Blog Livros e resenhas- Quando descobri que sem você não sou eu/Fabiana Colimoide

Nove da manhã. Ainda não levantara da cama. Na verdade estava exausta de uma noite em que só adormeceu as duas da madrugada. Ficara pensando que não tinha consigo mais o seu amor de alguns meses. Estavam separados havia mais de um mês. O rompimento fora por parte dele.

Ela, não tão conformada desta relação que criara tantas expectativas. Ele, tranquilo por ter feito a parte dele, mas sem ter sido promissor, pois viu que a ex-namorada estava com um misto das feridas do relacionamento conjugal que tivera por décadas antes de se apaixonar cegamente por ele.

Ela fora casada, tinha um marido advogado e extremamente inteligente. Viajava por inúmeros locais e participava de vários congressos por conta das atribuições que desenvolvia. Tiveram um casal de filhos, que hoje estavam sob a guarda dele. Ela, nunca saíra da formação de uma graduação de matemática. Lecionava nas escolas e tinha como saldo desse casamento a anulação de si mesma em função do marido e dos filhos. Nem progredira nas especializações necessárias. O brilho do marido ofuscava sua vida. Ela era invisível na sua concepção.

A relação chegara ao fim, pois o marido não aguentava mais tanto sofrimento sentido pelas atitudes da esposa que parecia viver em eterna perda de quem era o que poderia ser muito mais, ou seja, precisava do outro para existir e manter-se. Não tinha vida em si própria. Ele tentara salvar o casamento com auxílio de terapeuta profissional, mas por incrível que pareça, ela fora resistente sob a justificativa de que o problema não estava nela. Geralmente é o inverso na busca por auxílio profissional, mas ela não via a necessidade de mudar. Na verdade, parecia anestesiada ante o porto seguro que seu esposo parecia ser.

Mas o sentimento acabou desgastando-se e o fim foi inevitável. Sem chão, entregou-se a falta de objetividade na vida. Perdera-se ante a separação do marido, dos filhos que ficaram com o pai por um acordo inicial que se firmou ante a vontade dos mesmos e as condições estabilizadas do pai que garantiam mais segurança aos dois adolescentes.

Ficara tão inerte que a família pensara que ela estivesse em depressão, mas felizmente não. Porém, o que ela ainda não tinha feito era resolver o problema que tinha ao seu redor e dentro de seu coração e mente. Sofria calada, sentia as dores de modo amargurado. Mas estava incapaz de reconhecer que precisava de ajuda.

Logo após o termino do casamento, se amparou no atual namorado. Ele, belo, muito compreensível e a aceitava do jeito que era sem objeções. Era o que precisava. Teria novamente um relacionamento de mera sucção no outro, onde anestesiada estaria de novo em sua zona de conforto. Ela via nele o que tanto queria em si, ou seja, a liberdade, a capacidade de amar e de ser aceita do jeito que era sem necessidade de mudança. Afinal, ela não queria mudar. Nunca se via bela, sempre o outro lhe era melhor.

A maneira como se encarava era de uma baixa autoestima total. Nunca se via como capaz de algo bom e as palavras alheias, sempre julgava serem direcionadas a si. Um misto de perseguição e sendo de assim ter que sempre se auto afirmar ao redor.

Parecia ter que provar a todo custo ao redor que era boa, que deveria ser aceita e amada. Não compreendia ainda que quando se sabe quem se é, não se precisa justificar a ninguém. Mas o seu passado ainda estava lá. A perda dos filhos, do marido, onde ficara com bem menos do que achava ter por direito a marcaram profundamente.

Apegou-se tanto no novo amor, que floreou tantas coisas com o mesmo e não estava com os pés no chão. Ele, um pouco mais novo que ela, mas bem consciente de que ela estava fazendo mal a si mesma e por fim a ele também. Decidira assim findar um relacionamento que já estava com idas e vindas e tentativas fúteis de solidificação. Ele gostava dela, mas não tanto a ponto de carregá-la no colo. Talvez pela idade reduzida e pouca vivência experimentada. Talvez por amor próprio que reconhecia o desgaste ali presente.

Agora, ela sentada estava na cama, com a janela entreaberta com um vento quente da cidade a lhe tocar. Olheiras presentes e uma dor no peito ante a tantas perdas vividas e não tratadas.

