Blog Livros e Resenhas – Uma carta ao mar/Fabi Colimoide

O sol estava deixando mais um dia em Ilha Bela para a noite chegar com as estrelas e a inebriante lua nova. O mar ia e vinha suavemente com as pequenas ondinhas. A pequenina menina brincava sentadinha na areia sob os olhos da “tia de mentirinha do fim de semana”.
Ela tinha seus anos bem vividos e apreciados entre amigos, crianças e seus animais de estimação. Como veterinária, tinha a realização no encanto do cuidado dos animais. Não era casada, tampouco tinha filhos e sua segunda realização estava em ser a “tia de mentirinha” dos pequenos filhos de seus amigos. Tinha muita paciência e seu lado lúdico era aflorado como naquele momento a contemplar a pequena de cachinhos de mel a brincar na areia.
Tinha buscado a oportunidade do fim de semana no litoral paulista para arejar a cabeça, colocando as ideias em ordem e recomeçar a vida. O recomeço era a sua maior necessidade ante as decepções que a vida lhe mostrara. Confiar e amar são verbos que são difíceis de conjugar, ela pensava.
A dor da ausência daquele que amara, confiara seu coração e a decepcionara diante do caráter dele como homem que se julgava ser aos quatro ventos do mundo, agora estavam sendo dissolvidas rapidamente e ela decidida estava de apagá-lo definitivamente de sua vida. Sofrer era naturalmente necessário até para seu amadurecimento, mas a dor só seria contínua se ela permitisse. Tinham tantos que acreditavam que sacrificar-se era um ato de amor, mas maior amor sacrifical era o amor próprio, sem a anulação de si mesma ao mundo, ela tinha essa certeza.
A pequena cessara das brincadeiras e agora estava no seu lado, deitada sobre a saída de praia que ela estendera sobre a areia. Seus brinquedos estavam como sua companhia e ela parecia cansada e sonolenta de tanto brincar naquela tarde. Enquanto isso, a jovem mulher, viu a lua despontar ao céu com a brisa suave e o cheiro de maresia a lhe inebriar e inspirar.
Sempre carregava um caderno de anotações e livro para leitura. Amava a leitura e se encontrava em muitas histórias que lia. Mas nos mesmos livros que devorava semanalmente, também lera que a melhor coisa para aliviar o que está aprisionado no coração e precisa ser benéfico ao invés de maléfico era exteriorizar, seja nas palavras ditas ou escritas.
Ela não escreveria para compartilhar com nenhum ser humano, pois sabia do peso das suas palavras quando magoada. Tinha um temperamento forte, num misto de sanguínea com fleumática. Mas em poucas linhas deixaria em uma única folha tudo aquilo que no coração carregava e que decidira remover definitivamente.
As cartas no passado tinham muito mais valor do que agora, onde as relações são líquidas e descartáveis. Tinha uma mágoa no íntimo. Havia sido magoada por um homem sem coragem, mentiroso e sem caráter. Mas isso ela sabia ser algo que não lhe faria bem. Não precisava sofrer por alguém que não estava preocupado com ela. Ele demonstrara-se egoísta. Ela não poderia permitir mais seu coração acalentar sentimentos que diferiam de sua essência. Não seria um homem como ele que a faria ser diferente da mulher cheia de vida e que exalava amor a si e as pessoas que a cercavam.
Ele faria parte de seu passado. Do pretérito imperfeito. Seu futuro seria conjugado com um outro amor. Um homem não presente em conto de fadas, mas no mundo real. Um homem que honrasse as palavras e estivesse a amar na intensidade que a verdade exige. Findara suas palavras e concluindo, fez o que sua imaginação adolescente sempre imaginava ser possível fazer. Numa garrafa vazia colocara como em pergaminho a carta e deixaria que o mar levasse para bem longe todo sentimento expresso.
Seus pés sentiram a água gelada e salgada do mar na noite. Seus cabelos sofriam o balanço que o vento causava. Seus olhos contemplavam a garrafa ser levada a cada movimento de ir e vir das ondas. Ela voltou sua atenção para a pequena que estava adormecida distantemente e indefesa. Voltou num misto maternal para recolhê-la do sereno noturno.
Cuidara dela com tamanho carinho, como a uma filha que ainda sonhara ter. Tinha anseios tão reais de constituição de uma família que não desistiria de amar a despeito dos dissabores que sentira. Decidida a recomeçar, esquecer o que não valeria a pena. A vida, ela pensava, enquanto acolhia a pequena na cama após o banho e lanche, era como o mar. Com ondas que vem e vão, com água salgada, porém, revigorante. Com onda fugaz e intrépida com aparência de destruição, mas também de bonança.
Sim – ela apagava a luz do abajur do quarto da infante adormecida – tem vezes que o que se perde é na verdade lucro diante do que melhor tem no porvir. Tem situações, que são livramentos de dores. E essas dores, ela escolhera deixar o mar levar naquela tardinha, tendo o céu e toda a beleza ao redor natural como testemunhas.
As mulheres suportam até o último momento muitas coisas, mas quando desistem, o recomeço é a meta e alvo a ser alcançado a partir de então, a despeito de lágrimas, pois o choro dura uma noite, mas a alegria acompanha o amanhecer. Seu coração seria partilhado com quem a merecesse de verdade. Com toda a verdade que o amor necessita vivenciar. De mentiras, o mundo está abarrotado, por fim concluiu. Foi para sala mergulhar em mais um novo livro. Assim como nos livros, as páginas seriam viradas.

Texto escrito por: Fabi Colimoide.

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