Blog Livros e resenhas- Pseudo alegria infantil / Fabi Colimoide

Radical de origem grega que encontramos na língua portuguesa, pseudo pode ser aplicado em muitas situações. Em todas, porém, ele traduz a ideia de falso, que finge ser ou tenta se passar por o que não é verdadeiro. Na verdade, ironicamente é uma mentira, fraude ou engano.

Ouvi a expressão pseudo alegria em conversa com um pai de um belo bebê de alguns meses. Falávamos sobre a pseudo alegria que envolve nossos infantes neste mundo de tantas praticidades e busca por ocupação dos pequenos para que os adultos tenham liberdade de continuar nos seus afazeres sem interrupções.

A alegria é definida como um prazer de viver, contentamento, satisfação, júbilo e que advém a um acontecimento feliz podemos assim resumir. Isto lembra-nos de nossa infância, onde corríamos descalços, ao vento, brincando de pique esconde ou pique cola. Ainda quando brincávamos de adedonha, pular elástico, quando empinávamos ao céu uma pipa ou jogávamos bola de gude com amiguinhos ou com nossos pais. Eram momentos de alegria que diferem dos entretenimentos infantis de hoje.

E o que seria então pseudo alegria infantil? Seria uma alegria vivenciada nos pequenos corações com um cunho de falsa ou fraudulenta. Nada solidificado e sim, efêmero. Parece que trará contentamento, mas se este acontecer será momentâneo, por certo.

Como assim?

Bem, não precisamos ir muito distante para entender melhor essa triste realidade que hoje acomete nossos filhos, sobrinhas e enteados. Trata-se de uma alegria momentânea e sem durabilidade da real alegria que eles precisam. Sim, são alegrias momentâneas e infelizmente falsas. Ficariam na memória como da nossa infância que hoje podemos trazer a lembrança facilmente e sentir saudade?

Assim, não efetivam a bela alegria que podemos proporcionar a essa fase. Uma fase de aprendizado, de amadurecimento das relações entre si e entre, sobretudo os pais e filhos.  São geralmente coisas ou momentos que não traduzem a real e verdadeira, além de permanente satisfação que perdurará e solidificará os relacionamentos.

Nossa!Relacionamentos! Como estamos escassos desses saudáveis entre as crianças e entre os adultos. Aos últimos, que um dia foram como crianças, adultos presentes os acompanharam os passos e incentivaram as práticas e valores que os tornariam homens e mulheres de bem ante um mundo que há maldade e quebra de princípios e valores. O que fica e permanece é o que é enraizado, intensificado na mente e coração dos nossos pequenos. E isto requer tempo.

A midiática sociedade associada ao tempo que escoa pelo ralo como a velocidade do vento aos pais frente ao trabalho e responsabilidades, os induzem, sutilmente a agraciar os filhos com alguma pseudo alegria.

O frenesi por eletrônicos nas mãos de nossos pequenos cala-os ante as preocupações dos adultos e assim, os entretém, mas são acompanhados pelas influências que perduram na mente.

Nosso cérebro é dividido em quatro lobos e cada um com sua função. Especificamente no lobo frontal, na região da testa, é onde há a responsabilidade pelas decisões e escolhas. É a sede da razão e do intelecto. É onde acontece o planejamento das ações e dos movimentos, bem como os pensamentos abstratos. É ali que temos o córtex motor e o pré frontal. Suas funções incluem o pensamento abstrato e criativo, a fluência do pensamento e da linguagem, respostas afetivas e capacidade para ligações emocionais, julgamento social, vontade e determinação para ação e atenção seletiva. Lesões nesta região fazem com que o indivíduo fique preso obstinadamente a estratégias que não funcionam ou que não consigam desenvolver uma seqüência de ações correta.

As atividades motoras e os movimentos de precisão são desenvolvidos ali com base no que o cérebro é estimulado a pensar abstrativamente, ou seja, quando se desenvolve o senso de pensar, com criatividade e sendo edificante o que for ali armazenado, através do nossos sentidos. Na fase de desenvolvimento intelectual, portanto, seria muito importante que houvesse estímulos para que a criança desenvolvesse o senso crítico e pensante ante o mundo ao redor. Quando se recebe de modo engessado algo em si para manusear, contemplar e desenvolver, se é que isso é possível, ela deixa de estimular o córtex cerebral e assim a amplitude intelectual que poderia ser expandida, não acontecerá naquele tempo.  Pode até acontecer de outra forma, mas hoje, o que vemos é a injeção como em massa de ideias, conceitos e normas externas que assolam a mente de nossos pequenos, sejam através dos veículos de comunicação, sejam através de outros estímulos.

