Blog Livros e resenhas- Amor entorpecente/Fabiana Colimoide

Segunda feira, final de um dia cansativo para ela que tinha as três crianças sob seus cuidados. A maternidade enobrece e cansa também, ela pensava. No cercadinho na sala o de oito meses e no quarto perdidos em brinquedos o menino de seis e a menina de quatro. Uma travessura do menino fez com que ela tivesse que mexer no sofá da sala para pegar a conta de telefone caída atrás do mesmo. Geralmente ela nem mexia ali, pois seu marido sempre se oferecia para arrastar e limpar tais locais. Não acreditou no encontrado no fundo do sofá. Conhecia bem aquilo, só não queria crer.

Mexeu mais ainda e descobriu o fundo aberto ali onde não havia apenas uma trouxinha com pó branco, mas sim várias. Também achou sacos escuros com erva e material de preparo. Sim, agora não restavam dúvidas. Ele voltara ao uso. Do que o entorpecia desde os seus dezesseis anos. Aquilo que prometera não mais usar desde que resolveram morar juntos e se tornaram pais. Descobriram-se pais. Novos pais. Ela, pedagoga, vinte e cinco anos. Ele, vinte e nove anos, sem emprego fixo, vivia de alguns bicos como o atual em um escritório de advocacia de um amigo do pai. Nada faltava a eles, mas o suor das despesas era real em muitos momentos. Moravam num condomínio de requinte  com auxílio dos sogros e com tudo acessível nas margens da Baía de Guanabara.  Não queria crer que aquilo estava dentro do seu lar.

Voltou ao passado em frações de segundos ao recordar que se conheceram e descobriram-se. Juras de amor e verdades reveladas os acompanharam. O vicio do amado não era conhecido dos seus pais. Estabilizados e elitizados na sociedade fluminense sempre deram tudo que o único filho pedisse. Ele descobriu nela o amor inocente e despretensioso e a segurança de ser aceito. Era seu porto seguro. Ela o amou tanto a ponto de não condená-lo por seus vícios e crer que ele pararia de usar por pensar em seus filhos que agora alegravam os dias e traziam esperança.

Sua visão ficou turva. Achou que lhe faltava glicose nas suas veias. Perdera energia e sentia secura na boca. Uma dor no estômago. Não de fome, mas a sensação de nem ter almoçado horas atrás a lasanha quatro queijos. Coração sentindo-se traído. Perdeu-se no tempo que ficou sentada ali como em transe no seu passado, no seu presente e temerosa do futuro. Temerosa por amor aos seus três filhos a despeito do amor.

Nunca usara nenhuma vez qualquer tipo de entorpecente. Sentia as sequelas disso na perda do irmão mais novo quando ainda morava na grande Rocinha, vítima do uso e tráfico livremente. Fora resgatada daquele lugar ao conhecê-lo e sentir o amor puro, da espera e expectativa de mudanças na sua vida. Como um conto de fadas do amor, pensara. Não queria perder seu amor. Ainda que entorpecente fosse esse sentimento. Mas sabia das sequelas no organismo tanto do amor, quanto dos entorpecentes que agora estavam em suas mãos. Inclusive sequelas nos filhos gerados, possivelmente.

Ele chegara, com uma garrafa de vinho e uma rosa. Queria uma noite inesquecível que há tempos não tinham. Contemplou com rapidez todo o ambiente. Filho caçula dormindo no cercadinho, amada no chão com olhar naquilo que ele escondera por longos meses. Duas crianças não presentes ali, por sorte, talvez.

Os olhares se encontraram. Os dela marejados. Os dele inertes a cena– “O que é isso?” – ela perguntou estupidamente por já saber o que é.

Ele se agachou ao seu lado e sussurrou: “-Eu posso explicar…”

“Explique então…” – e ela permitiu as lágrimas rolarem a face. –“ Você prometeu pelos nossos filhos…”

Ele quis abraçá-la e ela, movida pelo amor, permitiu senti-lo como se quisesse estar num pesadelo e pronta a despertar para a realidade das promessas passadas cumpridas e não quebradas.

“-Desculpe…”- ele quase afônico falou.

“Você prometeu”! Pelos nossos filhos, pelo futuro deles! – ela explodiu, sem se preocupar no sono do seu caçula ali – “Há quanto tempo? Quem está com você nisso, meu amor? Perdi meu irmão nisso!”– ela o pressionou num misto de raiva.

“Oito meses mais ou menos… mas nunca usei aqui. Vou dar meu jeito” – ele mentira assim a ela. Na verdade nunca deixara de usar e seu consumo mesmo não dentro de casa, furtivamente tinha seus locais longe dos olhos da que o amava e lhe acreditava nas palavras. Não lhe revelaria jamais para quem guardava e para quem vendia e que não eram poucos, certamente. Desconversou e se ergueu do chão a conduzindo.  Ela permitira-se conduzir. Sua cabeça girava tão rapidamente que parecia ter se entorpecido sem sequer um entorpecente ali a disposição, gratuitamente, inclusive.

