Blog Livros e resenhas- Faxina nele!/Fabiana Colimoide

Ela era uma exímia diarista. Sua experiência como camareira dos grandes hotéis da cidade maravilhosa, agregou vasta vivência no trato com os mais exigentes hóspedes e nos desafios de uma boa organização. Seus cinquenta anos estavam bem vividos, ela pensava. Quatro filhos já casados, estruturados e felizes. Tinha uma boa pensão como viúva de um militar. Trabalhava por não gostar da ociosidade e por querer sempre se ocupar. Era resolvida e bem determinada na sua pouca estatura de um metro e meio.

Limpava a sala da casa da sua patroa, quando foi surpreendida pela filha adolescente da mesma. “Você já pensou em namorar o nosso motorista?” – a guria perguntou de modo peralta e com um riso nos lábios. “Ele arrasta uma asa pra você… na verdade um caminhão”- e ria em si.

“Deixa disso guria! Imagina só!”- ela retrucou rapidamente. Vá pegar seus livros e estudar. Tenho muito que faxinar aqui.” – e pôs-se a pegar a vassoura de volta.

“Pois devia olhar melhor… ele te come com os olhos!” – e a menina saiu antes de ouvir qualquer outra bronca.

Aquela mulher riu em seu íntimo. O motorista que aquela guria se referia era um homem alto, com uns braços fortes e por ser descendente japonês, muito reservado, porém, com um olhar penetrante e os cabelos grisalhos que eram o seu charme.

Como sempre acontece, ao sermos sinalizados de algo, nossa atenção passa a observar num misto de busca pela razão dos comentários tecidos aos nossos ouvidos. Não foi diferente. Mas seu coração ainda jazia o luto da perda do marido três anos antes vítima de infarto. Desde então, não se permitira enamorar-se novamente. Estava, digamos, com o coração fechado para balanço.

Era bonita, vaidosa, sabia se cuidar e se vestir, por conta das dicas das madames que tanto convivera nos anos de atividade hoteleira. Cabelos alinhados, com os grisalhos escondidos pelas mechas. Uma pele hidratada e sempre com uma boa maquiagem nos olhos e lábios.

Muito embora seus filhos a quisessem mais feliz com um novo companheiro até, ela não se permitira novamente. Reclusa no luto não findado, do pranto ainda algumas noites incontido.

No final da manhã de uma sexta feira, fora surpreendida por aquele homem admirável que dirigia tão bem por anos ali, a lhe entregar uma orquídea. Disse-lhe ser para que ela cultivasse em casa.

Agradecida, retribuíra com um sorriso. Viu-o retornar aos afazeres e ousou convidá-lo para um cafezinho quentinho. Conversaram sobre tantas coisas entre um café e outro. Descobriram-se em luto semelhantes. Ele pela perda da mulher que sonhara a ser sua esposa, vitimada por um câncer de mama e ela pelo marido por infarto e com a lápide do mesmo em sua memória vívida.

Ambos cruzaram os olhares e puseram a permitirem-se conhecer um pouco mais. Maduros pelos anos vividos, não prometiam nada além do aquele momento do cafezinho, embora por tanto tempo estivessem ali num trabalho, porém, sem aquele tempo.

Os dias transcorreram e foram mais frequentes o café da tarde com bolachinhas e prosa. Sua patroa que de boba não tinha nada, já havia percebido os olhares, os cafés com mais pó no coador e mais xícaras na pia para lavagem.

“Você devia tirar uns três dias de folga semana que vem, aproveitar o tempo bom e ir para o litoral na nossa casa” – a patroa dizia com um olhar como quem não quer nada.

“Oh, patroa! Obrigada, mas tenho muita coisa para fazer por aqui e é bem longe a viagem de ônibus. Cansa.” – ela agradecia a oferta da generosa patroa. Ela sabia a confiabilidade a ela depositada de todos os anos de dedicação ali naquela casa. Cuidava da filha, das compras, do lar e da patroa de vez em quando.

