Blog Livros e resenhas- Cactos e rosas/Fabi Colimoide

O corredor estava silente naquele final de tarde. Ela corria apressada para se apresentar frente a banca de doutores onde defenderia sua dissertação para titulação de mestre na área de Comunicação Social. Era renomada jornalista e estava findando uma etapa importante na cidade onde morava.

Um tanto nervosa, mas discorreu com segurança ante as arguições aplicadas e obtivera nova acima da média esperada obtendo assim a titulação de mestre.

Recebia as congratulações dos ouvintes com alegria quando fitou os olhos dele no meio da plateia. Haviam rompido bruscamente uma relação intensa para ambos, onde ela sofrera pela maneira que conduzido fora o afastamento. A frieza aparente dele, a magoara no íntimo, pois nutria sentimentos nobres e intensos por um homem maduro, vivido, com muitas afinidades e projetos que ela sonhara partilharem juntos. Tanto ela, quanto ele sabia as influências da relação vivida. Ambos tinham projetos e planos, mas o amor não sobrevivera aos mesmos.

Na verdade, ela tinha plena consciência das vissitudes e idiossincrasias que ambos traziam em suas bagagens da vida e sobretudo no coração. Ele, ferido pela vida e retraído pelas dores internas, se recolhera e num misto aparente de orgulho, não cedia aos sentimentos. Ela, inexperiente, nunca tivera um amor como o que sentira por ele. Tinha sido seu primeiro amor. Era cônscia de que precisava amadurecer no projeto do amor. Ele era impaciente e talvez isso fosse o real motivo do distanciamento. A certeza a ela era da dor que só o tempo iria curar e que ali havia reacendido as lembranças boas e ruins.

Ele lhe sorriu timidamente. Daquele jeito que ela amava. Retribuiu com o sorriso que ele também amava ver. Seus olhos pareciam querer beijos e abraços que a saudade causara. Para ele, ela tinha uma alma de mulher que continha amor no peito, ainda que inexperiente. Para ela, ele era o homem que aprendera a amar, pensar em acompanhar e auxiliar segurando-lhe as mãos.

Conversaram sobre as amenidades, projetos concluídos e os novos desafios. Ele seria aluno no mestrado em Publicidade e Propaganda. Ela voltaria à cidade de origem por ter findado o mestrado. Exceto se fosse aprovada na seleção do doutorado que estava concorrendo e o resultado em dias seria divulgado. Mas, ela não sentia-se confiante na aprovação, pois a concorrência era grande.

Naquela noite, ambos demoraram a dormir. Ele, no receio de ter a mulher que se descobrira amando, partir definitivamente. Faltava-lhe coragem de assumir os sentimentos, pois seu passado o tornara receoso e inapto ante a incerteza do sim da amada. A mulher que percebeu ser uma verdadeira companheira a querer-lhe o bem e o incentivava inclusive nos projetos que ele tinha. Ela sentia no íntimo as sensações do reencontro que a remeteram ao passado que queria que ainda fosse um doce presente. Como queria que ele a acolhesse em seus braços fortes e viris, que lhe amasse na intensidade que ele podia e limitado estava. Ela o respeitava, aceitava as limitações que ele ainda tinha, pois se descobrira amando a despeito de todas as coisas que percebera. De fato, ele fora seu primeiro amor. Talvez, outro aparecesse, mas não na intensidade deste, ela tinha essa certeza.

Dias corriam na velocidade do vento, da chuva e da maestria do sol e lua no mês julino com indícios de inverno. Sua aprovação ao doutorado fora uma surpresa que garantiria sua estadia por mais quatro anos ali.

Reencontraram-se uma vez mais pelos corredores da Universidade e ele se oferecera para acompanhá-la de volta a sua casa. Conversavam como dois adolescentes frente ao portão. Como plateia, tinham a Lua timidamente a despontar no céu nublado e o sol se esconder. Seus dois gatos e o casal de cães estavam a observá-los no jardim que continha rosas e diversos tipos de cactos que ela amava cultivar. Ambos queriam se tocar, beijar e infundirem-se em abraços para matar a saudade do tempo distante. Mas, ela esperava a iniciativa dele e este, apenas ficava na vontade.

Despediram-se sem violarem as vontades. Os animais pareciam não compreenderem a irracionalidade dos humanos ante o amor a porta dos corações. Os instintos não foram seguidos e obedecidos.

Ele partiu e ela para esfriar a cabeça, foi pra baixo do chuveiro. Não tinha certezas também da reciprocidade dos sentimentos dele a ela e a dor, parecia querer aflorar. Como amar doía, ela pensava. Mal terminara o banho, ainda com os cabelos em desalinho molhados e o recebeu de volta a porta.

“Eu tive que voltar. Vi que você não tem um destes ainda” – ele sussurrava olhando-a nos olhos e tirando de uma caixa um vaso com um cacto mediano com rosas vermelhas junto. Estavam cultivados num mesmo espaço e terra com uma beleza ímpar que ela nunca tinha visto ou cultivado.

Ela sorria com o coração na garganta e transpirando como se tivesse em ambiente de quase quarenta graus a despeito do banho frio e do vento gélido climático da estação de inverno.

“Sou como ele” – ele dizia com voz embargada –“ Árido, seco, preciso de pouca água, mas sou persistente e resisto às estações e posso conviver com ela, a despeito dos espinhos, pois como ele, a beleza deles se complementam” – e pigarreou se aproximando dela que estava de short e camiseta branca que mostrava sua silueta feminina e graciosa aos olhos dele.

Ela olhou ao redor. O céu agora estava estrelado e com poucas nuvens. Seus animais atentos estavam a porta, como que em júri para o casal de apaixonados., porém, sem condenações. Ambos estavam mais amadurecidos e sabiam ali o que queriam. Desejavam-se. Queriam se amar. Queriam viver com projetos e sonhos por toda uma vida.

“Eu preciso de você. Você daria uma segunda chance ao seu primeiro amor?”- e ele quase a tocava na fusão dos corpos desejosos em si. Ele abaixou os olhos. Ousara além das suas limitações. Fora corajoso, pois não queria mais distante ficar da mulher que era uma fortaleza e que sabia ser-lhe a companheira necessária para prosseguirem juntos.

O sim dela fora através do segurar nas mãos dele, afagá-lo na face e intensamente buscá-lo em beijos ávidos e quentes. Os cães expectantes agora, rodeavam o casal em festa. Os gatos, ronronavam entre as pernas de ambos, deixando os seus feromônios neles. Finalmente, se eles pudessem pensar racionalmente, diriam aos humanos que a despeito da demora, ainda bem que foram racionais para o irracional sentimento do amor.

Na verdade, o amor é o melhor complemento para a vida, a despeito dos inúmeros projetos, títulos, sonhos e lutas. Ele adocica e amadurece os indivíduos. Aquele casal entrou entre os abraços e beijos para o interior daquela pequena casa. Ele apreciava cozinhar para alegria dela e sua criatividade gastronômica iria ser executada ante o olhar e auxílio dela. Era o primeiro de muitos e muitos lanches e momentos de cumplicidade, maturação do amor. O recomeço tivera como testemunha o céu límpido, as estrelas, os animais e os cactos e rosas.

Eles finalmente compreenderam que a despeito da aridez da vida, sequidão do solo dos corações, bem como os espinhos e podas necessárias, ainda valeria a pena escolher o amor. Amar é algo sublime. Felizes seguiriam, não por apenas quatro anos em que ela faria o doutorado naquela cidade, mas por toda a vida que existia nos humanos e racionais corações.

 

Texto escrito por: Fabi Colimoide

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