“-Um traficante…” – não pode continuar o desabafo. Seus pequenos agora estavam ali, olhando com um brilho tão pueril que poupá-los, instintivamente como mãe ela agiu. Foi para a sacada, conduzindo as crianças pelas mãos, sentiu faltar-lhe o ar.

Ele ajustou o ambiente, colocou a garrafa de vinho e a flor outrora no chão, agora na estante. Talvez nem usasse naquela noite nada do planejado.

É um caminho sem volta. Ele pensou rapidamente. Tinha um mini depósito dentro de sua casa e nem dera conta dos riscos que o envolviam e tampouco seus filhos e a mulher que lhe acreditava nas palavras. As juras de amor não foram eternas.

Naquela noite não se dormiu naquela casa. Ela resolveu ir para casa de sua mãe do outro lado da Baía de Guanabara. Precisava pensar e impulsivamente agira assim por estimar os filhos que tanto dizia serem suas prioridades. Ele, acordado ficara absorto nas consequências de suas decisões e escolhas. Viu-se em dependência e refletia no que lhe era mais importante. Sentiu a perda escoar como pelo ralo de uma pia. Valeria a pena perder sua família? Seu porto seguro?

Ligou para seu amigo de negociações. Disse não mais ter condições de ficar com aquilo ali e que precisava se desfazer. Ouviu secamente: “Parceiro, é simples, meu caro, paga e fica tudo certo”.

Lembrou-se que o que devia somavam muito mais do que meses de trabalhos extras, até porque consumia também. Se existia caminho da forca, ele se sentia a passos rápidos para a mesma, pois não via solução.

Olhou a foto da família, lembrou-se que o amor o havia tirado da bolha de facilidades que sempre tivera como unigênito em uma classe social elitizada. Nunca precisou trabalhar e tampouco estudar como muitos. Facilidades e futilidades o absorviam e ele para fugir de sua tristeza e senso  de vazio existencial, se refugiara nas drogas ainda adolescente. Seu olhar fugiu para o vinho. Caro vinho. No intuito de esquecer a noite mais longa sentida, pôs-se a sorver em goles longos o líquido escuro.

Preparou a trilha na mesa de centro do pó branco, aliás, as trilhas que foram duplicadas mais de uma vez.

Sentiu se eufórico e inquieto. Cabeça doía e intensificava a dor com o passar do tempo. Olhou a lua lá fora tomada pelas densas nuvens preanunciando a chuva. Resolveu preparar a erva no vaporizador. Iniciara ali um processo de fuga das perdas que latejavam em seu peito. Tempos depois, misto de tantas sensações, como fome, sonolência e o coração acelerando. O que outrora sentia em parcelas por usos pontuais e nunca tão associados, agora lhe avivavam. Um misto de que esquecer o passado era o sensato. Se concentrar naquele momento era o necessário. Ter futuro era uma incerteza que ele na verdade queria. Já alucinadamente pensava não estar sozinho ali. Se via rindo sarcasticamente. Precisava esquecer e esquecer. Fazia tempo que não usava um dos comprimidinhos da adolescência. Isto também já estava pago, ele pensou. O vinho serviu de impulso para a deglutição de duas unidades basicamente. O que estava a fazer? Ele sequer pensara. Pensar para quê? Afinal, por ter pensado demais na vida, acabara agora sem a sua mulher e seus filhos. Queria que a noite logo findasse. E voltou-se a roda viva do consumo à mesa, do inalante a frente. O vinho acabara por fim. Fechou os olhos por alguns segundos deitando-se no mesmo sofá que era-lhe um depósito de vícios. Seu coração parecia querer sair pela boca correndo para onde estava sua família. Sim, o coração corria a galopes aceleradíssimo como a cavalos a querer vencer num jóquei clube.

A terça-feira, amanhecera chuvosa e sombria. Naquela sala, jazia um corpo inerte, sem fôlego de vida. Entorpecido não pelo amor familiar, mas por consequências de suas escolhas. Seu coração não resistiu ao amor entorpecente, mas entorpeceu-se a ponto de não deixar o mesmo amor permanecer. A overdose fora não de amor.

Em outra casa, num raio de quarenta quilômetros distantes, adormecida uma, agora viúva, mãe de três filhos que inocentemente tinham o sono como anjos.  Não se arrependera inicialmente de ter ido dormir na casa de sua mãe naquela noite, pois pensara que a despeito dos perigos que estão à disposição para todos, inclusive seus filhos, como mãe, por amor, queria protegê-los conscientemente.

Ela fora desperta pela mãe que lhe dizia a necessidade de ser forte. Perdera sua força do amor. E agora, ela precisaria de forças para proteger seus filhos das escolhas que comprometem o intelecto, a moral e valores tão relevantes que estiveram ameaçados dentro do próprio lar. Arrependeu-se de ter deixado seu amor sozinho. Chorava copiosamente e silentemente abraçada a mãe poupando o sono dos seus infantes no leito. A ausência do pai não seria somente para eles, mas para ela. Sim, seu amor entorpecente.

Texto escrito por: Fabiana Colimoide.

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