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Ao Seu Lado (microconto)

– Nossa! Como é bom estar ao seu lado!

– Sim. Eu sei como é bom estar ao meu lado. Ao meu lado, eu sinto a vida, e ao sentir a vida eu compartilho; ao meu lado, eu, a cada momento, agradeço poder estar vivo e assim eu compartilho a graça de agradecer; ao meu lado ser útil é estar presente e a presença preenche vazios, porque gosto da utilidade, gosto do presente, gosto de preencher vazios; ao meu lado a arte tem vida, e a vida morre, e a arte eterniza, fico então a um passo da morte e da eternidade, uma vez que os olhos que nos olham perecerão e a arte sentida continuará; ao meu lado meus olhos brilham o perene da arte; ao meu lado o corpo esquenta o frio, e o frio somente é bom para ser aquecido; ao meu lado o sol, que nos esquenta e faz da vida uma realidade, tem duplamente o sabor da pele bronzeada, da cerveja gelada, da caminhada despretensiosa de mãos dadas; ao meu lado minha mente fica ao mesmo tempo nas necessidades vulgares como “traz papel higiênico”, mas também vai aos saltos filosóficos de Kant e aos estudos neurocientíficos de Ramachandran; ao meu lado a literatura tem existência e o “nois vai” corintiano é poesia; ao meu lado o riso tem humor, a tristeza tem seu tempo, a solidão tem sua presença, o amor tem seu sacrifício, a depressão tem sua experiência, as dúvidas tem outras dúvidas, as certezas tem suas dúvidas, os sonhos palavras para tentar descrever nosso breve tempo um ao lado do outro…

– Mas eu apenas afirmei como é bom estar ao seu lado, e não perguntei “por que é bom estar ao seu lado?” Por que tantas palavras? Eu sei disto… Quebrou o lirismo.

– Verdade. Desculpe-me.

– Só me abrace agora e boca fechada.

– Está bem. Quer uma água? Alguma coisa?

– Não.

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