Livros e Resenhas-Roubaram minha infância

Chovia copiosamente nas ruas de Manhuaçu em Minas Gerais naquela quinta-feira de inverno. Fazia anos que não voltara a sua cidade natal, desde que levada pela tia materna para morar na capital da Bahia.
Atrasara com tais mudanças de cidade, seus estudos, embora fosse muito inteligente com notas exemplares.
Na casa da tia, que praticamente a adotara após a morte dos pais num acidente na Serra das Araras, conhecera o namorado bem mais velho de sua tia que ilusoriamente deixara-o morar em sua casa com vistas para o Porto da Barra.
Todas as noites ela era levada para ver o mar na companhia do casal. Tinha sua infância de perdas e descobrira agora, com seus vinte e um anos que fora roubada quando aos nove anos sofrera abusos por parte daquele que namorava sua tia.
Todas as noites ela sofria os toques e beijos daquele homem que jurava amor eterno para sua única tia que lhe prometera proteção, abrigo, amor e sustento.
De todas as necessidades a que ela mais necessitava enquanto criança, era ter tido o poder de continuar a ser criança.
Se já não bastasse o trauma das perdas dos pais aos oito anos, agora se lembrava de ter se tornado vítima de pedofilia dentro daquele, cujo lar era destinado a ser parte do que perdera dos pais: um porto seguro.
Mas, infelizmente, não seria mais a mesma. Indefesa, proibida de delatar o agressor, vendo a tia cegamente como cúmplice daquele aparente amoroso homem e futuro pai de seus filhos desejados e planejados para um futuro próximo.
A quem falar? Como ser vista como verdadeira aos adultos que lhe cercavam? Não tinha opções. Tinha medo e temor.
Roubada de si mesma, era assim que se sentia agora, após doze anos de abusos sofridos. Traumas no íntimo da sua alma. Sufoco e silêncio ante tantas violentas sessões de aliciamento. Seu corpo violentado. Sua condição de moça perdida. Sua virgindade aflorada e rompida pela força.
Ela não sabia o que era amor. Tornara-se fria, insensível e com repulsa por qualquer homem que intentasse aproximação.
Conseguira a liberdade aparente ao ser aprovada num concurso para a Câmara Municipal de Manhuaçu, sua cidade natal. Voltara aonde caminhara de mãos dadas com os saudosos pais.
O algoz e torpe homem que lhe tirara a paz e roubara sua infância, tentara de inúmeras formas impedir sua mudança para longe.
Ameaçada de morte praticamente por todos esses anos, nunca falara  a sua amada tia tudo que sofria silente.
Tornara-se cúmplice de si mesma e da ingrata condição que fora submetida na vida.
Prisioneira estava agora em si.Perdera não só a menina de nove anos,mas a moça que não tivera um príncipe e uma festa com valsa aos quinze anos. Perdera a mulher com capacidade de amar e ser amada.
Os roubos acontecem aos montes nos dias corriqueiros onde a voz de um infante é abafada, silenciada. Sem forças e verdades reveladas, tornam-se milhares e milhares de crianças escravizadas e vitimadas por homens doentes e sem caráter que ousam o roubo a mão livre e suja de corpos puros, imaculados até então.
Ela tivera sua triste história repassada em um flash por sua memória naquela quinta feira chuvosa.
Recomeçar a vida perdida era a necessidade e anseio no peito que carregava.
Sabia que precisava ir, avante, sem a mácula e nódoa do agressor. Mas seria acaso tão fácil assim?
Certamente que  não. O que lhe roubaram não poderia ser devolvido, pois o tempo  se encarregaria de curar, ainda que duramente. Mas sua vontade de recomeçar teria que  ser mais marcante do que as marcas que carregava na alma. Marcas tão profundas e dolorosas que talvez a impedisse, num primeiro momento de até mesmo prosseguir, mas jamais a paralisando daquilo que todo ser precisa buscar em momentos assim: forças.
Lutar, superar e viver: suas necessidades, ela pensava por fim ao entrar no pequeno cômodo que conseguira alugar próximo da repartição da câmara municipal da cidade. Era atendente em uma seção como auxiliar administrativo.
Recomeços a despeito das perdas e roubos a si. Estava molhada da chuva. Sentiu pela primeira vez que precisava deixar a alma ser lavada por completo das marcas e sujeiras da violência dentro de seu próprio lar e por pessoas que deveriam ser-lhe confiáveis.

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