Nota do Editor

Além da crise financeira, a autora aborda outro fenômeno da sociedade atual: a indústria da mídia construída sobre tragédias familiares, tornando os dramas privados em um grande interesse midiático, como se tudo não passasse de mais uma série de tv em que as pessoas são personagens que devem se portar de acordo com a expectativa do público.

8
LEITURA
9
DIVERSÃO
9
CONTEÚDO

Garota Exemplar | Gillian Flynn

Diferentemente de algumas escritoras da atualidade que, apesar do sucesso estrondoso, tem sua qualidade questionada, a americana Gillian Flynn merece toda a aclamação recebida por seu livro “Garota Exemplar” (“Gone Girl”, 2013, Editora Intrínseca, 448 páginas), culminando em uma adaptação para o cinema do diretor David Fincher (“Clube da luta“), estrelada por ninguém menos do que o superstar Ben Affleck (“Argo”) e que também angariou, além de uma mais que respeitável bilheteria, uma indicação ao Oscar 2015 para a coprotagonista Rosamund Pike (“Jack Reacher”).

Flynn, utilizando uma escrita envolvente, nos apresenta ao casal Nick e Amy Dunne no dia do seu quinto aniversário de casamento. Aparentemente possuem um relacionamento comum, em que qualquer pessoa pudesse estar envolvida, como nossos amigos, vizinhos, até mesmo eu ou você, mas essa suposta normalidade cai por terra quando Amy desaparece de sua casa à beira do Rio Mississippi nessa data especial.

No primeiro terço do livro os capítulos são intercalados entre o diário escrito por Amy até o dia de seu sumiço e a narrativa de Nick lidando com as circunstâncias desse acontecimento. Os dois pontos de vistas divergentes sobre os cinco anos de relacionamento constroem uma montanha russa de dúvidas em que o leitor, ora acredita na bela e inteligente esposa e no minuto seguinte concede a razão ao marido emocionalmente retraído. Essas dúvidas potencializam o suspense crescente, principalmente após as provas indicarem claramente que Nick realmente é responsável pelo desaparecimento de Amy.

Ao acompanhar a vida do casal, é formado um retrato das consequencias da última grande crise financeira americana que atingiu, de forma não preconceituosa, todas as camadas da sociedade e deflagrou uma crise mundial.

Enquanto Amy cresceu no luxo de Nova York, tendo a melhor educação que o dinheiro pode oferecer graças a série de livros infantis que seus pais basearam em sua vida chamados “Amy Exemplar”, personagem perfeita com os qual ela foi obrigada a ser comparada; Nick, juntamente com sua irmã gêmea Margo, são fruto de um lar desfeito no Missouri em que testemunharam a violência contra a mãe pelo pai misógino.

Mesmo tendo histórias de vida opostas, os dois protagonistas sofrem igualmente ao perderem os empregos devido à crise econômica. Autoestima rebaixada, estresse, doença na família, mudança de um dos lugares mais badalados do planeta para uma cidadezinha interiorana falida intensificam a crise conjugal, mas será o suficiente para revelar um marido violento, que assassinou sua esposa e forjou seu desaparecimento? Essa é a questão a ser respondida na segunda e terceira partes finais do livro.

Além da crise financeira, a autora aborda outro fenômeno da sociedade atual: a indústria da mídia construída sobre tragédias familiares, tornando os dramas privados em um grande interesse midiático, como se tudo não passasse de mais uma série de tv em que as pessoas são personagens que devem se portar de acordo com a expectativa do público.

O problema é que esse caso está situado em uma área cinza pois apesar das provas e o comportamento incriminarem o marido, ele alega veementemente não ter cometido qualquer crime. Mas se Nick não for um psicopata culpado de forjar o desaparecimento da esposa, onde está Amy? Talvez um terceiro perseguidor? A opinião pública pressiona para que a polícia encontre um desfecho enquanto nós leitores nos deliciamos com esse suspense muito bem arquitetado.

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