Blog Livros e Resenhas- Amante/Fabiana Colimoide

Ela acabara de organizar o salão de eventos para o recebimento dos desembargadores num coquetel comemorativo, quando já caminhava para o saguão do hotel para ir embora. Não iria ficar no evento, embora convidada, estava muito cansada.

Foi surpreendida com um homem que cruzou seu caminho, despertou-lhe admiração pela sua alta estatura, porte elegante, ainda que de costas. O observou caminhando em direção ao salão. Devia ser um dos desembargadores convidados.

Já saía no hotel quando ouviu alguém chamá-la. Era a esposa do juiz do fórum local. Ela teria que ficar naquela noite ao menos um pouco devido insistência daquela senhora de cabelos elegantemente arrumados e grisalhos.

Tudo muito caprichado, afinal ela como promotora de eventos era muito realizada com uma agenda muito extensa e reconhecimento de todos que a contratavam. Sua vida eram eventos e mais eventos.

Experimentou alguns canapés e um suco puro de uva que apreciava bastante. Cruzou seu olhar e viu o mesmo homem que observara no saguão. Dessa vez de frente. Os olhares se cruzaram e ela o reconheceu. Era um antigo amigo de sua adolescência.

Ele se aproximou e conversaram coisas do tipo, “você está diferente, mais bonita”, “você está como desembargador, que vitória ante seus esforços”. Conversaram um pouco mais sobre as amenidades da vida. Ele, agora casado e pai de um casal de filhos adolescentes. Ela, já com seus dois filhos casados e independentes. Separada.

Trocaram contatos e prosseguiram na festa entretidos em si e junto aos demais.

Naquela noite, para ambos as memórias do passado reacenderam. Na sua cama, ela pensara nele há vinte anos atrás, quando era uma adolescente, garçonete, filha mais nova de dois irmãos e com uma mãe ditatorial e controladora. Ele era um dos filhos do dono do estabelecimento. Sempre estavam juntos após o expediente e se enamoraram. Mas sua mãe não permitira na época qualquer união. Eles ansiavam por um namoro formalizado, ao ponto dele ir à casa dela num sábado de verão e pedi-la em namoro. Sua mãe na ocasião, o proibiu de atravessar o portão e vê-la. Ela, chorava no quarto por saber que a mãe não queria que ela o namorasse.

Seu casamento posterior foi com um homem que julgava amar e amou intensamente, porém, a separação após dez anos de casados, a acalentou no coração marcas as quais não se dissociou a ponto de permitir-se amar novamente.

Custou a dormir, pois lembranças de um amor não vivido eram-lhe na mente inquieta de madrugada.

Ele, deitado ao lado da esposa, lembrava a graciosidade da moça de interior que trabalhava no estabelecimento de seu pai. Ele, malandramente fazia de tudo para estar sempre com ela. Tinha os inúmeros pretextos. Gostava de segurar-lhe a mão e roubara-lhe um beijo numa tardinha quando estavam a sós na cozinha. Beijos roubados são os mais inesquecíveis. Foi desperto das suas furtivas memórias pela esposa se mexendo e o abraçando. Fechou os olhos e adormeceu.

“Gostaria de lhe ver novamente, tenho algo a lhe entregar” – era a mensagem que ela lia logo pela manhã no celular no dia seguinte. O local seria numa galeria de café em Copacabana. Ambos amavam um bom café e ali se encontraram. Ela, um tanto apreensiva pelo encontro, afinal era ele casado, mas ela não. E de verdade, revê-lo, mexeu com uma paixão adormecida dentro de si.

Sentiu a mão dele sobre seu ombro ao chegar por detrás e um beijo na face ele roubou-lhe. Na verdade, ele a tocara e queria tocar mais ainda, mas ela percebendo o perigo que lhe rondava, se esquivava sutilmente.

O induziu a ir direto ao assunto sob a alegação de ter um compromisso e já estar atrasada.

