O Amor à Porta (conto) – Blog Livros e resenhas

O amor bateu em minha porta. Toc. Toc. Toc.

– Pois não? – eu atendi.

– Você me procurou?

– Verdade. Procurei.

Em seguida fiquei em silêncio. Não sabia o que falar. Fiquei buscando palavras. Toda minha história concentrou-se no tempo presente diante do amor.

– Posso entrar? – o amor pediu.

Fiquei com medo então. O amor, que é dor para a maioria, geralmente me traz muitas felicidades. Por outro lado, não existe amor sem prisão. E não de minha parte. Eu nunca levo as chaves comigo. Meu espírito cresce quando eu amo. Mas me aprisionam quando me amam. Agiganto-me à altura dos meus poucos centímetros quando amo. Amar para mim seria liberdade. E o medo de me aprisionar sem chaves?

“Mas eu sempre liberto quem eu amo”, sussurrei alto.

– Como disse? – replicou o amor com olhar sério.

– Desculpe. Sussurei alto.

– O que sussurrou?

– Disse para mim mesmo que o amor para mim não é prisão. Eu sempre liberto quem eu amo. Paradoxal. Amor para mim é minha prisão.

– Por que acha que eu estou aqui à sua porta pedindo para entrar? Meu amor não cabe em qualquer coração. Coube no seu. Você me chamou e vim. Posso entrar ou não?

Com meu olhar silencioso, eu quis dizer que ele já estava lá dentro. Era manhã. No fundo, os primeiros raios do sol invadiam meu olhar. A porta aberta.

– Sou eu quem renasci e não o sol…

– Como disse? – me interrompeu novamente o amor à porta.

– Você está aí fora, eu disse, mas para mim, você faz morada em meu coração há muito tempo.

– Eu sei.

– A porta sempre ficará aberta. Não precisa mais bater.

– Eu sei.

– Por que então você não entra de uma vez?

– Na verdade, eu não posso. Não ainda. Você quem me chamou. Perguntei se eu poderia entrar por educação. Afinal, quem ama cuida, de verdade. Eu sei que você quer cuidar de mim como eu preciso.

– Eu quero sim. Eu  posso cuidar de você?

– Claro que sim!

Silenciei…

– Preciso ir.

– Eu espero você. Você me ama também?

– Claro que sim!

Encostei a porta. Por fim, despertei. Não do sonho. Eu não sonhava. Despertei para o sol que invadia parte da porta aberta. Sabe o que eu fiz então? Tirei a chave. Os trincos. E jamais a fechei. Ela está aberta. O amor não estava mais lá. Mentalizei profundamente e pensei: “Não jamais bata. Entre quando der. Estarei esperando.”

 

 

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Flavio Notaroberto, escritor e autor dos dois livros na foto.

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