Blog Livros e resenhas- Meretrício/Fabiana Colimoide

Ela estava na penúltima paciente atendida para coleta de Papanicolau. Já passavam das duas e meia de uma tarde de eventos sociais num bairro no município fluminense e ainda nem almoçado ela havia conseguido. Em cada consulta, prezava por uma atenção a despeito do tempo do relógio e sentia-se tão plena por cada mulher ali assistida. Amava ser enfermeira e quando organizava eventos assim, onde podia atender individualmente e de modo humanizado, tinha oportunidade de aprender algo com as vivências de mulheres, ora sofridas, ora alegres, mas todas em essência de mulher.

Finalmente a última paciente daquela tarde entrara. Loira, com alongamento nos cabelos, um corpo franzino e com make carregado nos lábios e olhos num rosto novo. Ela sorriu timidamente a enfermeira à sua frente. Usava uma camiseta curta, justa e branca sob seu casaco preto. Externava um abdome definido. Estava com uma minissaia jeans e surrada. Usava havaianas nos pés com esmaltes vermelhos nas unhas.

O questionário sócio econômico era preenchido com as respostas polidas por parte daquela mulher. Tinha vinte e dois anos, tivera um filho que hoje tinha seis anos e um aborto provocado segundo a mesma. Morava com os pais, alegou trabalhar em escritório de representação contábil e na hora que a enfermeira questionara o número de parceiros nos últimos meses, a viu constrangida.-“Bem, foram muitos… precisa ser um número certo?”- ela questionou timidamente.

A enfermeira a olhou de soslaio evitando constrangê-la ainda mais. Havia entendido a vida sexual bem ativa daquela mulher a sua frente. Pôs-se a completar a ficha e em seguida coletaria as amostras no Papanicolau. Tinha pequenas lesões ao fundo do colo do útero e secreção de aspecto de uma conhecida DST. Os exames revelariam se suas suspeitas eram corretas.

No término da coleta, a enfermeira foi surpreendida: “Sabe o que é, sou garota de programa”. Engoliu em seco. Estava acostumada com essas realidades, mas aquelas verdades declaradas entraram como um espéculo sem anestésico na vagina. Seu olhar aquela mulher foi de ternura e um misto de dó ao a ouvir falar de suas lutas.

Havia se prostituído pela primeira vez aos catorze anos, quando aliciada pelo vizinho que tomava cerveja com seu pai todas as sextas a noite. Sentira-se tão barata que viu essa vida como uma maneira fácil de conseguir as coisas. Afinal, dava seu corpo e tinha em troca dinheiro ou coisas que precisava e que lhe faziam muito bem ao ego. O sexo era uma maneira fácil de manter a vida.  Seu filho fora fruto de um destes relacionamentos. Não usava preservativo e nem contraceptivos na ocasião e por descuido engravidou. Os pais não a expulsaram de casa, mas alegaram que ela precisaria trabalhar para suster o pequeno menino. Nunca desconfiaram dessa sua atividade. A partir daí ela teve mais necessidade de ter dinheiro dessa forma.

Tinha a cobertura de uma amiga mais velha que também era prostituta de luxo, de grandes empresários na região e a introduzira nas grandes festas. Para seus pais ela era representante de um escritório contábil. Nos fins de semana, sempre alegava plantões extras aos sábados para fechamento contábil e como ficava tarde a volta para casa, ela dormia na casa dessa amiga.

Seu filho era sua paixão. Ela sonhava em vê-lo como um grande profissional no futuro. As mensalidades de suas aulas na escola particular eram pagas com o dinheiro de sua atividade. Ela amava um homem, mas ele era casado e a procurava insistentemente nos últimos seis meses. Fora tão intensa sua relação com ele, como com nenhum outro que num programa, não usaram preservativos e ela descobriu-se grávida meses depois. Estava feliz por que tinha planos futuros com ele, mas ao confidenciá-lo a gestação precoce, ele a induzira a abortar. Era um vereador local, casado e pai de três filhas. Sua esposa era uma advogada trabalhista renomada e não findaria seu casamento por um caso extraconjugal, sobretudo com uma meretriz, como ele se referia a ela.

Lágrimas rolaram em sua face ante essa conversa que já passavam de quarenta minutos. Ela disse ter vergonha de sua vida. Sentia-se infeliz e falseta nessa vida em que tinha que ser outra pessoa. Seu filho jamais poderia desconfiar de quem ela era e no que conseguia o dinheiro para suas roupas, educação e brinquedos. Seus pais eram idosos, dependentes de uma aposentadoria que muito mal dava para suster a casa e despesas. Ela tinha um irmão mais novo e que estava no pré-vestibular. Queria ser médico.

