Blog Livros e resenhas- Uma linguagem de amor/Fabiana Colimoide

Elas chegaram à sala de atendimento no horário marcado. A mãe fazia acompanhamento para tratamento de diabetes melittus e era hipertensa leve. Sempre voltava para recolher as medicações e revisar a proposta do tratamento, as necessidades de melhorias, redução das medicações ou acréscimos na Unidade Básica de Saúde de Laranjeiras. Era moradora do morro do Cero Corá, no Cosme Velho.

Mas o olhar daquela estudante de enfermagem deteve-se na pequena menina de tez clara, de cinco anos com olhar como de olhinhos de jabuticabas e um sorriso tão pueril e gracioso que a cativaram. Cachinhos como de mel eram seus cabelinhos fartos.

Ela gostava de crianças. Seus estágios em pediatria e obstetrícia eram os melhores. A oportunidade de interagir com as mães e os seus filhos era-lhe enriquecedor. Primeiramente  por sonhar com a maternidade e saber bem o que era essa nobre missão e conseguinte por se tornar um pouco mais si mesma ao lidar com a fantasia e mundo vasto de cada criança que atendia. Doía-lhe no peito ter que instalar uma medicação venosa numa criança, pois sentia pelo sofrimento da criança e dos pais. O sofrimento alheio dos pequenos era incômodo a si.

Agora ali, a atenção daquela menina estava em seu estetoscópio que carregava um bonequinho agarradinho do Sansão da turma da Mônica e no outro lado tinha a Dalila namorada do mesmo coelhinho da Mônica. Amava gibis e colecionava todos da equipe do Maurício de Souza.

A viu se distrair e agachou para mais pertinho estar e brincar com ela. Chamou-a pelo seu nome. Não obteve o som de seus lábios, exceto pelo olhar expressivo como quisesse dizer-lhe algo. Ela investiu um pouco mais, brincando como do tipo que o gato tinha comido a língua da bonita menina ali. Ela nada falava e não sorria.

Ela olhou para a mãe apenas para ter a certeza de que ela era surda. Desde os seus sete meses ela despertara a atenção pela não interação ao redor audivelmente, mas seus pais, bem humildes, demoraram a detectar e quase com dezoito meses resolveram a busca por auxílio profissional.  Os pais não a levavam ao pediatra com frequência. A mãe, além da diabetes, tivera na gestação rubéola e não tomara as providências necessárias. Era sofrida aquela mulher franzina a sua frente. Era-lhe a única filha e o pai, um servente de obras, era-lhes extremamente dedicado a despeito de todas as dificuldades.

A estudante começou então a interagir com ela na linguagem de sinais, o pouco que aprendera nos escoteiros que participara e nas reuniões sociais com outros surdos. Era um mundo silente, porém com necessidade de serem compreendidos audivelmente.

Na ocasião que buscara aprender um pouco mais sobre a Linguagem de Sinais e as limitações que os surdos enfrentam, sentiu-se tão ignorante ante as necessidades alheias como agora a frente daquela pequena menina. Ela sorriu para ela e quis pegar o Sansão.

Ela deixou e entre mãos falantes e olhares gritantes, se comunicavam.  Moradora daquele bairro de classe alta via tanta discrepância entre as classes e a falta de inclusão social dos surdos era o que mais a incomodava. Sim, pois morava do lado do INES, onde era reservada nacionalmente essa escola para a educação de surdos, via aqueles jovens e crianças em seu mundo tentando serem aceitos no mundo dos que se achavam normais.

Soube por aquela mãe que não tinham sequer condições de colocá-la em alguma escola especializada e havia dificuldades nas escolas comuns, tanto de preparo dos que lecionavam, quanto dos demais estudantes. Ainda havia muitas barreiras do som a serem rompidas, inclusive fora dos muros das escolas, até mesmo por profissionais como ela.

Foi desperta dos pensamentos por um abraço carinhoso e sincero da menina à frente. Ela, não falava e nada emitia de som ali, mas deixou naquela moça, a expressão de um mundo sem barreiras que deve existir. Sorriam entre si. O sorriso é uma linguagem, assim como as mãos e os olhares. A estudante lhe ensinou ali o sinal de amor para os surdos e a menina rapidamente o fez.

Um mundo de linguagem de amor ante a falta de aceitação do outro. Ela deixou-a levar tanto o Sansão quanto a Dalila. Eram seus atrativos para os estágios de pediatria na ocasião. Deixaria um pouco mais de si para aquela menina.

Pensou melhor. Na verdade poderia deixar muito mais. Resolveu ajudar aquela família de alguma forma. Pegou os contatos com a mãe e prometeu retornar. Viu a pequena partir corredor a fora entretida em seu mundo onde as vozes não são pelos lábios, mas sim, pelo toque das mãos e expressões faciais.

Semanas se passaram e aquela jovem procurara a família em sua humilde casa. Fora bem recebida e oferecera a ajuda para que a pequena infante ingressasse na escola para aprender e onde Libras seria a segunda língua a ser ensinada. Haveria atividades e um aprendizado não no intuito de tirá-la do mundo, mas de mantê-la ainda que no seu mundo, mas como parte de um mundo maior. Mundo de homens e mulheres que às vezes são mais surdos do que os que o são por hereditariedade ou adquiridos por outros agravos. Um mundo onde é tão fácil de tornarem surdos a bel prazer, como convém. Um mundo de diferenças onde não se há o respeito pelo tempo do outro. Onde vence quem fala mais alto e quem não assim o faz, fica a margem da sociedade que a mídia seduz.

Sim, a estudante pensou. Tinha tantos privilégios paternais e porque não dividir com os que não podiam assim viver. Se pudesse fazer a diferença para um surdo neste vasto mundo gritante, faria com todo seu coração, mas faria. Eles tinham tantos direitos que eram violados conscientemente a cada dia pelos propriamente surdos induzidos, ela refletia.

Afinal, estava ingressando na nobre profissão de cuidar do outro. Adotaria uma menina surda dentro da sociedade que falava mais do que propriamente ouvia o outro.

E ela voltou para casa com a consciência tranquila que faria o melhor para aquela família. Percebeu-se que precisava ouvir mais vezes seu coração altruísta e menos o que ao redor era divulgado. Afinal, a inclusão social dos surdos é um desafio necessário ainda no país que ela vivia.

Havia tantos desafios para aqueles pais quanto a se comunicarem melhor com a própria filha e com o mundo ao redor. A própria pequena precisaria de tantos ensinamentos para não se sentir marginalizada da sociedade em que vivia. Nossa!Quantas barreiras e desafios! Ela pensou.

Foi recebida pelo seu yorkshire terrier que ganhara facilmente dos pais moradores da cobertura de onde avistava o Morro do Cerro Corá parcialmente. Discrepância social maior era entre os normais e os surdos que ela via todo dia ao ir para a faculdade e estágios frente ao INES. Suspirou profundamente e pôs-se a brincar com o cãozinho que lhe aguardava com o abanar do rabinho.

Texto escrito por: Fabiana Colimoide.

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