Livros e Resenhas-Embrulhos

As embalagens de presentes parecem chamar mais atenção das crianças pelo tamanho, forma e cores. Mas na hora de desembrulhar cada um, a criança não tece cuidados de manter a máxima integridade dos papéis que cercam o que lhe desperta a curiosidade. Elas querem avidamente descobrir o que ali está tão reservado e que poderá ser-lhe a recompensa por dias, semanas e meses de boa conduta para com os pais, avós e afins.

Parece que o embrulho acompanha das mais singelas expressões de recompensa e afeto.

Se observarmos os adultos frente a embrulhos recebidos, a curiosidade talvez não seja na mesma intensidade que dos infantes, mas por certo, despertará a vontade de destacar a fita ou laçarote e remover cuidadosamente, em especial pelas mulheres, as embalagens que envolvem a surpresa no seu interior. Para elas, os papéis e embalagens serão usados como lembranças do carinho externado.

Não podemos afirmar que os homens se preocupam tanto com os embrulhos, pois não são, em grande parte detalhista em comparação com as mulheres, com raras exceções. Para eles, os papéis se rasgam em frações de segundos e cores e os brilhos e enfeites não chamam tanto a atenção quanto a intenção de quem presenteou.

Interessante essa reação de diferentes gêneros e idades ante embrulhos nas mãos. Cada um reage de uma maneira e valida o valor instituído como lhe apraz e a situação converge para tal. Poderíamos atrelar essa dinâmica de interpretar e valorizar os embrulhos, grande ou pequenos, como nossas relações e desafios hoje.

Sim, as pessoas são como embrulhos. Algumas são tão grandes por fora, mas detém um interior pequeno ante o que lhe é possível ser. Outras são tão pequenas por fora, mas são diversificadas por dentro que seu interior se destaca ante a pequenez aos parcos olhos humanos para seu exterior.

Outras vêm em embalagens tão bonitas e caprichadas com laços e enfeites por fora que temos até pena de desembrulhar por conta da beleza que a parte externa traduz. Em contrapartida, outros, não contém a embalagem tão atrativa, mas são valiosos no seu íntimo pelas intenções contidas em si aos demais ao redor.

Em todas essas, contudo, vale-nos ressaltar a beleza que é conhecer e descobrir o que há por trás do embrulho em nossas mãos.

E confesso que, para desembrulhar um presente, necessário é um pouco de tempo. Tempo para observar os detalhes da embalagem. Tempo para remeter-se a situação em que solicitado fora tal presente, ou insinuado a necessidade de recebimento do mesmo, bem como o valor sentimental que ele acompanha a nossa vida.

Pessoas são como presentes. Alguns rústicos, outros modernos, mas todos são como presentes a nós que estamos ao redor. E nós, também, seremos presentes aos demais. Presentes que necessitam ser desembrulhados, contemplados e doados. Presentes que requerem se permitir o desembrulho por mãos alheias.

Intentamos em querer mais receber do que doar. E isso em quase, senão todas as esferas de nossa vida. Talvez no misto que nos envolve como seres egoístas e humanos na sua totalidade. Ainda temos em nosso coração muito mais a pedir do que a oferecer. E isto se torna cada dia mais presente no dia a dia que ao invés de sermos um presente aos outros, tornamos-nos presentes sim, porém, presentes de, digamos, de gregos e troianos. Indesejáveis.

O que temos em nosso interior que sobressairá os embrulhos que nos acompanham? Nossos papéis poderão ora estar amassados, com alguns rasgos ou imperfeições, sem muito atrativo aos olhos seletistas, mas se nosso interior detiver o mais singelo e nobre valor a ser doado ao que o recebe, por certo as relações serão verdadeiros presentes tanto a quem recebe, quanto a quem doa.

Ainda necessitamos em dias de festividades, refletir no que temos sido às pessoas ao redor. Somos desafiados a sermos verdadeiros presentes, a despeito das embalagens e seus embrulhos. Ainda far-nos-á muito bem a alma, sermos como as crianças ante embrulhos a frente: removermos as embalagens, sem a preocupação da forma e cor do exterior, bem como também, sermos num misto dos gêneros, onde não nos atentarmos tanto para o que os olhos vem, mas sim sentir com o coração. E por fim, se tivermos que remover as embalagens, que a façamos com cuidado e apreço, como se o fizéssemos a nós mesmos, pois assim, nossas memórias serão as melhores, bem como cultivaremos nas memórias alheias, o cuidado e zelo que doamos.

Doamos presentes. Recebemos presentes. Sobretudo… Tornamos-nos presentes. Que tal na festividade da vida, nos tornarmos o melhor presente a ser concedido ao redor? Que nos permitamos ser desembrulhados!

Em tempos de inversão de valores de pessoas e coisas, será irônico ainda nos mantermos valorizando apenas as embalagens pela beleza e tamanho, sem, contudo sentir o interior que elas conduzem e possuem realmente. Eis assim uma alegoria que poderíamos praticar nas nossas relações interpessoais. Sem reservas. Sem economias nas aquisições.

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