Doméstica (Conto) – Blog Livros e resenhas

Ela vive o que sente. Por viver tão pouco, sente alguns raios da quentura do sol ao caminho do trabalho. Antes do sol, o chão de terra empoeirada, as pedras pulando um pouco apenas nos seus passos. Os passos arrastados, curtos, pequenos. Sente pouco o som também por isto. Ela vive o que sente. Vive pouco. Sente o cheiro do mato seco. O frio não é tamanho. O pouco pano, no entanto, que encobre seu pouco corpo esfria o gelado do pouco corpo e muito osso. Ela vive o que sente. Vive pouco. O tempo sempre o mesmo que mede o início do andar ao término do chegar. Chega cedo. Desperta cedo. Leva a frente de si um carrinho tão judiado quanto o seu sapato. No carrinho um pequeno corpo de pouco tempo que vive sem sentir o que ela sente. Nem o que ela sentiu. Sua fala, ela não sente. Não a do corpo dentro do carrinho. Ele grunhe mais do que ela. Sua fala pertence à obediência de aceitar as ordens o dia inteiro. Ela vive o que sente. Sente logo cedo o preparo do café para os pais e os filhos; sente a mesa posta; sente as pernas mais frenéticas entre a cozinha e a sala; sente a água nas frutas, as frutas na mesa, e a mesa farta com a fartura de quem vive o que sente. Depois do café, sente repentinamente o apartamento vazio de pessoas. A pia cheia, a lavadora cheia e as camas cheias e o dia inteiro pouco para tão pouca vida. O almoço no fogo, o fogo na panela, a panela na pia. Ao meio do dia a casa parcialmente cheia. Os filhos chegam. E comem. E sorriem. E ligam a TV. E descansam mais tarde. E os pai chegam. A janta pronta. O vinho temperado na adega. A taça limpa. O queijo cortado. Antepastos e pão italiano. A vida limpa para quem vive o que sente. A paz da ordem entregue aos filhos e aos pais que logo se banham com a toalha perfumada esperando o corpo macio e corado de todos. Então ela vai em silêncio. Sem sol, um pouco do frescor da noite, ela volta, no pano que a encobre para não mostrar nada de sua nudez; no carrinho o corpo que silenciosamente sentiu o dia todo entre leite e papinha; o caminhar vagaroso no início sem terra, depois a poeira. O corpo sentindo o tempo de chegar à sua casa, ao seu lar, à falta de luz que nem questão de televisão faz. O fogão esquenta um pouco de água. O pó saiu do corpo do corpo no carrinho. O mesmo pano torcido, enxaguado, limpa seu pouco corpo. Quatro luzes de vela. Tinha o luxo de comer das sobras ao longo do dia e tarde da noite. E come. E comem. Quatro sopros depois, sente a escuridão da casa dentro de um quarto. Deitada, em silêncio, olha para o nada. Ouve uns grunhidos do corpo pequeno ao seu lado. Não pragueja nada e agradece. Melhor do que tudo. Dorme. Numa paz pouco sentida pela humanidade. Dorme bem. Sonha com a terra da rua e só. Desperta feliz. Em silêncio. Poucas horas tem sua noite. Ela vive o que sente. Não fala com ninguém e nem para ninguém. Ela é agradecida. Sua felicidade vem do que ela sente. Ela vive o que sente.

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