Blog Livros e resenhas- Limitações do coração humano/Fabiana Colimoide

Ele atravessava a grande avenida com dificuldades. Era a força nos braços da irmã que o conduzia. Braços e pernas estavam quase que atrofiados não fosse pelas sessões de reabilitação semanais. Nestes momentos, contava com o auxílio da irmã mais nova que com uma paciência exemplar cuidava dele após o acidente há dois anos.

Era uma tarde de domingo, muito quente o dia e resolveram ir à cachoeira dentro de uma reserva ambiental. Todos jovens e cheios de energia se aventuraram a saltar da parte mais elevada para a parte da cachoeira abaixo. Algumas pedras, mas eles todos se certificaram que não mergulhariam na área de perigo. Ele, fora o último a se aventurar e com maestria se lançara ao fundo. Por fatalidade ali, onde ele mergulhara com ímpeto da queda, tinha uma pedra, onde ele se chocou. Desacordado ante isso tudo, só se recorda de estar no hospital, sob o olhar crítico e preocupante do pai e dos médicos.

Tentara se levantar quando viu tantos homens de branco. Tinha horror a hospital. Fez força, mas não saiu do lugar. Sua mãe ele viu ao longe, pela porta entreaberta e copiosamente a chorar. O olhar do pai era mais sereno, porém, se o conhecia bem, ele escondia a verdade.

Ouviu todas as explicações do médico e que teria que se adaptar a sua nova fase, pois exames ao ter chegado ao pronto socorro foram realizados e evidenciaram comprometimento de toda sua coluna vertebral. Ele sequer sentia os braços, mexia a cabeça com dificuldade, mas o suficiente para olhar e ver que não sairia daquela cama tão cedo. Exames ainda estariam finalizando o prognóstico médico, mas era o confinamento que o aguardava, ele pensara.

Seus dezoito anos se diluíram em anos seguintes de tristeza e amarga falta de expectativa. Fora o amor da família que o aproximou da liberdade de viver, mesmo que sem poder andar, abraçar, jogar seu futebol de domingo ou nadar como gostava.

Apreciava a leitura e isto era o que lhe ocupava a maior parte do tempo. Aprendeu a usar seus lábios para firmemente segurar algum objeto e assim virar as páginas do livro que sua irmã ajustava todos os dias a sua frente. Ela era professora de artes para o ensino médio. Foi através dela que ele se viu motivado a apreciar as expressões artísticas como de Tarsila do Amaral, Portinari, Van Gogh, Salvador Dalí e tantos outros. Sua leitura predileta eram as obras de José de Alencar. Apreciava ler Senhora, Lucíola e Iracema que eram os favoritos.

Seus dias eram não mais sombrios quando aceitara o desafio de pintar telas com um pincel na boca. Os primeiros desenhos foram desastrosos para os exigentes da arte em si, mas para ele, todo rabisco era aprovado por sua irmã. Motivava-se mais ainda ante os incentivos de superação.

Mas sua realidade era triste ao sair de sua casa. Esta fora adaptada pela família para a convivência dele ali, com muitas dificuldades, mas com infindo amor em cada ato de adaptação dos familiares.

Da porta da rua em diante eram suas barreiras. A começar que onde residia, não tinha rampa de acesso para sua cadeira de rodas passar facilmente. O parapeito da rua era rompido a cada saída, com solavancos e atropelos com possíveis quedas.

Nunca conseguia embarcar de imediato nos ônibus que ali circulavam, pois os com adaptação para cadeirantes eram escassos. Nunca era recebido com sorriso pelo trocador e motorista que tinham sempre que auxiliar para ajuste na plataforma de acesso. Havia enfrentado preconceito nas repartições públicas, pois mesmo tendo prioridade, era-lhe furtivamente negado esse direito pelos mais apressados. Ele se sentia invisível ante tantos transeuntes.

