Livros e Resenhas-Quando as estrelas bastam

A feira literária em Parati para ela tinha um sabor todo especial naquele ano. Fora surpreendida pela oportunidade de publicar seu primeiro livro escrito ao longo de dois anos e que caprichosamente estava agora na lista dos lançamentos em um stand de novos escritores.

Escrevia por hobby e não fazia disso seu meio de sustento, mas amava ter a sensação de alcançar os corações com nobres pensamentos e edificantes reflexões. Aprendera o caminho das letras quando mais jovem e tivera ao longo da sua jornada olhares e opiniões de melhorias por pessoas especiais.

Absorta entre os leitores que lhe pediam dedicatória nos livros ali adquiridos, foi surpreendida pela voz grave e inesquecível daquele que num passado não tão distante escrevera tantas reflexões nas páginas de um periódico local que muito lhe ajudaram no seu senso crítico da escrita. Na verdade, ele escrevera nas páginas do coração dela, ainda que ambos não soubessem.

Olharam-se profundamente e sorriram em si. Ele estava elegantemente vestido, com uma gravata discreta, porém combinante com sua blusa cinza. Carregava nas mãos o exemplar que ela escrevera e uma caneta nas mãos. Pediu uma dedicatória no livro. Ela imaginara como e o quê escreveria a um escritor experiente como ele com quatro livros já publicados.

Veio a memória um trecho de seus escritos e que muito lhe marcara, pelas verdades ali contidas quanto aos sentimentos que nutria pelo mesmo: “ A vontade de ficar iguala a vontade de partir. As pessoas chegam, partem, incluindo-nos como pessoas” e assinou em letrinha bem miúda seu nome.

Conversaram sobre algumas literaturas ali expostas, ele a parabenizou e ela fez o mesmo pelo exemplar que ele também acabara de lançar. E ambos partiram. Ele para outros stands e ela para receber junto aos demais escritores independentes, a premiação local. Mas nos corações o misto das palavras ecoava saudosamente. Ambos, inconscientemente se buscavam, embora não assumissem. Era um misto de cumplicidade que as letras proporcionam a quem escreve e a quem lê.

Para ele, a inteligência e percepção dela o deixava meio que sem ação, embora muito mais experiente que a mesma. Ela, sentia a simplicidade que os momentos podem proporcionar sem muitas vaidades, apenas com o prazer das sensações dos bons sentimentos que sentia pela presença dele.

Estranho sentimento os aproximava. Não sabiam como proceder, embora com a idade cronológica que marcavam as decisões maduras. Não queriam na verdade que se perdessem ante o tempo que os distanciara no passado. Ele resolvera assim, não mais perder as oportunidades de arriscar conhecê-la e solidificar a relação. Isto para ela era algo surpreendente, pois jamais imaginara tal momento.

Ela saía da feira literária ainda acompanhada ao cair da tarde, quando o percebeu parado encostado num carro a sua espera. A moça que a acompanhava até ali, despedira-se e deixara-os a sós. Ele apenas oferecera-lhe uma carona até o hotel onde ela estava. A noite estava linda, com um céu totalmente estrelado e a lua nova reluzente e marcante. Não haviam nuvens, só as estrelas.

“Vamos ver as estrelas?” – ele a perguntou e sorriu. Ela devolveu-lhe o sorriso e consentiu ao entrar no carro. Foram para uma parte alta da pequena cidade e de lá avistavam mais belamente o céu com suas constelações da Ursa Maior, Escorpião, as Três Marias, originalmente Mintaka, Alnitak e Alnilan, além da bela constelação de Órion, da qual fazem parte.

Sentaram sobre a calçada e ali ficaram vendo o céu. Ele se aproximava sutilmente e apoiara seu braço forte sobre os frágeis e delicados ombros dela. Seus cabelos estavam cacheados e reluziam ante o reflexo lunar. Ele começou a acariciá-los e pôde sentir a doce fragrância do perfume que ela usava. Isto o inebriou e o impulsionou o mais próximo estar.

Ela, não imaginava nada daquilo ali vivenciado, mas tinha a certeza de que não queria o seu termino apenas ali. Queria que fosse eterno. Os olhares se fixaram e os lábios se buscaram timidamente. Toda a atração outrora contida estava expressa no beijo. O apaixonante beijo que os tornaram um em frações de segundos, quando as línguas furtivamente se buscavam e as mãos se entrelaçavam para o toque meigo, maduro e intenso ocorrer.

“Nunca imaginei vê-lo novamente e tampouco que viesse aqui” – ela sussurrou a ele.

“Eu não perderia jamais esse seu momento, por nada neste mundo”- ele sorriu-lhe sedutoramente e voltou a beijá-la.

Ambos interromperam o momento apenas para contemplarem as estrelas que pareciam brilhar mais e mais. No pensamento dela, as palavras escritas no livro a ele. Na certeza dele, a convicção de que os conscientes finalmente se encontraram da busca inconsciente que ambos amantes da escrita trilharam por longos dias anteriores.

Dali em diante as certezas seriam alimentadas com o tempo e a maturidade que a vida proporciona. Foram, ambos escritores, surpreendidos pelas escritas que o amor traça nos corações dispostos a marcarem as vidas alheias e que misteriosamente tiveram ali as suas inicialmente escritas e marcadas, sob as estrelas. Viveram felizes e juntos como escritores para a vida, para compartilharem aos outros leitores atos de bondade e altruísmo.

Livros e Resenhas

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