Blog Livros e resenhas- O que temos deixado na memória do outro?/Fabiana Colimoide

Com o tempo, é inevitável o amadurecimento de como encaramos algumas situações vividas. Quanto aos relacionamentos não é diferente, pois somos seres complexos e com a incrível capacidade de sermos amplexos no sentido de dar carinho, afeto e demonstrações dos mesmos, ainda que não sejamos correspondidos.

 

Nosso organismo é corpo e mente para um perfeito equilíbrio inclusive nos mesmos relacionamentos que nos desafiam a cada instante. Com relação a mente, nossas memórias se dividem como sensoriais, que ocupam frações de segundos e estão ligadas aos órgãos sensitivos. A memória a curto prazo retém informações diante de um período limitado de tempo, diferentemente da de longo prazo, que é a mais durável assim.

 

A memória dá-nos capacidade de aprendizagem e através dela que os conhecimentos se consolidam. O que se aprende com a mesma que nos possibilita a aprender coisas novas e boas, ampliando assim, nossos conhecimentos. Retemos a informação, aprendemos assim.

 

Sendo assim, nas relações que temos uns com os outros, temos a ímpar capacidade de trocar conhecimentos e aprendermos em trocas mútuas. O outro sempre nos trará algum aprendizado pelo que armazenarmos na nossa memória com base nas vivências, sejam por palavras, atitudes, gestos, tato e afins. Será recíproco por fim. As pessoas chegam em nossas vidas e nem sempre ficam no centro da moradia de nosso ser, mas alcançam a borda de alguma maneira, isso é indiscutível.

 

Ansiamos muito por vezes para tornar o outro melhor e a nós mesmos também, mas não em raras ocasiões descortinamos tudo que em algum momento nos foi alimento para as nossas boas memórias. Isto pode ser facilmente entendido nos acessos de impulsividade por esquecer, apagar alguém de nossa vida. Geralmente não pensamos muito. Somos intolerantes primeiramente com o outro e conseguinte acabamos por sermos a nós mesmos.

 

Agindo assim, incorremos no fatídico aviso ao cérebro que a recente será o mais importante, ou seja, na memória, estaremos armazenamos o recente ocorrido e assim, as boas memórias antigas outrora ocorridas, caem por terra na nossa concepção humana de ser, julgar e de precipitar. Ainda que tenhamos coisas boas a serem lembradas, forçamos a barra para apagar com a velocidade da luz, se isso é nos possível. Engraçado, não?

 

O que temos deixado de memória no outro? Indiscutivelmente deixamos sempre algo. As vezes, não recebemos do outro o que esperamos, como compreensão, satisfação e até correspondência do amor esperado. Mas que deixamos algo, sempre o faremos, certamente.

 

As marcas que carregamos têm muito a nos revelar como temos vivenciado neste efêmero espaço de tempo a nós confiados. As marcas que deixamos no outro, cravadas no peito as vezes a sangue de tentar mostrar ao outro o quanto ele nos desapontou, escoam pelos átrios e ventrículos do nosso músculo cardíaco e nos fazem muito mal. Não falo de gênero feminino ou masculino que diferem nas suas investidas por magoarem, mas falo da nossa condição humana de ser. Somos assim. O que nos amacia a alma para o bem proceder? O perdão. Cada dia mais creio nisso. Perdoar é divino, ainda que ou outro tenha-nos deixado fora da vida que outrora estivemos mesmo que pelas bordas, pois as trocas certamente ocorreram.

 

A mágoa perdura por um bom tempo na memória daquele ou daquela que fora atacado sem precedentes com ações que valeriam melhor serem desmemoriadas, se essa palavra existe.

Deixar o outro melhor, envolve o mínimo de respeito de dialogar e dizer-lhe os motivos de ações tão vis. A indiferença é uma atitude não passível de ter atos de amor envolvidos, pois como se pode alguém dizer que estando indiferente ao outro, age com boas intenções recheadas inclusive de amor, de poupar o outro ou a si mesmo?

 

E como o outro sairá melhor de uma relação ainda que passageira, se a ele não foi ensinado ou evidenciado onde pode e é necessário melhorar?

Cada dia mais, concluo tristemente que não temos interesse na grande maioria das vezes de acompanhar os passos alheios. Nosso egoísmo fere-nos a alma e desmembra toda e qualquer boa memória solidificada um dia. Afasta-nos, nos torna radicalmente uma pessoa fria e calculista ante as outras pessoas que estão conosco em nosso círculo.

 

E o que ganharemos com tudo isso? Sinceramente tenho minhas dúvidas quanto aos ganhos assim. Temos tudo nas mãos, inclusive os sentimentos alheios, mas não somos a nossa essência de verdade quando por impulso trazemos a vida alheia ações e atitudes, ainda que não faladas, que serão tristes memórias no nosso íntimo.

 

Doloroso sabermos e nos encontrarmos assim, neste mundo onde deveríamos andar na contra mão desta vida, onde cada dia mais as relações estão líquidas, descartáveis. Não me refiro a distanciamento para esquecimento, me refiro a frieza das relações que outrora foram significativas, mas que passam a ser apenas uma brisa. Parece que esquecer não é mais difícil como antigamente se pensava.O distanciamento também deve ser compartilhado. Há crescimento quando dito olho nos olhos.

