Blog Livros e resenhas- Danado! / Fabiana Colimoide

Ama gatos. Sua paixão pelos bichanos a fizeram agregar um casal mestiço da cria da gata furtiva da vizinha que adorava ficar no seu pequeno lar. Seus gatos não aceitavam nenhum outro gato ali, ainda que apenas de passagem e a presença de um belo gato preto à porta numa tarde sabática deu-lhe preocupações.

Não sabia maltratar nenhum animal e preocupada com a fome daquele gracioso gato, deu-lhe uma vasilha com água e ração dos seus que olhavam enciumados da janela. O que estava tendo um tratamento privilegiado ali ronronava a cada petiscada afoita na vasilha e dava cabeçadinhas brutas, porém gratificantes, naquela que agora lhe afagava os pêlos. Estava magro e por certo não tinha lar fixo.

Os dias passaram e ele passou a ser morador frente à porta da estudante de saúde. Era no parapeito da janela que ele dormia e desperto sempre estava as quatro da madrugada, quando a sua “protetora”, saía para a labuta, garantindo-lhe antes a água fresca e a ração do dia. Aguardava-lhe ansiosamente à noite para receber o afago e a reposição da sua alimentação.

Interessante que num sábado pela manhã, a seguiu até um centro de reuniões que ela frequentava. Gato danado! , ela dizia, pois quem segue humanos são os cães! Na verdade, ele parecia um ao acompanhá-la até seu destino. Ela, inocentemente preocupada dele ser atropelado ou atacado por um cão, voltava para que ele retornasse a sua moradia. Doce ilusão! Gatos acaso não teriam sete vidas, como misticamente se pensam? Ele saberia se cuidar muito mais do que tantos outros instintivamente.

No domingo seguinte, ela levara algumas roupas a casa da amiga vizinha no outro quarteirão da rua para secarem ao sol. Surpreendida novamente pelo gato a seguir até o portão da grande casa. Só não avançara os limites da garagem, por ter a lhe esperar dois grandes cachorros que sentindo o cheiro daquele bichano, puseram-se a latir o afastando.

Porém, ele a esperou para o retorno da casa e a seguiu novamente. Que danado! Ela novamente dizia. Assim, muitos dias sucederam e aos poucos, ele ganhou peso, brilho na pelagem e demonstrava uma fidelidade àquela mulher que causava ciúmes e surpresa ao redor. Gatos são vistos tão misticamente que se formos lembrar no Egito, era venerado e proibido seu comércio. Para alguns céticos ou crentes, são associados a azar, como no caso, do gato preto. Ou sorte, ela preferia crer.

Ela queria deixá-lo dentro de sua casa simples, com muitos livros, dois gatos e muito amor. Mas, no reino animal, antiguidade é posto e não se pode violar esse princípio, ainda mais entre os próprios gatos. Ele,  parecia não se importar em ficar à porta, pois o importante era ficar e ter o amor humano.

Foi numa sexta feira chuvosa que sentiu a ausência dele. Ele nunca se ausentava quando ela estava em casa e isto a preocupou. Foi surpreendida pelo miado já tarde da noite. Um miado de socorro. Na verdade, de dor. Pupilas dilatadas, pelagem totalmente molhada da chuva e uma ferida enorme próxima a cauda, agora minguada e intocável. Numa briga com um grande cão, perdera a batalha e os caninos do adversário lhe alcançaram na fuga. Menos uma vida se perderia a partir dali se não fosse resgatada.

Coração apertado, ela sentiu e na sofreguidão por socorrê-lo, tentou tocá-lo para acolhê-lo dentro de casa. Ele não permitira e assim, sem medir esforços, acionou o veterinário de seus bichanos, pois gastaria o que fosse necessário para vê-lo bem. Aplicou remédio spray indicado na ferida, pois de longe assim poderia fazê-lo, mas não mais que isso, pois ele se recolhera logo após furtivamente pela noite fria, escura e chuvosa. O recolhimento típico dos gatos de fuga depressiva. Eles se isolam ante a iminência da perda ou morte.

Nunca mais aparecera ali para tristeza daquela jovem. Ela sentira tanto sua ausência!Ele lhe trouxera sorte ao invés de azar, embora fosse um gato preto. Graciosamente alegria ao brincar em seu colo por inúmeras vezes e malandramente a surpreendia a cada vez que a seguia pelas ruas a fora.

Saudosa, sentada em meio aos artigos a serem lidos, com seus bichanos dormindo no colchão ali, sussurrou: Gato danado!

Buscou curiosa a significância de “danado” e para sua surpresa, viu que aqui, no Brasil é muito usada essa expressão e traduz como amaldiçoado, condenado ao inferno e suas penas locais. Seria ainda arruinado, danificado, estragado e corrompido. E outras interpretações, podem ser atreladas a raivoso, esperto, mas em todos estes, não lhe soava bem aos ouvidos tais definições para como considerava na expressão tantas vezes pronunciada àquele gracioso gato.

Sim, pensava ela em quantas vezes nossas palavras saem de nossos lábios sem noção da sua verdadeira significância! E o pior: quantas vezes nos amaldiçoamos com as mesmas palavras!

Assim como imaginamos em nossa mente, o seremos e há poder em nosso falar! E quantas vezes não expressamos como sendo-nos danados ou com nossas palavras ditas, serem danadinhas!

Ela desligou o abajur e deitou ali para uma soneca. Mas não sem antes se recordar que há poder em nossas palavras sempre, para o bem ou para o mal. Se não for para edificar, que nosso silêncio seja dito e nossa palavra silente fique.

Não atribuiria na sua lembrança àquele gatuno o termo “danado”, pois de maldições atreladas aos gatos pretos, o mundo já carrega de modo bem amplo. Saudosamente adormeceu em meio aos seus gatos.

Escrito por: Fabiana Colimoide.

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