Mas o maior estímulo é o que advém dos mais chegados, os genitores. Aqueles que solidificarão os gostos, as vontades, os apreços e valores associados às virtudes que as crianças carregarão por toda a sua vida e, sobretudo, compartilharão. Quem não se recorda da coversa de pé de ouvido do pai ou da mãe na beira da cama, na condução indo para a escola ou na brincadeira entre si?

Não podemos desmerecer que há benefícios no uso dos eletroeletrônicos para o desenvolvimento do raciocínio, da lógica e até mesmo do discernimento visual. Mas quando feito com equilíbrio.

O que nos faria bem repensar é que, estaria tais subterfúgios ocupando o espaço onde o diálogo, o sentar ao chão com os pequenos, o ler junto aos mesmos e o brincar com eles seriam deixados de lado?

Os psicólogos destacam que a leitura desenvolve o raciocínio, a fala, a criatividade e desenvolve a capacidade de modo contribuinte para os relacionamentos ao redor. E aí, vale ressaltar que economicamente sai até mais barato presentes como livros do que como aparelhos como ipad, celulares ou outro produto bem mais caro, que terão sua contribuição sim, mas quando deixados nas mãos dos pequenos como fuga para a distração destes e alívio aos pais ocupados, poderá sim, ser um prejuízo ao intelecto em desenvolvimento.

Ler é expandir-se. A imaginação é desenvolvida. A mente vagueia pelo universo que os olhos exploram. Sensibiliza a busca pelo significado das palavras. Pelo uso do dicionário tão esquecido na atualidade. Pela prática da escrita e compartilhamento da mesma. Além de estimular a prática da boa dicção quando a leitura audível pelos pequenos é executada.

Foi-se o tempo que nossas crianças ganhavam mais livros e eram incentivadas a lê-los.

Conheci duas famílias que não tinham televisão na casa não por opção e sim por questões financeiras. Tinham livros, usados doados. Comprados em sebos populares. Jornais e revistas doados por vizinhos ou pelos moradores de prédios que eram assinantes e repassavam a estes pais que levavam aos filhos. Os filhos eram visitantes das bibliotecas públicas. Tinham incentivo dos pais a lerem um livro a cada quinze dias. Sem mencionar que conversavam mais vezes numa mesa de alimentação e na sala de estar. Diferentemente de hoje, onde incorre-se no risco de todos presentes estarem mais conectados no virtual que no real ante os corpos presentes.

Os pais sentavam no chão batido e liam histórias e fábulas. Faziam os filhos estudarem as mesmas e contarem resumidamente. Hoje, eles são adultos que constituíram suas famílias e optaram por também terem bibliotecas em suas casas. Menos tempo ociosos os seus filhos ficam, mais tempo com diálogos, risos, brincadeiras e leitura. Um investimento.

Os pais acreditavam no que Mario Quintana retratou na frase: “Livros não mudam o mundo. Quem muda o mundo são as pessoas. Os livros mudam as pessoas”.

Não desmereçamos a influência que a tecnologia hoje tem em nossa necessária vida que requer de praticidade, mas poderíamos repensar se, a alegria perdurável que nossas crianças hoje estão carecendo, se seria conquistada com a praticidade tecnológica ou com algumas atitudes como leitura, diálogo, cumplicidade, tempo para ouvi-los e brincar com eles com tempo para risos e acolhimento no tempo de pranto também.

As crianças de hoje, crescerão. Serão adultos amanhã e também terão alguma influência no meio social. Com seus valores morais, éticos e relacionais. E todos esses, não são conquistados e solidificados senão dentro do núcleo chamado família. Não podemos imaginar transferir tal responsabilidade para os professores e para o mundo além dos muros de nossos lares.

Família é a base para os indivíduos. Como base, portanto, tem a responsabilidade de enraizar aquilo que não é pseudo. Que não é falsa alegria. Ao contrário. Tem que lutar com todas as forças e em unidade para que as crianças de hoje, sejam no amanhã bem próximo, homens e mulheres que queiram fazer da alegria da vida, algo perdurável e com marcas quem sabe eternas, no coração e, sobretudo, na mente.

Texto escrito por: Fabi Colimoide.

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