Livros e Resenhas – Algumas cartas, uma chave e recomeços

Ela amava escrever desde pequena. Sonhava em ser jornalista um dia para que seus textos alcançassem mundo a fora. Dedicava tempo para diversas atividades, mas não deixava de lado a sua participação em projetos sociais para auxílio ao seu semelhante. Ainda acreditava que os atos despretensiosos e no anonimato poderiam contribuir para a vida melhor de quem estivesse a sua frente.

Não fazemos ideia de como podemos contribuir no progresso de outro ser humano, ela pensava enquanto redigia mais uma carta endereçada a um albergue de moradores de rua da grande São Paulo. Estava participando do projeto que escrevia cartas aos moradores daquele local, uma por semana nos meses de novembro e dezembro. Totalizariam dez semanas onde cada um dos 30 moradores dali, receberiam cartas deixadas na administração local.

Era uma iniciativa de um projeto onde o voluntário recebia um resumo da vida de um dos moradores ali residentes e teria a responsabilidade semanalmente de fazer contato com cartas com incentivos, com uma abordagem mais próxima de tentativa de resgate da autoestima e valorização individual daqueles que muita das vezes estaria ali sem perspectiva de mudança. O destinatário a ela era um homem de trinta anos e morador ali há onze meses.

Ele saíra de casa por problemas familiares e inicialmente havia ido morar na Praça da Sé, junto com inúmeros outros homens e mulheres. Tinha estudado todo ensino médio e até já havia trabalhado como vendedor nas lojas da Liberdade dos orientais ali comerciantes. Mas ao sair de casa, depois da perda da esposa vítima da violência da cidade, ele perdera o rumo e por ter se entregado ao vício da bebida, decidira sair de casa por sentir-se pressionado pelo pai.

Em geral, cada morador que vive sob marquises ou no albergue tem família, porém, não mantém o vínculo. Acabam por se considerarem como não aceitos pelos familiares ou se tornam entregues mesmo aos vícios. Faltam-lhe forças e até incentivo para as mudanças necessárias. Era o caso deste homem que só fora parar no albergue por um incentivo persistente de um voluntário quando o assistiu num evento.

Semelhantemente agora, ele se via motivado por cartas recebidas semanalmente que pareciam alcançar sensivelmente seu íntimo e sua realidade. Seus maiores anseios, como a volta para casa, para o lado de seu velho pai, bem como a busca por um trabalho digno e o retorno aos estudos. Ele já recebera seis cartas e decidira responder as mesmas, mesmo desconhecendo o remetente.

Ela surpresa ficara ao receber uma carta do morador que recebia suas escritas. Ela, muito perceptiva e sensível, procurara a cada linha traçada colocar seu coração nas palavras que julgava serem como flechas que não voltariam atrás e por isso, comedidamente eram deixadas nas folhas de sulfite. Na carta recebida, aquele homem expressava a vontade de voltar a estudar e disse que gostava de ler.

Amante da leitura também, ela buscou em seu acervo pessoal algum livro oportuno a presenteá-lo. Achou um título que tratava da biografia de um renomado candidato a presidência dos EUA e que havia sido quando jovem, discriminado, mas que sob incentivo da sua mãe, vencera na vida através dos estudos e um renomado cirurgião se tornara. Aquela experiência aflorou pela leitura, no coração daquele homem, a vontade de mudança.

Dali em diante, ele motivara-se a escrever também a ela e nas cartas, que passaram a serem duas a três semanais endereçadas a jovem, ele procurava aperfeiçoar sua escrita e contava-lhe cada vez mais seus progressos como busca por não beber quando fora do albergue junto aos outros moradores das ruas, procura por uma oportunidade de emprego e interesse por voltar a ver seus familiares.

A última semana do projeto que ela participava chegara e com ela, um misto de vazio já sentido no seu íntimo. Acostumara-se a ler e escrever-lhe cartas cujo teor era simples e puramente de incentivo para o progresso de um homem que outrora havia se perdido como quando perdemos a própria chave de casa na nossa bolsa. Sabemos que ela está lá, mas para encontrá-la, muita das vezes temos que tirar item a item e olhar com calma até achar.

Ambas as vidas não foram as mesmas após tal experiência. Para ela, o tempo dedicado a escrever direcionado a um desconhecido, procurando a cada palavra levar um pouco de esperança e incentivo para a mudança dignamente que ele precisava ousar fazer. Para ele, as cartas foram-lhe de grande apreço para o pontapé da mudança que ele esperava do mundo, mas que percebeu ser necessário nele mesmo, com quebra do orgulho e recomeço a vida.

No albergue, na véspera do natal, cada morador envolvia-se na organização da ceia na noite solitária das famílias para a grande maioria. Quem optasse, poderia ir visitar a família. Aquele homem, no quanto que dividia com os demais, arrumava suas poucas coisas quando em meio as cartas recebidas e pequenos objetos pessoais, achou uma chave. Era a chave da porta da casa onde morara. Estava meio enferrujada, mas ainda tinha sua utilidade, ele refletiu. No íntimo, sentiu saudades do lar e pensou no cuidado de Deus até ali.

Não pensou duas vezes ao pedir para ir ver a família. Sabia bem andar na grande São Paulo e levara consigo, apenas a chave e suas poucas peças de roupa. Ainda não tinha dinheiro para comprar algo novo ao pai, mas a saudade seria suprimida pela presença face a face e este seria o melhor presente. Antes da ceia, chegara na sua antiga casa e via as luzes acesas no interior da humilde casa em Poá próxima da estação da linha férrea.

Fora recebido pelo seu velho pai que num misto de instinto saíra ao portão e lhe fitava os olhos marejados de lágrimas de uma saudade de meses longe de seu filho. Um abraço forte e intenso. Um pedido de perdão dos lábios do filho e uma ordem de que era necessário esquecer vinha dos lábios do velho e sábio homem com seus poucos cabelos grisalhos. No céu, a lua destacava-se entre as densas nuvens que se formavam antevendo a chuva. Sentiam as bênçãos de Deus que cuida e dá força, o filho pensava chorando junto ao pai.

Os recomeços e a vontade de voltar a viver eram presenciais nos corações ali. O pai acolhera seu filho das ruas, das tristezas e perdas. O filho, quebrantado no íntimo para lutar nesta vida ingrata, recomeçaria com a força em Deus. No coração da jovem escritora das cartas, a certeza de que vale a pena fazer o bem sem olhar a quem ou espera de recompensas terrenas. Todos, inegavelmente perceberam que o amor ainda é a única chave para a vida e que Deus sempre é bom para todos e igualmente nós devemos seguir-Lhe o exemplo.

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