Comecem pensando em dar entrada em um apartamento na planta para os dois pagarem juntos. Como o casal é sem-vergonha, pode ser de apenas um dormitório no início. Deixem para o de dois quartos quando tiverem filhos.

Certamente o casal sem-vergonha já conseguiu um carro para ambos saírem sem depender de condução, e ambos estão na faculdade, terminando, ou já são formados. Casal sem-vergonha toma decisão rapidamente. E segue sem olhar para trás.

A porta aberta do banheiro para o casal sem-vergonha é o ensaio para viverem juntos felizes: casados ou não. Melhor casados. Bem melhor casados. Claro que deve levar em consideração a separação um dia. O casal sem-vergonha é maduro, tanto na união quanto na separação.

Sei que é tão bonito ficar juntos para sempre. Há coisas que são para sempre, como a lua e o sol, as pirâmides do Egito, as feijoadas aos sábados e às quartas-feiras e a fragilidade das pessoas que buscam a certeza e não encontram.

O casal sem-vergonha radical é prodígio. Casa logo. Tem filhos precocemente. Moram juntos. São inocentemente abusados e fazem das dificuldades histórias verdadeiras, cheias de fé com pitadas de medos e receios.

O mínimo é rotina e o limite sua realidade. Os dias, por sua vez, são mais verídicos e honestos e sinceros. Casal sem-vergonha vive sem tanta reflexão, embora sonha todos os dias os planos de sua jovialidade.

A inteligência é a aliada mais preciosa ao casal sem-vergonha porque os une fortemente. Gastam pouca energia na superfície da vida e do pensamento frouxo. Falam muito e não fofocam quase nada. Comentam a vida alheia do mundo com certa profundidade. Assim, o que é fofoca vira análise e justifica os minutos.

Mas preferem o filme, o teatro, os livros e muita coisa ligada à cultura. Sempre juntos. Quase inseparáveis. Passatempo precioso todo tempo um ao lado do outro. Casal que é sem-vergonha respeita a si mesmo porque seu pensamento comum é viver bem e feliz. A vida passa e eles tem consciência.

O tempo, que deveria deixar o casal mais sem-vergonha ainda, é o maior inimigo do casal sem-vergonha. O tempo amadurece a inteligência. O pudor cresce. Ou um deles amadurece e a falta de sintonia toma vida. O pudor aumenta. O tempo existe e com ele a realidade de que as coisas mudam, inevitavelmente.

O casal sem-vergonha, que muda com o tempo, deixa, sem perceber, a sem-vergonhice de outrora. O tempo deixa ambos mais sérios. A inteligência lapida o bruto. A sem-vergonhice que os unia vai sendo substituída aos poucos por aquilo que os separa: a seriedade, o maior respeito da distância, a formalidade da taça de vinho em relação ao copo de requeijão, do jantar fino sem propósito em relação à lasagna congelada, da conta da balada livre em relação ao almoço por quilo contado no shopping. O casal era sem-vergonha. Vira cheio de pudor. O pudor mata. Mata o abuso. O casal se estranha.

Sem a sem-vergonhice necessária, a vergonha ganha vida. A vergonha limita. A vergonha afasta. A vergonha esfria. A vergonha separa. O casal envergonhado não se aguenta. São agora auto-suficientes em suas vergonhas. Fecham a porta do banheiro. Aí é o fim informal. Independentes. Vão então, separados, atrás de outras possíveis sem-vergonhices. Mas já é tarde. Seu tempo passou. As gerações são outras. Porque o tempo é o senhor de tudo. Sem ou com vergonha. O passado virou história. Resta a personificação interna do que foram. Intransferíveis os momentos cheios de sem-vergonhices. O pudor vence. A velhice está na alma. A vida continua…

Flávio Notaroberto, autor dos livros Contos Suaves e Não é Conto nem Fábula, Lenda ou Mito.

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