Livros e Resenhas-Um amor na fronteira

Ele estava formado em medicina há um ano. Recebera um chamado a ser voluntário na fronteira entre Guiné e Serra Leoa. O índice de mortalidade infantil era alto naquela região e como ginecologista e obstetra realizava partos diariamente. Era brasileiro, natural de Mato Grosso e não tinha mais familiares vivos no Brasil. Havia deixado a sua então namorada e assim que voltasse após os doze meses de projeto, iriam noivar e agendar o casamento.

Ela, gerente de uma unidade de banco privado na pequena cidade de Altamira, sonhava ansiosa com essa ocasião. Reservara ao longo dos anos, desde que o conhecera, um percentual mensal para sua festa. Tinha anseio de constituir um lar e uma família. Fora pega de surpresa com a decisão dele de aceitar o chamado para trabalhar tão distante de casa, ainda que num tempo relativamente curto.

Isto criara desavença entre eles um pouco antes dele partir. Parecia que não seriam mais os mesmos depois dessa experiência que ambos viveriam. Ele, no limite entre dois países com colonizações distintas e ela aqui no país tropical. Namoravam há dez anos, desde adolescentes e ela já tivera a separação entre eles na época em que ele fora estudar medicina na Argentina. Era um relacionamento cujo tempo era o favorável a ambos, ao mesmo momento que desfavorável. Esperar era uma prova exaustiva a ela. Mas e a ele? Parecia aos olhos dela que não se importava tanto e que seus projetos eram maiores que seu amor por ela.

Ela não programara ir até ele, tampouco voltar a refletir no relacionamento e escolhas dele pelos projetos profissionais que pareciam estar a frente dela. Ela sempre achava que o priorizava ao planejar algo, incluindo-o nas decisões. Surpreendida esteve nos onze meses de distanciamento com comunicação por email quando ele tinha acesso na cidade, de um telefonema para seu trabalho após dois meses sem ele ter dado sinal de vida. Ligações internacionais nunca ocorreram enquanto ela estivera ali. Ouviu do outro lado a voz de uma mulher, brasileira também e enfermeira obstetra.

Ele estava doente há mais de um mês com malária. Não tinham acesso a internet na localidade e o único carro que possuíam que fazia o trajeto entre as cidades para buscar suprimento e medicações, estivera dias quebrado e somente naquela tarde estava podendo ser usado. A enfermeira, falava com voz embargada, porém sem muitos rodeios ao dizer da gravidade do caso de saúde dele. O único médico ali, agora doente e por uma enfermidade que tipicamente matava homens e mulheres freneticamente se não cuidada em tempo.

Lágrimas escorriam pela face dela, sentada na sua repartição como gerente. Eram quase dezessete horas e ela agradeceu por não ter mais clientes na agência. O que faria? Tão distante! E o medo de perdê-lo invadiu sua mente e seu coração ao ponto de transbordar em copiosas lágrimas ao desligar o telefone. Quantas coisas passaram por sua cabeça nos últimos meses. Julgava a ausência dele de contato como um descaso pelos sentimentos dela e pensara em desistir de tamanha espera. Envergonhou-se no íntimo.

Percebera-se anestesiada em sua zona de conforto até aquele momento. O homem que amava, que planejava como esposo e pai de seus futuros filhos estava doente e somente uma enfermeira estava a cuidar dele. O ciúme de pronto invadira seu coração. A desconfiança e medo a sufocavam instantaneamente. Que ignorância da sua parte! Ela pensava em seguida.

Na manhã seguinte, após uma noite que não dormira, resolveu solicitar um período de licença ao seu gestor imediato. Tinha algumas horas na casa e iria usá-las para viajar rumo a fronteira onde seu amor estava doente. Não pensou duas vezes em fazer assim. Sua mãe a considerou sem juízo devido a iminência de também adoecer, pelo risco de perder o emprego e ainda pelo fato de não conseguir voltar. Mas ela não pestanejou e assim que conseguiu a liberação do trabalho, providenciou as passagens.

Nunca se imaginara pisando em solo africano. Era branca, esbelta, loira e parecia uma boneca, como seu irmão caçula a rotulava: mimada e egoísta. Por certo era mesmo assim, pois ao chegar depois de horas a finco no voo e ter enfrentado grandes dificuldades para chegar a base de atendimento em que ele estava internado, olhava o local com um misto de desprazer por ali ele ter que estar. Lugar rústico, sem condições adequadas de moradia. O único posto de saúde da localidade atendia centenas de moradores dali, inúmeras crianças e suas mães que levavam sempre mais de um para atendimento. Água escassa, fome prevalente, poucas roupas, calor frequente. Ela viu que não queria aquilo novamente e que teria que retirá-lo de lá.

