Fazer o bem é coisa rara. Ainda mais plantar aquela semente despretensiosa e testemunhar depois – ainda que distante – frutos verdadeiros. Falo de simplicidade. Falo sem holofotes. Falo de alegria.

Me lembro de uma pessoa. Não nos conhecíamos bem e combinamos sair um dia. Seria um momento juntos. Não importa quanto tempo estou na presença de alguém. A minha entrega do momento fará parte de mim. Não passa outro sentimento senão ser o que eu sempre fui, e meu mínimo é ser atencioso.

Não é um jogo, não é uma troca, não é um ganho. Mesmo porque, eu não penso que existam trocas justas. Alguém dá mais. Alguém dá menos. Alguém ganha. Alguém perde. As pessoas dão o que tem, dão o que são, e algumas são piores: dão somente o que sobra, farelo e migalhas. Pensar na troca poderia machucar tanto a mim quanto a ela. Fui para dar e perguntei:

– Me fala algo que você gostaria de fazer e há muito tempo não faz.

– Qualquer coisa…

Ela deu suas razões dizendo que qualquer coisa estaria bom. Acho que deu para entender. Mesmo assim, conhecendo já um pouco a sua vida pessoal como mãe, eu esperei. Esperei alguns dias, insistindo na mesma sugestão.

Um momento, ela me disse “ir à praia”. Não vou dar detalhes, porque sagrados, mas fomos à praia. São Vicente. Chovia até. Tenho minhas razões tão íntimas que mais detalhes macularia o sagrado.

Lembro-me à noite, depois de jantar, irmos ambos com os pés na areia úmida e gelada. Eu a testemunhei passar os pés na água fria, sandálias nas mãos. Foi para mim uma linda e singela cena. Eu falo de simplicidade real. Ela me fez um bem naquele momento. Eu acho que fiz a ela. Neste caso, houve troca. Empatamos.

Quando vejo fotos dela na praia com os quatro filhos, é inevitável não refletir naquilo que me traz as belas e boas e simples e verdadeiras lembranças que podemos construir.

Não poucas vezes sou e somos mal-interpretados – e isto me irrita por dentro! – quando batemos na porta de algum coração triste apenas para fazer algum bem. O mundo anda mal e cheira a interesses, sempre. Fazer o bem é coisa rara. As pessoas viraram, na grande maioria, posse do que possuem. Elas querem a posse do que possuímos. Elas querem e foram acostumadas a serem coisas.

Mesmo assim, podemos ter um jeito pessoal mais humano. Meu jeito, seu jeito, nosso jeito. Cada um dá o que tem. Se amor, amor. Se interesse, interesse. Se vazio, vazio. Se carência, carência. Se maldade, maldade, e aí vai fazer o mal para seu próprio mundo egoísta machucando as pessoas. Podemos perdoar para não virar rancor.

Eu dou um sorriso amarelo para os egoístas e distancio meus sentimentos sagrados deles. Perdemos momentos na vida gastando com pessoas egoístas. Elas querem o ter ao invés de nosso ser. Nem mais um detalhe.

Se eu não acreditasse que podemos passar por este mundo construindo histórias emocionalmente mais ricas, gastaria minhas energias em ter, possuir, manipular. Eu escrevo e reflito sobre cada vírgula. Se for para ter, que seja através de histórias para saudades bonitas. Amo saudades bonitas para as minhas solidões. Nossas particulares boas memórias vem na solidão da vida e não da alma. Na praia. Na chuva. No frio. Nas memórias. Nos frutos. Nos agradecimentos. Nas trocas.

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