 

Nem tudo poderemos ter nesta vida, mas poderemos escolher ter as marcas dos outros em nós mesmos e vice versa. Marcas de benevolência, bondade, amizade sincera sem interesses torpes e até mesmo ter um amor recíproco. Tudo tem seu tempo, inclusive para reservar-se ao distanciamento, desde que seja coerente para ambas as partes. Pois o que adiantará apenas um lado agir sem o outro ter o amadurecimento necessário?

 

Estaríamos desconstruindo o belo que outrora teve em nossas relações? Estaríamos tentando apagar as lembranças fugazmente? Estaríamos como com um punhal atravessando o peito alheio sem o mínimo de respeito ao outro de saber os motivos? Este último questionamento eu deduzo ser o crucial, pois envolve maturidade de saber que as pessoas são seres humanos passíveis de erros e acertos, assim como a nós mesmos e que sempre aprendemos algo com o outro. Tantas interpretações precipitadas rondam-nos a todo instante… Só dos lábios alheios que proverá a verdade, ao menos é o esperado.

 

Difícil mentir quando se olha nos olhos. Difícil.

 

Concluindo, trago a memória uma situação ocorrida com uma grande amiga que dividimos quarto anos atrás. Namorava há uns cinco meses quando o rapaz rompeu sem nenhuma explicação o relacionamento. Ela insistira para saber os motivos, pois era um mar de rosa como ela definia a relação. Sete dias depois, ele desfilava num salão com outra mulher como que querendo mostrar a dor dela a todos ali e sobretudo a ela mesma, sua ex,  ante todos os mesmos amigos que estavam nos dias anteriores e os viram como namorados ainda. O constrangimento e a dor dela fora maior do que se ele tivesse sido verdadeiro e dito que não queria mais nada com ela e que a outra lhe era mais interessante. Tudo que eles construíram no pouco tempo parece ter caído pelo ralo em segundos por um simples e doloroso momento que ficara em sua memória recente.

 

O que ela fez? Bem, concordo com ela na intenção da ação em que o outro precisa no mínimo ouvir de nossos lábios o que nos é indigesto, o que dá motivos para não querermos manter um relacionamento seja de amizade ou amor.

 

Ela se encontrou com ele depois daquele dia e conversaram abertamente. Para surpresa dela, ele terminara por considerá-la uma mulher para casamento e não para relação temporária envolvendo sexo inclusive. Cria ser ela tão especial que não queria na sua concepção magoá-la. Sentiu as dores por ela, julgando serem as corretas dores. Ledo engano, pois ela o deixou ciente que se conversassem antes, ela se policiaria com várias questões para que pudessem se resguardar o máximo possível até um possível casamento. Ele sempre tivera com as namoradas esse tipo de relação e sua consciência lhe pesou por ela ser diferente e não como uma conquista barata. O que houve de precipitado ali?

 

A maneira de ele resolver a questão, não a procurando para dialogar. Por certo com a outra moça ele conseguiu o que queria e não somente uma vez, tendo-a abandonado depois. Ele é um canalha? Para alguns sim, mas para outros ele é fraco e não soube trabalhar e admitir suas fraquezas com a que se relacionara. Óbvio que ela o ajudaria, pois estariam juntos para superarem as adversidades, fraquezas e validar as virtudes. Exemplo simples e até pueril esse dado, mas realmente ocorrido e deixado as piores lembranças na vida da minha amiga que depois grata estava por ter descoberto o quão fraco ele era, mais fraco do que o que sentia por ela. Ela cria que nas relações, diálogo é respeito, inclusive nas partidas e chegadas. O outro tem o direito de saber onde precisa melhorar e nós temos o dever de corajosamente assim proceder. Fará bem para ambos os lados. Sempre. Mágoa retida é fel ao coração e mente.

 

Nossas relações precisam ser duradouras. Não incorramos no doloroso erro de magoar os corações com nossas ações impulsivas e sem uma clara concepção do que de fato ocorre na vida, no íntimo do outro. Não sabemos o que vai ao coração alheio, mas poderemos ter certeza que a mágoa e as piores memórias poderão ficar como as últimas lembranças que deixaremos de legado nas vidas que tocamos e abruptamente nos afastamos e excluímos.

 

Se há alguma memória, por certo houve momentos que se tornaram indeléveis nas almas tocadas. Não sabemos a dimensão deste toque, mas ele foi real e com alguma significância ainda que não recíproca ao modo esperado, mas para ambos os lados por certo houve troca.

 

Que nosso toque seja suave, pois as marcas poderão ser eternas, no coração e na nossa memória. Não deixemos nenhum resto no coração e mente do outro.

 

Todos têm de verdade sobras, isto o tempo e anos vividos nos deixam de legado, mas às vezes, estamos deixando nas memórias alheias nossos restos. Infelizmente.

Texto escrito por: Fabiana Colimoide.

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