Blog Livros e resenhas- Ósculo impossível/Fabiana Colimoide

Tarde fria e com céu cinzento. A chuva havia regado a terra. O canto dos pássaros nas copas das árvores dizia que o louvor enobrece tudo ao redor, inclusive nos dias de chuvas.

Ela folheava um álbum de fotografia e deteve-se numa foto especificamente. Havia alguns meses que se distanciara das aulas de piano e sentiu saudades daquele homem que havia ocupado seus devaneios e sonhos de um futuro juntos.

Ela tinha consciência de que ele não a amava, tanto que se declarara apaixonado por outra mulher, bem mais bonita nos padrões sociais, mais atrativamente juvenil e mais acessível.

Iludira-se, pensava em seu íntimo. “Como nós, mulheres sonhamos com coisas impossíveis!” – ela balbuciou ante a foto daquele homem. Sobrancelhas lindas,um sorriso maravilhoso e cabelos que pediam um afago, mesmo com um corte curto.

Jamais ela teria a oportunidade de dar-lhe o seu amor, pois pertencia à outra e só lhe restava se recolher e prosseguir pelos valados da vida.

Poucos momentos, raros privativos, muito mais a distância do que face a face eles conversavam sobre cifras e partituras. As aulas eram sempre com dois a três alunos. Apenas na memória as palavras dela e as dele. Não houve toque, só falácia e uma escuta que hoje ela queria ter de novo, mas sabia ser necessário seu distanciamento. Doce ilusão que se permitira. Voltaria à maestria de tocar piano em outro momento, com outro instrutor. Precisava esquecer.

Com a foto a mão, passou seus dedos finos, típicos de pianista, sobre a imagem do rosto dele.

Era uma foto de corpo inteiro que tirara num momento da aula. Ele, sozinho, em um terno preto e com uma camisa azul turquesa interna e uma bela gravata. Era num dia que teria uma apresentação num recital. Lindo, elegante e extremamente cativante. A cor azul combinava com sua pele clara e olhos também azuis.

Deteve-se no rosto dele na foto. Contornou o mesmo e cessou nos lábios. Queria tanto tocá-los de verdade! Não com seus dedos somente, mas com seus lábios carnudos, com batom nude e lápis de contorno que realçavam sua beleza e sensualidade inocente ali. Borraria o batom, apagaria o mesmo nos lábios dele.

Sabia que nas relações o beijo representa uma transposição da alma ao outro em frações de segundos. O coração pulsa da região do mediastino para as amígdalas e por fim pulsa nos lábios alheios. Os órgãos antes usados para sentirem pelas papilas gustativas os sabores, agora se cruzam com o do outro e brincam de carícias ainda que molhadas pela saliva, tornando-se extremamente gostosos e intensos os segundos e minutos.

As mãos transpiram, nem sabem onde podem permanecer. Perde-se em um misto semelhante a vulcanização dos corpos que se tornarão um brevemente nos sentimentos ali depostos.

Os hormônios agem em maestria nos corpos, esquentando-os e fazendo-os querer mais e  mais o outro. De modo pueril às vezes ocorrem, mas tomados por uma vontade contida, abrasadoramente os resultados de um beijo se solidificam. Ela queria isso dele, mas não teria, nunca mais.

Sabia que não era ela a que ele queria beijar. Sabia não ser ela a que ele queria segurar as mãos e tocar os lábios. Tudo verdade que ela queria que fossem as suas.

Resolveu anotar no verso da foto algumas palavras que imortalizaria ante seus desejos.

Beijo? – pensou – teria outro nome? –Foi conferir.

É uma forma de afeto entre amigos, quando não entre os amados. Traduz respeito quando nas mãos e na fronte. Nas bochechas são carinhosos e para alguns abrem caminho para o alcance dos lábios. O beijo é comum inclusive nas religiões. Ali é mencionado como ósculo santo.

Ósculo, ela pensou… – sim, seria esse o significado que melhor se aplicaria ao seu desejo.

Queria dele apenas um ósculo de muitos outros. Santificaria por deixar separado, puro e perfeito em seus devaneios.

Queria, mas nunca teria. Para isso acrescentou após a palavra ósculo, o sinônimo impossível.

Sim, “ósculo impossível”. Era o que de fato traduzia sua realidade. Jamais. Nunca.

Ela não voltaria às aulas dele. Não queria sofrer de saber que não era correspondida e tampouco havia esperança de assim ocorrer. A realidade nunca seria para ambos.

Lembrou-se de Isaac Newton nas suas aulas de física. “Dois corpos não ocupam o mesmo espaço”.

No caso do beijo, as línguas se buscam, envolvem-se e se complementam nos espaços ali permitidos da cavidade de ambas as bocas.

Mas no caso do coração, ela pensou – isso é impossível. Para que um amor entre, o antigo precisa sair.  Sim, como ela sabia quem precisava sair, resolveu se distanciar e restava-lhe agora somente a saudade. O que os olhos não veem o coração não sente.

O sonho de beijar aqueles lábios cativantes através do sorriso meigo e expansivo de ser daquele homem. Restava-lhe a saudade, nada mais.

Para esta, o tempo se encarregaria de armazenar, sem expectativas, pois era muito cética para alguns aspectos e esse era um. Teria saudades do beijo não trocado, da carícia nas mãos não sentida, da palavra que continha no coração não falada. Do abraço não trocado.

Sua condição de mulher, sabedora de que não havia essa possibilidade, a fazia agir assim. Não por covardia, indecisão ou pudor. Apenas por saber que o que não a si foi permitido, ela teria que reservar-se a si mesma e amadurecer para compartilhar com outro homem que estivesse disposto a deixar tocar no ápice do seu coração. Amar era sua fortaleza.

Revelar-se ao mundo sua beleza e amor próprio, era a coisa mais necessária a ser feita. Não se tratava de achar-se inferior aquela mulher amada, pois sabia ter atributos visíveis de uma maravilha em si, de um coração nobre e puro, pronto a amar e ser amado. Mas ela chegou e a casa do amado já tinha moradia.

Não tinha disputas a serem travadas, pois os homens são muito focados nos seus objetivos e conquistas. Fazem uma coisa de cada vez, como dizem – ela recordou. Ele não teria olhos para ela por olhar em outra direção antes mesmo dela aparecer.

Por fim, em escrita cursiva escreveu as duas palavras seguidas de reticências.

Ósculo impossível…

Guardou a foto novamente e resolveu caminhar pelo gramado úmido e com a garoa tímida a se apresentar. Sentiu seu toque na pele e percebeu que a vida precisava prosseguir. Firmemente com os pés nos chãos e com o coração pronto para compartilhar o amor nele contido. A correspondência do amor precisava acontecer e ela estava disposta a ser realista e aberta para isso.

Muitos ósculos ainda iria trocar com um homem que estivesse disposto a amar. Não furtivamente e com qualquer um, pois o beijo é extensão da alma e do coração e não deve ser tratado como mercadoria barata a ser trocada. Tem que ser com aquele que esteja disposto a sentir a profundidade desse toque nos lábios, mas, sobretudo no coração. Sem promessas fixadas de altar a vista, mas como princípio da caminhada.

É como uma relação tão íntima que precisa ser levado com a seriedade necessária. Dizem as prostitutas que não beijam na boca por conta do sentimento que o beijo traduz. Pode até ter um fundo de verdade nisso mesmo. Do contrário, perderá sua essência de ser um beijo e tornará algo comum. Amor não é tão comum – pensou.

Texto escrito por: Fabiana Colimoide.

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