coração pequeno de cada uma.
Para o projeto desenvolvido, ela era apenas uma voluntária disposta, a sem fins lucrativos dedicar tempo e talento para o desenvolvimento alheio. Para as duas meninas, ela era a “tia” que chegava faceira a cada semana, sentando no chão e usando a voz para contar grandes contos infantis e parte da literatura brasileira.
Mas, para ela, tudo aquilo, mudaria sua vida, seu coração e sua mente. Não era mais a mesma e tampouco prosseguiria sendo igual quando iniciara esse percurso. A mudança ocorrera. Ela vira que era uma simples mulher, com uma nobre missão: fazer a diferença.
Maior diferença ocorrera em si. Dedicar parte de seu tempo, apenas um fração do tempo que Deus lhe dera gratuitamente, ela decidira dedicar em prol de outrem e sem segundas intenções. Sem querer algo em troca. Aliás, a troca ocorreu, inconscientemente, uma vez que à medida que se doava, recebia porção extra de duas meninas que avidamente viviam.
Através da leitura e escrita em prol de um mundo melhor. Ainda existe esperança, ela pensava. Prosseguiu por aquele ano letivo e ao término, teve o privilégio de ver as histórias registradas num livreto próprio da escola local e ofertado a cada aluno e pais.
Exemplos de vida. Belos exemplos para toda uma vida, a ela, aos pais, as crianças de hoje e adultos do amanhã.

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