Livros e Resenhas- Nos galhos secos… Eis o amor!

Ele olhava fixamente para o horizonte acinzentado e com o sol se pondo lentamente. Parecia que iria chover, e na sacada da casa da fazenda ele descansava de um dia exaustivo. Havia estado na horta, com inúmeras plantações de alface, morangos e até de hortelã. Era seu hobby para fugir do estresse contumaz.

Estava de passagem pela propriedade do primo rico como falavam na família. Iria embora dentro de três dias, e sabia que seu coração estava desolado pelo inusitado sentimento que, depois de anos adormecido, agora estava nutrindo pela jovem camponesa da região. Descansara as merecidas férias e com ela adquirira a inquietante tônica do amor.

Todos os dias a observara colher as plantas na margem do riacho e como tratava os animais da fazenda, desde os gatos, gansos e até os cavalos no estábulo. Tinha a doçura e a ingenuidade de uma menina, mas a força e determinação de uma mulher valorosa. Sem contar a sedução velada que nem ela mesma sabia ter.

Olhos amendoados e belos lábios, que eram convidativos a serem tocados. Muito modesta no vestir e educada no falar. Boas maneiras e uma percepção que o deixara desconcertado por inúmeras vezes. Não raras vezes ele fora surpreendido admirando-a como adolescente, e ela lançava-lhe um olhar que penetrava na alma.

Fazia tempo que não sentia esse calor e essa vontade de recomeçar. Tinha uma filha adolescente que morava com sua avó, e ele na grande São Paulo; e estava divorciado há mais de dez anos. Tinha namorado algumas menininhas, como elas se portavam, mas nada o mexera tanto em tão pouco tempo.

Sua ex-esposa morava em outro estado e ele recomeçara a vida aos poucos. Graduou-se como fisioterapeuta e conseguira abrir um consultório para atuar junto a uma amiga médica. Tinha conseguido quitar seu apartamento e tinha um modesto carro na garagem.

Fora tudo muito difícil desde a separação, mas ousou prosseguir e lutar com determinação em prol de seus objetivos. Faltava-lhe, contudo, uma companheira. Não para lhe completar, pois ele sabia bem que não era metade e sim um ser inteiro, que deveria dividir a felicidade de viver e a plenitude que encontrara na crença em Deus para caminhar.

E foi naquela tarde que, observando a natureza e em meio a uma prece e outra, viu a cena inusitada de uma árvore cujos galhos estavam secos e em seguida um pardal ali pousou graciosamente.

Interessante fora a cena a seguir, onde outro pardal aproximara para fazer companhia àquele aparentemente sozinho. Pareciam brincar um com o outro, e com maestria, sem perder o equilíbrio, se aproximavam ao ponto de ambos se tocarem como numa interpretação de um beijo à primeira vista. Parecia que eram enamorados por fim.

“Interessante a natureza…” – ela falava aproximando-se dele. “Os pardais também amam e os galhos secos podem vir a frutificar e florescer, ainda que secos pelo tempo”. Ela sentou ao seu lado na sacada. Estava com o cheiro de lavanda e os cabelos longos até a cintura num balanço gracioso. Ela lhe sorriu.

“Verdade. Até os animais sentem a necessidade do amor” – foi o que ele conseguiu dizer. O que faria? Tinha ao mesmo tempo o ímpeto de um homem maduro, em seus quarenta e quatro anos, à frente de uma mulher que, não obstante, tinha ainda de modo gatuno o jeito de sua adolescência. Assim se aproximava mais dela a ponto de sentir-lhe a transpiração.

Ambos sabiam o que queriam ali naquele instante e, sem rodeios, ele a puxou pela cintura para mais perto de si. Os olhos se beijaram e os lábios se fixaram como naqueles beijos descobertos no meio do luar no portão e escondidos dos pais. Ambos sorriam em si.

Um riso do momento e do gracejo que a cena nos galhos secos proporcionava: os pardais pareciam apenas um, por um lampejo do instante. E eles voltaram a se beijar, pausadamente e com o prazer da descoberta como de dois adolescentes na sacada.

O sol já estava escondido e a lua entre as nuvens densas era escondida para dar lugar à chuva que começara torrencialmente a regar a terra. Os galhos voltaram a ficar vazios e agora úmidos, pois o casal de pardais encontrara abrigo em alguma árvore frondosa e cuja folhagem seria o teto dos mesmos.

Aquele casal ficara abraçado vendo a chuva cair e molhar todo o cenário que tinha sido o palco das gostosas sensações enquanto estivera aquele homem ali em descanso. Um lugar onde o sentimento florescera novamente, onde a sensação de recomeço voltara e onde a secura do interior da solidão fora preenchida pela presença de uma mulher com os mesmos anseios e que sabia dar tempo ao ciclo necessário que estava começando para ambos. Eles decidiram dar uma chance ao amor e suas descobertas.

E novamente voltaram a se beijar e por fim foram à casa principal para mais um jantar entre tantos outros que num futuro estariam compartilhando, a despeito da distância e dos desafios que toda relação carrega. Ele olhou ao longe e agradeceu a Deus por cuidar dele assim como cuida dos pardais e de toda a criação. Lembrou-se que na natureza tudo tem ciclos, e ele agora tinha o início de mais um ciclo que viveria com sabedoria e disposição.

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