Encontrou-o deitado num espaço de terra batida e com um colchonete fininho. Estava com soro em um dos braços e ao vê-la, num misto de não crer no que via, chorou de emoção. Ela chorava não somente de emoção, mas, contudo, de tristeza por ver o quanto ele se sacrificara a estar ali. Na verdade ele nunca falara abertamente quanto de dinheiro estava envolvido num projeto onde somente ele seria o médico ali. Sua vida agora estava em risco e porque tudo aquilo, era algo incompreensível aos olhos falhos dela.

Abraçaram-se e ela o beijou demoradamente. Um beijo que a saudade como uma vírgula, estivera a separá-los, mas não ao ponto de que as emoções não fossem novamente sentidas. Ele balbuciou um “eu te amo” ao ouvido dela. E ela o beijou novamente. Olhou a enfermeira que lhe causara ciúmes. Uma mulher de meia idade e com um avental mais de cor marrom do que branco propriamente visto. Ela quem cuidara dele. Tinha idade para lhe ser irmã mais velha e por certo agira assim ante a sua debilidade.

Ela ficara com ele pelos dez dias seguidos e ajudou a tratar dele. Ajudou a enfermeira em pequenos cuidados e também assistiu a algumas crianças que ali estavam a serem atendidas. Outro médico fora transferido temporariamente para aquele posto e atendia nos partos ocorridos junto com a enfermeira.

Ele aos poucos ia se recuperando. Ficara entre a vida e a morte, pois os medicamentos chegaram bem tarde para o tratamento. Naquela ocasião, foi fundamental a enfermeira a lhe auxiliar, pois não havia outros profissionais de saúde ali. Ambos se ajudaram em prol da vida. Sentiam muito por tantas perdas que vivenciavam diariamente e correr riscos pela saúde do outro era uma realidade bem presente a todos que ali se dispunham a trabalhar.

Durante os dias que ali ela permanecera, pôde ver a escassez e a desigualdade que aquele povo sentia dia após dia. Aprendera a comer coisas pouco valorizadas em sua cozinha, como pimentão em sopas e guisados como de amendoim. E ela acostumada a tantas regalias. Tinha tudo que precisava num piscar de olhos e não media esforços para alcançar suas vontades.

No final dos dez dias, ele estava recuperado e voltaria ao Brasil juntamente com ela. Seu contrato findara e eles alocaram outro médico para ali trabalhar. Viajaram juntos a terra natal. Durante o voo, ele refletia a olhá-la serenamente com amor, no quanto se sacrificara por ela ao aceitar a oferta de trabalhar na fronteira. Havia uma quantia de dinheiro não tão alta, mas que estava reservada a cada centavo para contribuição do sonho deles dali em diante. Ele a queria como esposa. Amadurecera infinitamente sua visão de médico frente ao sofrimento e limitações humanas. Fizera-lhe bem tudo que vivenciara, inclusive ter contraído malária.

Ela, entre o sono e a vigília, descobrira-se com pouco amor no coração, inclusive o que julgava ter por ele. Fizera por impulso a ida até ele, pois temia perdê-lo, mas descobriu que amar é sacrificar-se também. Ela ainda tinha muito que aprender e sair de sua zona de conforto foi o solavanco para ampliar sua visão do mundo que viviam. Um mundo de desigualdades e caprichos humanos.

Um mundo que o amor pelo semelhante precisa prevalecer. Um mundo em que ela queria que seus filhos no futuro vivessem com exemplos bons e altruístas. E quando pensou nisso, fitou os olhos mais lindos e apaixonantes que tanto a inebriavam. Ela viu os olhos do homem que descobriu que a amava tanto, assim como o seu semelhante e esse seria o exemplo que teria dentro de seu futuro lar para que seus filhos pudessem se orgulhar. O exemplo de um homem profissional, humano e com um coração em que ela sabia sem dúvidas alguma, que reinava como sua futura esposa.

Parecia que o amor deles se solidificara por completo lá na fronteira entre Guiné e Serra Leoa. Necessário fora estarem ali, vendo as realidades externas para então sentirem as necessidades internas. E ambos se beijaram apaixonadamente. Não eram mais os mesmos depois de tantas experiências assim. Cresceram de dentro para fora, assim como o amor em si.

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