Ela se realizava nos sonhos alheios concretizados com seu auxílio, ainda que isso lhe valesse o preço de seu corpo. Corpo tão bonito. Tinha uma tatuagem no ombro direito com a frase Deus é amor. Ela se dissera ter estado nos átrios de uma igreja sob influência da mãe até os dezesseis anos. Saiu após essa idade, pois se julgava imunda de estar ali e não queria ter desejos proibidos por outros homens santificados na sua visão.

Chorou mais copiosamente e a enfermeira oferecera-lhe papel toalha. Aproximou-se e a abraçou carinhosamente. Sussurrou ao seu ouvido: “Deus te ama e você é especial, não fique assim”.

Mais lágrimas presentes. Desta vez, a enfermeira também se emocionara. Na mente da prostituta declarada, esse abraço era a extensão de tudo que precisava, que era sentir-se humana e não um lixo, uma mercadoria barata como sempre se sentia a cada programa realizado. Em cada olhar a ela direcionado nas ruas e praças.

Na mente da enfermeira, a certeza de que de suja, aquela mulher não tinha nada, pois maior sujeira estava na vida de outros humanos que não olhavam como humanos e sim com dedo em riste, acusadores. Desconhecedores das dores alheias.

“Você tem vontade de mudar?” Perguntou-lhe a enfermeira.

“Sim, mas não tenho coragem. Não me aceitarão de volta. Como aprendi, sou pecadora” – ela disse com os olhos profundamente vermelhos de tanto chorar. Parecia que sua alma estava internamente abundante de lágrimas que agora eram avidamente despejadas.

O jaleco da enfermeira estava úmido daquelas lágrimas. Estava sujo de tanto ser usado naquele dia. Mais sujo que como se julgava aquela mulher ali atendida. A enfermeira foi até a mesinha da sala e pegou dentro de uma gaveta, um livro pequeno e bem fininho, intitulado Caminho a Cristo. Gostava de ler e de dar livros. Deu aquela mulher e fizeram juntas uma prece. Para ela, as coisas que os homens não compreendem, como o que vai na alma, Deus compreende e muito bem.O meretrício é uma prática não exclusiva das prostitutas declaradas. Há muitos camuflados neste vasto mundo, vendendo seus corpos e valores por tão pouco, isto também é prostituição,ela pensou.

O fim daquele dia fora de muitas reflexões para ambas as mulheres. Uma que se julgava imunda, tivera a alma limpa dentro de quatro paredes como nunca tivera oportunidade. A outra reconhecera sua alma imunda como nunca julgara ter, pois percebera que nada diferia daquela prostituta atendida. Se prostituía de outras formas, não com o corpo, mas com pensamentos e palavras e outras coisas mais. A prostituição da alma é mais corrosiva.

Seis meses se passaram e a enfermeira voltou em nova campanha social àquele local. Já no final do dia, foi surpreendida por uma pessoa chamando seu nome. Viu aquela mesma mulher de vinte e dois anos, agora com cabelos curtos naturalmente e ondulados. Estava acompanhada de um belo rapaz e seu filho. Trazia nas mãos um embrulho.

Abraçaram-se e a enfermeira ouviu ao pé do ouvido: “Obrigada por ter permitido sentir-me mais humana naquele dia. Eu recomecei e vou me casar com ele. Meu filho está feliz e meus pais o aceitam muito bem. Estou trabalhando numa loja de roupas no centro da cidade e estou muito feliz. Estou terminando o tratamento da DST que adquiri. Obrigada! Tenho lido bastante, inclusive a Bíblia. Fez-nos muito bem”.

A enfermeira recebeu o embrulho num papel de rosas vermelhas e avistou um livro entre uma toalha bordada com seu nome e com cinco sabonetes perfumados.

O livro seria sua próxima leitura certamente. Estava com uma bela dedicatória que dizia assim: “todas as mulheres são damas e precisam se ver como damas neste mundo vil, obrigada por me fazer enxergar isso”.

Agora quem chorava era aquela profissional que diante de um ato tão simples, pôde ver resultados tão longínquos na vida daquela que outrora esteve sob seus cuidados.

Na verdade, ela pensou, não fazemos idéia de como podemos marcar a vida das pessoas… Não mesmo. Ela determinada estava mais ainda a prosseguir no trato humanizado com todos independentemente de raça, cor ou condição social. Todos são seres humanos. Cada um é um ser humano.

Texto escrito por: Fabiana Colimoide.

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