Isto misturava em si com raiva e indignação por não se sentir aceito dentro de uma sociedade que deveria respeitar ao menos os direitos adquiridos. Tantos se faziam de cegos e surdos, porém, estavam eram cegos da arrogância e surdos para a compaixão que deveriam praticar ao próximo.

O salão aonde ia com a família para estudos religiosos, não tinha rampa de acesso e a força dos braços do pai cansado e de voluntários era a ele um incômodo.

Sentia-se um fardo a todos, não queria isso para si e por inúmeras vezes questionava a Deus o porquê de tudo aquilo. Não que sua fé fosse ínfima, mas era humano e agora em condição de deficiente. Inclusão social? Ele sentia na prática que não era real.

Aos poucos ele tentava obter forças para prosseguir. Sua irmã nunca desistira dele, embora mais nova, o incentivava e escrevera seus quadros ainda que não tão bonitos aos olhos críticos, em exposições locais.

Sua primeira exposição foi numa feira literária intercolegial de onde residia. Na época, não tivera muito êxito, exceto por um de seus quadros que estava pintado com cores fortes. Era uma porta em formato de um coração, porém, sem maçaneta.

Isto fora o que chamara a atenção das professoras. Ele dizia que era o coração humano.

Onde tem uma porta a entrar, porém quem abre é o dono do mesmo. Mas as pessoas precisam bater, ele explicava.

Houve outras mais exposições a partir dali e ele ia se especializando. Mas esse quadro era-lhe o melhor na opinião dos observadores

Ele queria de verdade retratar quão difícil é que as pessoas entrem nos corações humanos. Como é complicado que o amor alheio entre. O amor abnegado, o amor fraternal de prestar solidariedade aos que tem suas limitações, como ele. Suas limitações eram físicas, mas existiam tantos ao redor com limitações emocionais que nunca abriam a porta além da fresta de uma porta velha, com madeira puída pelos cupins das traições, decepções e amores não correspondidos. Muitos criavam muros ao redor da porta.

Ele queria tanto ter esse amor de alguém que o aceitasse ainda que cadeirante, limitado. Lembrou-se que há tantos que são livres com pernas e braços fortes, mas se aprisionam e não aceitam o amor ofertado. E quanto ele queria receber e limitado era fisicamente para dar.

Foi desperto das reflexões existenciais pela irmã acompanhada de uma jovem morena, com cabelos lisos, longos e olhar oriental. Sorria-lhe. Era uma professora e amante das artes também. Conversaram sobre diversas coisas em comum e ela se propôs a conduzi-lo para mais perto de onde o sol raiava e seus raios incidiriam sobre os mesmos.

Os raios do sol aqueciam ambos os jovens que trocavam grandes planejamentos para futuro de exposições, visitas a locais públicos para apreciarem juntos o que a arte revela. Ele em um lampejo lembrou-se das limitações geográficas, sociais e relacionais que enfrentava todos os dias quando saia de casa, mas em face de uma bela companhia, abriria mão dos medos e temores do que o mundo oferece aos com alguma deficiência.

Na verdade, ele abriu a porta do coração para o princípio do que não sentia há tempos, entrar e quem sabe fazer a devida morada. Não teria medo como muitos assim o fazem, não mesmo. E ele sorriu para ela que lhe retribuiu, revelando os lábios mais bonitos que ele queria tocar. Estava vivo, pensou!Abria assim não somente o coração, mas a mente para entender que a vida é dos que lutam e que se fortalecem nas suas fraquezas, físicas, mas, sobretudo, emocionais. Sim… Ele ousaria amar com todas as suas limitações. Com todo o coração que cabia dentro de si e suas limitações humanas, assim como tantas outras dos homens e mulheres que cruzavam seu caminho o tornando muita das vezes invisível e sem direito algum dentro da sociedade. O direito de amar lhe era adquirido e este, ninguém poderia desrespeitar.

Texto escrito por: Fabiana Colimoide

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