Blog Livros e Resenhas – Quer mesmo entrar?/Fabi Colimoide

A vida é a maior escola que poderemos cursar e aprender quando nos dispusermos a humildemente amar e sermos amados, viver e doarmos vida e permitir-nos sermos conhecidos e ousarmos conhecer o outro. Nos dias, meses e anos, teremos a oportunidade de amadurecimento, ora freneticamente, ora lentamente. E em grande parte, dolorosamente.

Em todas as situações, a reflexão em nosso íntimo será presente e necessária. Temos nossas necessidades de amar e, sobretudo de ser amado. Necessitamos ter o outro em nossa companhia e em nosso coração. Mas o que é relevante é se temos permitido que essa necessidade seja tão latente ao ponto de nos esvaziarmos de nós mesmos por completo, perdendo nossa validação tão própria e nos anulando ao ponto de deixarmos de existir.

Esse existir não é referente de presença no espaço, de corpo presente em um quadrado de terra ou de um registro pelo censo do IBGE. Falo de existência do mais profundo íntimo, onde temos nossas histórias e bagagens com nossos pesares, traumas e vivências. Todos nós temos em pequena ou grande proporção alguma bagagem. Se deixarmos de existir pela ausência do amor a nós mesmos, consequentemente qualquer relação será inexorável com a dor nos outros e em nós.

Nosso coração tem uma porta cuja entrada pode estar com um grosso cadeado, chaveado e restrito. Ferido pelas mágoas que outro coração proporcionou com nossa permissão. Mas o interessante é que no mesmo coração, outrora lacrado, ao redor ainda poderá estar descampado, com fragilidade de um cercado com alguns arames farpados, próprios para ferir instintivamente, como que quase sem querer. Não esqueçamos que pessoas feridas, ferem as outras.

E o que cabe-nos ressaltar é essa condição de entrar em um coração assim. Condição de entrar em uma vida. É necessário coragem e ousadia. Um pouco de insanidade ou anormalidade para correr o risco de viver sob o jugo de ter feridas latentes do passado, de pouca contribuição ante nossas débeis expectativas. Sim, é necessário disposição para acompanhar o compasso alheio e o nosso.

Só que não raras às vezes, quem mais se dispõe a passar pelo aparente fel amargoso das bagagens do outro, é o que quer entrar. Contrário daquele que tem que permitir a entrada, quando muita das vezes tem pré-concepções que vedam os olhos e definitivamente apresentam as armas do ferido coração.

Entrar na vida do outro e permitir que o outro entre é algo tão sério que requer mesmo pausa para reflexão. Temos que de ambos os lados estar dispostos a se doar, recebendo a doação que o outro pode nos dar, com seus limites e concessões com base em suas fragilidades. Isto de verdade enobrece o sentimento inicial que solidificará em amor genuíno e perdurável. Afinal, quem não é falho que atire a primeira pedra.

Portanto, antes de querer entrar na vida do outro, far-nos-ia bem ter a plena consciência do que temos em nossa bagagem a ser compartilhada e também ter plena consciência do quanto teremos que aceitar do outro. Convivência é reciprocidade, tolerância e ousadia conosco mesmos e com o outro. É maturação do verbo amar em toda sua essência.

Não incorramos no risco de deixar nossa carência por ter o outro presencialmente a todo custo ao nosso lado, porém, distante do coração. Busquemos a cura de nossas mazelas e feridas, pois do contrário, feriremos o outro. Ousemos tirar o cadeado de nosso peito e ousar trocar o molho de chaves que podem estar enferrujadas e na hora da devida troca. Que tenhamos a plena vontade de amar. Amar sem reservas de domínio, pois não temos direito de querer mudar o outro. Temos o dever de respeitar o tempo do outro.

Mas, talvez, infelizmente, só compreenderemos a proporção desse respeito, quando tirarmos a venda dos nossos olhos para ver primeiramente o que temos em nós mesmos a ser compartilhado. Somos humanos e passíveis de recomeços. Sempre.

E por fim, ousaríamos trocar a pergunta inicial por: não deixarei mesmo o outro entrar? Teríamos a disposição de amar e permitir-se ser amado a despeito de nossas essências?

Texto escrito por: Fabi Colimoide

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