Ele a olhava nos olhos fixamente e abertamente dizia que nunca perdoara sua mãe por não ter permitido que ambos se enamorassem. A única lembrança dela era o beijo roubado que agora ele dizia estar tão vívido em si a ponto de tornar real naquele momento.

Ela, com coração acelerado, queria ficar ali e ouvi-lo e se inebriava com um possível beijo, mas sua razão a fez se levantar e querer sair dali correndo.

Ele a deteve. Queria aquele momento, mas ela disse-lhe não como num sussurro. Sua cabeça girava e seu coração a galopes estava. Ele entregou-lhe uma carta. Amarela pelo tempo, ainda lacrada, com carimbo de devolvida. A data era dos vinte anos atrás quando adolescentes ainda.

Ele se despediu deixando a ali. Ambos com vontade latente, movidos pela paixão contida de adolescentes. Ambos como inconsequentes.

Ela o viu atravessar a galeria e sumir em meio aos demais pedestres. Sua pele estava agora fria, um misto de alívio por não ter cedido ao encanto daquele homem que mexera com seu passado. Sim, ela estava balançada pelo encontro depois de décadas.

Ali mesmo abriu a carta. Nela encontrou a declaração de amor mais emocionante que poderia ler. Ele usara um poema e as palavras que tanto dizia quando sozinhos: eu te amo. Possivelmente sua mãe fizera o carteiro devolver a carta a ela endereçada.

Uma lágrima rolou-lhe a face. Pensou num misto de raiva na atitude da mãe. Esta a impedira de namorar aquele rapaz. Alegara que a filha merecia alguém melhor e não um rapaz como ele, filho de comerciante e ainda sem emprego. Se sua mãe soubesse que hoje ele era um dos homens mais importantes do fórum do Rio de Janeiro, mudaria de opinião rapidamente.

Caminhou para casa, confusa, ainda sentindo o toque dele no ombro, o beijo quase nos lábios que ainda pareciam quentes a si.

Dias se passaram e ele a ligou. Era tarde, uma sexta-feira, estava quente a noite.

Ele queria vê-la, ela queria também. Chegou a ouvi-lo dizer que passaria no apartamento dela, era somente dar-lhe o endereço.

Inebriada, confusa, começou a narrar o endereço, mas não terminou.

Veio a memória que seu sonho de casamento era para a vida toda, mesmo embora não tivesse ocorrido isso com ela. Lembrou-se dos filhos dela, dos dele, imaginou a esposa dele. Não queria isso para ela, tampouco poderia fazer isso com aquela mulher.

Não poderia ser pedra de tropeço, não mesmo.

O interrompeu e disse que não era mais para ele a ligar.

Ele insistia, alegava que desde que se reencontraram no evento, não parava de pensar nela, nos beijos não dados, nas carícias não trocadas, nas juras de amor que ele teve que armazenar no íntimo por conta da negativa da mãe dela.

Ela por fim, sussurrou buscando forças fora de si: “não podemos”.

Desligou o telefone. Apagou o número da memória deste e chorou como a adolescente contida em si.

Não podiam. Sabia que não. Tinha uma família em risco e ela não poderia agir assim.

O telefone tocou outras vezes naquela noite. Ela o atendeu novamente, mas desta vez, para lhe dizer mais enfaticamente que o bloquearia de vez e que sua mesma mãe que os impediram de namorarem quando adolescentes, deixara-lhe o ensinamento que família é instituição sagrada. Que casamento é para a vida toda e que não seria através dela que o dele se findaria.

Não seria a outra. Não seria a amante. Até porque, amante, no sentido da palavra, é alguém apaixonado, namorado ou que ama. E neste caso, ele já tinha uma mulher que o amava e o esperava inocentemente no seu lar.

Ergueu-se do sofá onde estava, lavou o rosto e pôs-se a pensar no próximo evento que organizaria. A vida traria o que deveria ser-lhe por direito e não roubo, ela pensou.

Texto escrito por: Fabiana Colimoide.

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