“Não seja por isso. Arrumo um jeito de ser menos cansativo a viagem. Se organize e na quinta você vai. Estou te liberando, entendeu? E aproveite bem, viu?!” – a patroa disse como uma ordem e saiu antes de ouvir um não.

No íntimo aquela mulher que tanto trabalhava gostou da ideia. Dali em diante os dias voaram e naquela manhã combinada, estava de malas prontas bem cedo novamente. Sol a pino e dias que imaginaria serem inesquecíveis.

Viu o motorista a paisana, com malas também a postos chegar. Olhares se encontraram e o sorriso de ambos revelava que tinham caído numa cilada da patroa. Seriam dias deles e para eles, pensavam cada um em seu íntimo. Riam como crianças e bobos se viram inocentes.

Ela até pensou em desistir, mas não faria a desfeita por consideração à patroa. O que ela mais sabia fazer era fugir dessas situações. Aquele homem sabia ter a frente uma mulher determinada e de temperamento bem forte. Admirava silentemente.

Ela delimitara o território nos dias seguintes e ele sabia bem isso. Os seus cinquenta e sete anos lhe trouxeram certa experiência com o sexo oposto. Ele era-lhe respeitador sempre. Aproveitaram todos os momentos, com atividades pelas praias e pelos pontos turísticos dali, alimentações tanto as japonesas quanto as típicas da região. Conversavam sobre diversos assuntos, menos sobre eles. Ele queria beijá-la. Ela racionalizava que não.

Por fim, a noite que antecedia o retorno chegara e com ela um luar espetacular que se refletia no mar sereno e inebriante com o balanço das águas. Já passavam das dez da noite e ambos agora dividiam a canga pequena que os fizeram mais próximos sentados na areia.  Ele arriscou segurar as suas mãos e ela retribuiu. Um beijo como selo de carta trocado e intensificado pelo calor da noite. A brisa ao redor. O cheiro de maresia e a busca de ambos pelo prazer daquele beijo mais profundo. Ela voltou à realidade e o interrompeu para olhar-lhe nos olhos. Um olhar tão pequenino, ela pensou. E ele a admirou vendo-lhe como uma grande mulher em seus braços. Abraçaram-se mais intimamente e puseram-se a olhar o vai e vem das ondas.

O domingo raiou com o sol quente e algumas certezas em ambos os corações. Maduros, conscientes do que queriam e do que poderiam ofertar um ao outro.

O retorno foi com risos, gracejos e afinidades descobrindo-se mais e mais. Chegaram ao meio da tarde na capital. O tempo, instável, com nuvens ao céu e prenúncio de chuva. Na mente dele, a convicção de que esperaria se necessário pelo tempo dela a despeito de sua idade e ela menos receosa e ciente que precisaria limpar o pranto, arrumar a bagunça não do seu quarto ou da casa da patroa, mas sim, “faxinar” o coração. Sim, ela sabia bem o valor de uma boa faxina. Era isso que mais sabia fazer e sua patroa a admirava por isso.

Olhou para ele de soslaio no carro assim que estacionaram frente a sua casa. Seu coração precisava de uma faxina. E das boas! Ela pensava. Pensou, portanto: “faxina nele!”.

Olhares se cruzaram e ela o convidou para um cafezinho e o beijou ali mesmo. Beijos correspondidos. Coador de café com mais quantidade de pó. Duas xícaras à mesa e uma orquídea na janela aberta.  Reluzente e com sua beleza. Assim como a beleza do amor que entrara nos corações.

Precisamos faxinar o coração e a alma de vez em quando. Faz bem. -ela refletiu. E ambos saboreavam o delicioso café numa tarde onde a garoa iniciara e trazia o frescor de uma tarde de muitas outras que queriam vivenciar. Com prosa, com beijos e com felizes momentos de um doce recomeço a despeito do tempo e do que a vida nos surpreende.

Surpresas maiores, ele pensou, advêm do sentimento do amor. Sorriram entre si. Felizes.

Texto escrito por: Fabiana Colimoide.

Blog Livros e Resenhas
Curta nossa página XD

Estamos no Google+

Comentários

Comentários