Ele tinha acabado de sair do Jardim Botânico de São José, naquela tarde quente e atípica de Florianópolis. Já estava ali há seis anos. Como biólogo apreciava por demais estar na natureza. O mundo era estrado dos seus pés. Seus olhos as janelas da alma ora fatigada por desestrutura familiar na adolescência, ora cheios de esperança por ser bem mais do que ontem e até aquele momento que caminhava rumo a sua casa a alguns quarteirões dali. Na verdade, quis fazer o percurso a pé e pensar um tanto no que vivenciara nos meses anteriores. Ainda o sol estava lentamente se pondo.

Estava sem uma mulher ao seu lado já havia longos meses. Seu último relacionamento fora bem conturbado como todos os demais e tampouco duráveis. A última coisa que ouvira da bela morena de cachos fartos e lábios carnudos que se relacionara e que o tomara para tantas inquietudes, estava ecoando agora a frase de Galileu “Você não pode ensinar algo a um homem. Você pode somente ajudá-lo a descobrir sozinho.”. E ela havia assim partido de sua vida física, mas ainda não de seu coração.

Por longo período não havia extraído o que aquela mulher, uma jornalista do Diário Catarinense queria lhe dizer na noite que sentados na escada da entrada do prédio que morava colocara assim fim a um relacionamento de quase cinco meses. Engraçado alguém usar uma frase dessas para terminar… Ainda mais vindo de uma mulher e o interessante era que recebera da mesma um livro de presente naquela noite.

Mulheres fazem alguns alardes para por fim nas relações ou o contrário quando sequer não gritam ao receberem esse fim dos lábios alheios. Ela serenamente assim rompeu um ciclo. Fechara as entradas para ele e por causa dele. Na ocasião ele nem falara nada, pois em si, estava cheio de orgulho e dar o braço a torcer era sinônimo de fraqueza, pensara.

Agora, sozinho, perdido em tantos pensamentos e momentos que vivera no passado, lembrou-se de um conto que lera na edição do jornal naquela manhã: “Amadurecer é romper as paredes de nós mesmos e como sementes nascermos ao mundo, mesmo com todas as dores deste nascimento”.

Ironicamente lembrou-se de algo de sua infância e que o motivara a quando adulto tornar-se um professor de Biologia. Sua professora designara como tarefa de casa, o plantar uma sementinha de feijão em algodão e observar as mudanças, referindo as fases da semente e os resultados. Cada um tinha que levar sua plantinha para a aula assim que ela nascesse. Como ele cuidara com carinho todos os dias e ao final, observara que a semente precisaria ser colocada na terra fértil para continuar o processo da vida, pois no algodão, não tinha todos os nutrientes necessários.

Imerso em seus devaneios, chegara ao seu apartamento. Sentiu saudades dos beijos daquela mulher, sentiu anseio por ir atrás dela, mas seu orgulho como as lianas nas árvores amazônicas, era vasto. Tivera uma juventude tão conturbada, com desestrutura na família, que a “solavancos” esteve ao mundo de responsabilidades precocemente que não tivera tempo para pensar, ponderar e assim, amadurecer. Nem havia dado muitos beijos e os poucos que dera ao longo de seus trinta e nove anos, não criaram raízes no peito que era inerte as relações duradouras. Sim, já havia ouvido falar dos lábios de um amigo psicólogo que algumas questões internas precisavam por vezes se tornar resoluções externas, de dentro para fora. As mudanças eram benéficas. Isto ouvira numa noite de conversas num barzinho da cidade. Mas estava tão inebriado com suas razões que julgava sarcasticamente o amigo como a querer dar consulta barata na mesa do bar. Ele não precisava desse tipo de vexatório momento. Talvez aquele amigo tenha lhe dito algumas verdades mais que tantos outros livros, documentários ou enredos de como viver bem, pensou agora.

Lembrou-se novamente da semente de feijão. Lá estava ele se lembrando dos grãos inchados e de que internamente mudam de cor… Sim, internamente eles mudam… Pensou. Pôs-se a pensar no rompimento das paredes que cercam o embrião que quer sair daquele interior e estas ficam tão  inchadas e por certo devem incomodar…e muito!

Sentia-se assim. Sem apego as pessoas que o amaram por sua trajetória. Ele não permitia isso em si. Não tinha uma entrega real e completa, muito embora se achasse assim fazendo. Tantas mulheres passaram e quiseram pousar e repousar em seus braços viris e atrativos. Mas quando as mesmas viam-se sem a segurança do homem e sim com a fragilidade do menino que ele escondia, não encontravam espaço a elas fornecido para permanecerem. E assim partiam, mesmo querendo ficar. Sua inconstância expulsava a todas que ousassem conhecê-lo um pouco mais. E não fora diferente no seu último relacionamento. Quando ela quis conhecê-lo um pouco mais, a porta do seu coração era a serventia da casa.

Só que agora, sozinho naquela noite, se encontrava e queria ser diferente, embora não soubesse como. Só tinha uma certeza, que iria doer consertar as arestas que o passado deixara e afofar a terra para o futuro e os frutos veria com certeza, pois cuidaria de si e deixaria alguém lhe cuidar. Quantos conflitos! Pensou meio desesperado.

Pegou o telefone e ligou para o amigo do bar que era psicólogo. Com a desculpa que queria indicar um psicólogo para uma aluna, pediu referências de algum que atendesse do outro lado da cidade, pois ainda era vergonhoso procurar alguém próximo dali. Seu amigo se percebera ou não, mantivera-se neutro, mas fez as indicações.

Ele olhou ao relógio, eram ainda dezoito e vinte daquela noite. Discou os números e com voz embargada ao atendimento do outro lado disse: Gostaria de agendar uma consulta, tem horário ainda esta semana?

E por fim, desligou após o agendamento e esclarecimentos de localidade. Iria à consulta naquela semana ainda. Pegou o livro que ganhara de sua ex-namorada e que deixara na mesinha de canto da sala e ao abri-lo, leu em letras cursivas e vermelhas:

“Você não pode ensinar algo a um homem. Você pode somente ajudá-lo a descobrir sozinho.”. Galileu

Olhou pela janela e refletiu na máxima ali reencontrada: sua amada havia tentado ajudá-lo a descobrir sozinho seu caminho e necessário fora sua partida para que ele percebesse que precisava aceitar amadurecer e curar as feridas de seu passado para poder sentir o seu presente e compartilhar o seu futuro… Quem sabe com aquela última e apaixonante mulher? E se não fosse com ela, por certo, estaria mais amadurecido para receber, cuidar e manter a solidez do que lhe faria tão bem: amar e permitir-se ser amado. Ser homem não era tão fácil, pensava, pois solidões parecem raízes tão profundas as quais nem sempre são permitidas as mulheres preencherem e podarem. Mas agora, ele sentiu que precisaria nascer como aquele feijão da sua infância, a despeito de qualquer coisa. Precisaria de ajuda. A coragem do homem em si estava notória finalmente.

Texto escrito por: Fabiana Colimoide.

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