Livros e Resenhas -Por R$ 0,35 centavos

Era feriado prolongado na capital que estava vazia. Ela conduzia sua pequenina filha de três anos. Estavam no Brasil há três meses. Natural de Lima chegara ao país por indicação do esposo, também peruano e que há oito meses iniciara o trabalho numa pequena fábrica de estofados e roupas. Ela, agora também estava a trabalhar no mesmo local, só que costurava pequenas peças de roupas, entre vestidos, calças e casacos ali confeccionados.

Recebia 0,35 centavos por cada peça. Isso equivalia a um pouco mais de R$ 3,00 por dia trabalhado. Seu esposo conseguia um pouco mais devido alguns extras que tirava junto a outros colegas, todos peruanos e bolivianos.

O local parecia clandestino, uma vez que funcionava no porão de uma velha casa ao final de uma das ruas do bairro comercial referência na capital. Assim como ela, dezenas de descendentes peruanos e bolivianos estavam ali buscando meios de sustento.

Na grande parte, vinham ao Brasil por convite de outros amigos que alegavam que os sonhos de uma vida melhor seriam realizados. Sua pequena a acompanhava nos dias que trabalhava. Só tinha folga no domingo a cada quinze dias. Não tinha horário de almoço e sua carteira profissional não era assinada.

Isto significava que não teria uma seguridade a si mesma e tampouco perspectiva de futuro se assim prosseguisse. Todo o dinheiro adquirido era direcionado para os custos de alimentação e aluguel numa pequena vila, num cômodo com banheiro, pia e uma única portinhola que proporcionava uma pálida idéia de circulação de ar.

Aquele casal seguia dia após dia com afinco em prol dos seus sonhos. Mal sabiam tamanha exploração que se submetiam. Acreditavam que dias melhores chegariam. Sua pequena todos os dias ficava ao pé da máquina de costura que a mãe trabalhava. Para não sair de perto da mãe, ficava as vezes envolvida com panos como pequenas amarras evitando que atrapalhasse o trabalho.

Naquela tarde, ela estava com a pequena numa padaria próxima e faltou-lhe R$ 0,35 para a compra de alguns pães e um litro de leite.

O caixa lhe sorriu, pois não era a primeira vez que ela lhe deveria. Na verdade, ele sempre pedia ao funcionário do balcão que colocasse a quantia solicitada e um pouco mais. Ele via as dificuldades daquela família e se compadecia. Morava há anos ali e sabia que inúmeras fábricas funcionavam clandestinamente com uma exploração absurda de homens e mulheres estrangeiros que inocentemente se submetiam a esse tipo de vida.

Ele olhava agora para a menininha no colo da mãe. Tinha cabelinhos bem pretos e os olhos rasgadinhos e de coloração como jabuticabas. Um sorriso tímido nos lábios e a inocência da fase pueril.

Lembrou-se de sua filha que falecera vítima de meningite, quando com quatro anos apenas. A lacuna da perda estava ainda latente e não em poucas noites se via chorando a ausência da única filha.

Sua esposa agora estava com trinta e seis semanas de gestação e aguardavam a chegada do menino. E ele, naquela noite, refletiria na ingrata vida que via muitos ali na redondeza viverem. O que ele poderia fazer para ajudar? Aos olhos humanos não muito, mas o pouco que pudesse faria.

Continuaria a fornecer algo mais do que aquela família pedia todos os dias no balcão e pediria a Deus em suas preces que tivesse condições melhores a ponto de ajudar financeiramente a eles.

O casal peruano, todas as noites no pequeno cômodo que viviam, antes da alimentação e de dormirem, pediam em preces elevadas a Deus que a vida pudesse melhorar, mas pediam pela vida daquele dono da padaria e, sobretudo, agradeciam muito mais a Deus do que reclamavam das dificuldades.

Eles sonhavam com dias melhores. Queriam voltar para o Peru e garantir os estudos a única filha. Ainda teriam que trabalhar muito. Por apenas R$ 0,35 centavos. Triste vida. Até quando? Era a pergunta que ensurdecedoramente ecoava no pequeno cômodo onde o ar parecia rarefeito.

Mais ensurdecedor são tais atitudes dos que maliciosamente se portam permitindo que homens e mulheres trabalhem de modo escravocrata em pleno século posterior a abolição da escravatura.  Sobre esses certamente recairá a maior das responsabilidades de erroneamente conduzirem por caminhos privativos corações humanos. Corações sonhadores e sinceros. Corações humanos validados por R$ 0,35 que trabalham com desumanos exploradores. Estes, totalmente sem valor real.
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