Blog Livros e Resenhas – A última lágrima/Fabi Colimoide

Cerimônias fúnebres nunca lhe foram confortáveis de vivenciar. Na verdade, trabalhara por longos anos em instituição hospitalar e vira muitos pacientes falecerem vitimados pelas doenças. Tinha décadas que não aceitava estar presente em ambientes assim.

Agora, via-se frente a uma viúva de trinta anos junto à filha de seis. O caixão, com flores frias como o corpo inerte e sem o fôlego da vida, era de um jovem de trinta e seis anos. O câncer tornara-o mais um na estatística dos que vitimas são de células anômalas e destruidoras das defesas. Havia sido desenvolvido nos pulmões, muito embora aquele jovem fora naturalista, sem vícios de tabagismo, porém, sua profissão o expunha a diversas situações agressoras como com monóxido de carbono e demais agressores que contribuíram, segundo diagnóstico clínico, para o desenvolvimento do tumor.

Impossível não se emocionar ante a tristeza da perda. Impossível não agradecer pela sua vida naquele momento e pela vida dos seus familiares. Assim ela refletia. O funeral tinha hora para iniciar e findar. O cronômetro não dava trégua e tampouco as lágrimas. Lágrimas que ela não conteve.

Copiosamente chorava, como se fosse da família, embora não o fosse. Não estava preparada para a morte. Desde pequena sempre evitou lugares assim, mas dessa vez, num misto de romper os medos e por condolências a família enlutada, quis estar presente. Era-lhe difícil, porém, não mais do que para a viúva e filha juvenil que teriam que prosseguir na vida.

Tinha a mesma idade daquele que fora chefe de família, pai e homem de bem. Não tinham muito contato desde que ela se mudara do bairro onde moravam e tinham encontros semanais entre amigos. A distância a fizera um tanto mais insensível na busca por manutenção das relações fraternais. Mas agora, naquele dia frio, nublado e com fina chuva presente, ela estava solidária junto aos demais conhecidos e a família enlutada.

Mas, algo durante todo o funeral, lhe chamara a atenção. Entre o pranto, havia momentos de cânticos. Músicas que tinham a letra que dizia de esperança de ressurreição e da volta de Um Salvador e restauração dos entes queridos mortos junto aos que aqui estiverem vivos por ocasião da volta de Jesus Cristo. Leitura de trechos bíblicos em especial do último livro do Apocalipse em seu capítulo vinte e um, verso quatro: “E lhes enxugará dos olhos toda lágrima, e a morte já não existirá, já não haverá luto, nem pranto, nem dor, porque as primeiras coisas passaram”.

Tais práticas lhe trouxeram à memória os ensinamentos da sua avó, religiosa e leitora da Bíblia. Sua avó era cristã, mas ela, sua neta, não mais estava tão presente nas reuniões religiosas semanais. Trabalhava quase todos os dias e nas folgas, só queria saber de dormir. Não tinha mais tempo para mais nada. Sua vida passava como em flashback rapidamente por sua mente.

Ainda chorava emocionada pelo luto alheio, sobretudo da menina que repetia continuamente que o papai precisava acordar do soninho. Como uma criança suportaria tamanha ausência? Não ausência somente do corpo sem o fôlego de vida dado por Deus, O Criador, mas da personalidade do pai, dos momentos de travessuras oportunamente após o trabalho sentado ao chão da sala ou dos exercícios escolares que ele a auxiliava a concluir com êxito? E as histórias que o seu pai lhe contava na beira do leito sobre Davi e Golias, sobre Jesus e seus milagres?

Para aquela mulher jovem ainda, a ausência do leito vazio da cama de casal era doloroso, bem como a companhia nos momentos de estudo da Bíblia, pois eram religiosos. E sem mencionar que o seu amor, agora jazia inerte num caixão e a continuidade da educação de sua pequena filha seria responsabilidade não mais compartilhada.

Não havia gritos de desespero ou desesperança entre os que ali estavam. Pareciam solenes, embora tristes, mas havia paz. Uma paz que aquela jovem não sabia explicar. Chegando estava a hora do sepultamento. Amigos acompanhavam o lacrar do caixão, tendo antes, porém, aquela jovem viúva dado um último beijo quente em contraste a pálida e fria face do seu amor. Foi ouvido um até breve dos lábios dela e a última lágrima ali a rolar, caia assim sobre o inerte corpo. Ele não sabia de nada, tampouco sentia nada mais. Apenas, para o ali presentes, conforme o ensino da Bíblia, ele dormia e despertaria no dia da ressurreição. Era essa a esperança nos corações com base na fé e ensino.

Os cânticos cessaram e silentes as pessoas caminhavam ao final do cemitério onde uma cova estava preparada sob medida para receber aquele caixão já lacrado que era carregado pelos amigos. Lágrimas silenciosas. Uma coroa de flores fora colocada sobre a terra que agora afofava e escondia o artefato de madeira cada vez mais profundo terra abaixo.

Acabara ali a cerimônia fúnebre. Acabara ali a presença do corpo. Iniciara ali a reclusão do luto e viuvez. Iniciara ali a condição de órfã. Mantinha ali e por diante a esperança da fé para aqueles que ali estiveram. Para a jovem, a reflexão muda, interna do valor da vida. Da brevidade da vida. Do amor que precisa ser intensamente vivido e sentido nos corações. Reacendeu como um lampejo na sua mente que a mesma esperança daquele povo, embora em luto e perda, poderia fazer parte de sua jornada. Não fomos preparados para a morte. Mas Aquele que nos dotou do fôlego da vida, deixou a esperança nos Seus registros sagrados e acessíveis a todos, ela pensava.

Essa mesma esperança parecia incidir sobre aqueles que ali voltavam para suas casas, afazeres, trabalhos, quando em meio às nuvens, abriu um grande clarão no céu e feixes da luz solar, tocavam nas cútis como que querendo secar as lágrimas que teimavam em rolar. Na verdade, ela concluiu, parecia ser Deus a relembrar  quão pouco falta para todo o sofrimento findar nesta terra. Ainda existe esperança para a dor, sofrimento e a morte!

Ela voltava para casa não tão vazia, mas sim cheia de reflexões ante sua estada ali naquele inóspito e triste local. Estava mais consciente de que lhe faria bem também buscar ler mais sobre o que a Bíblia que sua avó lhe presenteara no último natal, falava sobre a morte e o estado dos mortos. Uma coisa, certa estava em seu débil coração: os mortos nada sabem nesta condição e descansam no pó da terra, sem fôlego de vida e tampouco a vaguear. Disto, ela lembrava bem de sua avó ter-lhe ensinado com base nos escritos sagrados.

Agora, ela ansiava por acalentar a mesma fé dos seus antepassados. Uma fé que auxiliaria em sua caminhada. Uma fé que viria pelo ouvir a Palavra. Ela poderia confortar outras pessoas ao redor e amenizaria a dor que a morte causa vorazmente. Poderia compartilhar a paz. Doce paz. A mesma que presenciara em meio ao pranto daqueles homens e mulheres. E dizer-lhes como para a pequena órfã era explicado: a morte é apenas um sono. Só um sono. Despertarão todos os que creem no Salvador e Sua breve volta para uma vida, finalmente eternal sem lágrimas ou dores.

Texto escrito por: Fabi Colimoide.

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