Deixara de produzir nas escolas que lecionava. Na verdade não estava estabilizada emocionalmente e estava refletido isso em seu comportamento. Tanto que a diretora do núcleo de professores a afastou por um período para que se cuidasse.

E agora? –ela pensava. O que faria? – tristemente estava. Sensação de vazio infinito dentro do peito, dentro da alma.

Percebeu aos poucos ao refletir que não era mais si mesma desde que seu esposo decidira pela separação. Alias, nunca fora “si mesma” em algum momento. Sempre fora em prol do outro. Precisava do outro para se auto afirmar. Tanto que se abalava sempre com as palavras alheias e tentava sempre se justificar. Era-lhe como uma defesa para gritar ao mundo, que era boa e merecia ser aceita, amada.

Suas carências eram tamanhas e não perceptíveis aos seus olhos. Sentia-se oprimida por tudo que as pessoas que queria que a aceitassem fizessem, uma vez que tinha tremenda necessidade de ser aceita.

Mas como seria aceita, sem aceitar-se primeiro e se enxergar a si mesma? Tinha tantas qualidades e beleza interior, mas não acreditava nisso, embora ouvisse de pessoas que a conheciam muito bem. Sempre era o outro o melhor e agia num senso de sacrifício que julgava ser o correto, se anulando e permitindo que o outro sempre a ferisse na sua mente, pois se achava sempre atacada pelos ao redor.

Percebeu-se assim que sem o outro não era ela mesma. Percebeu que não tinha identidade da alma e da beleza a si contida. Tinha uma identidade que não passava de um documento do RG.

Era, portanto, uma cidadã, mas não vivia como um ser humano cheio de boas características e saberes. Que era inteligente e capaz. Ao contrário do que sempre via ante os dois homens que se relacionara nos últimos anos. Ela sempre os via como os melhores do que ela e que dependia deles para a tornarem num misto de ser e estar.

O que ela não tinha percebido ainda era que precisava ser em sua total beleza e estar em sua total fragilidade aberta para o processo de cura. Uma cura que lhe doeria na alma, pois a idade agrega a vaidade do saber e conhecer mais ao ponto de não assumir-se aprendiz. Aprendiz dos sentimentos e emoções.

Sim, a despeito de toda bagagem que ela carregava, poderia ser uma nova mulher. Resgatar o que outrora perdeu desde antes de ser genitora, antes mesmo de se tornar de nubente a uma senhora casada. Casara para tornar o outro feliz, mas ela não era feliz. Resgataria a dignidade que havia guardada em algum lugar dentro de si. Uma dignidade de ser e estar em si mesma de modo completo e assim com possibilidade de dividir a felicidade com o outro. Dividir sem se esvaziar por completo seu cântaro das emoções, sentimentos e de sua essência.

Ela precisava ser apenas ela mesma, sem sofrer pelo outro a ponto de se perder de si mesma. Ela precisava se amar, antes de querer amar novamente. Esse resgate, ela precisaria experimentar, ainda que sob a dor que a mudança poderia acarretar.

Ela precisava ser “ela” antes de querer ter novamente “ele” a lhe acompanhar. Sim, acompanhar e não carregar como um fardo. Amar envolve princípios como amar ao próximo como a si mesmo. Quando assim não se procede, deixa de ser amor de verdade.

Ela levantou e foi tomar um banho frio. O calor dos quase trinta graus pedia que refrescasse o corpo. Ela decidiu ali que precisaria refrescar também a alma e o seu coração. Recomeçar.

Voltaria a ser a excepcional professora dos logaritmos e aritmética que tanto ouvia os demais elogiarem. Solidificar-se-ia financeiramente e emocionalmente e reconquistaria a confiança dos filhos e quem sabe os teria a morar com ela. Reorganizaria o coração e com o tempo se abriria para uma nova chance de amar, sem as feridas do passado. Isso! Recomeçaria um passo por vez, mas faria, mesmo que doesse. E neste processo, não estaria sozinha, pois teria forças em Deus.

Texto escrito por: Fabiana Colimoide.

Blog Livros e Resenhas

 

Curta nossa página XD

Estamos no Google+

Comentários

Comentários