Blog Livros e resenhas- Amor sem rótulo/Fabiana Colimoide

A mesa estava com diversas garrafas para serem preparadas artesanalmente. Seriam decoradas e pintadas com cores diversas para uma exposição em bazar beneficente. Os fundos arrecadados seriam revertidos para o orfanato do subúrbio do Rio.

Ela tinha um ateliê nas margens da Av. Vieira Souto. Amava artes e tudo que fazia colocava seu coração. Sua paixão pelos trabalhos a tornaram não tão dedicada as oportunidades de se relacionar tanto a despeito dos seus trinta e três anos.

Agora, a frente dos seus materiais simples que se tornaria em meios de arrecadação de fundos sociais, ela refletia na dinâmica de seu preparo da arte em si. Recebia todos os dias as garrafas de inúmeros bares e bistrôs próximos dali. Todos estavam cientes que ela tinha essa nobre missão. Sempre removia os rótulos das mesmas, descartando as que não fossem úteis para aquele trabalho e preparava em média umas vinte peças por dia. Estava quase alcançando sua meta de 500 garrafas decoradas. Sabia que o público alvo tinha condições financeiras para contribuições e aproveitaria a oportunidade de auxiliar o orfanato.

Seus pensamentos se voltaram para o quadro que estava a sua frente na parede. Uma pintura de um horizonte onde a lua e o sol estavam no mesmo momento, como num encontro mágico. Quem pintara era um amigo mui querido que na verdade pelo qual se apaixonara nos meses em que estiveram trabalhando em um projeto social para as crianças do Morro Dona Marta. Ele tinha cabelos grisalhos nos seus quarenta e três anos, extremamente charmoso e inteligente, era um pintor e escultor de passagem pelo Rio.

Na época que se conheceram, era recém-separado de uma esposa peruana e com duas meninas adolescentes que às vezes passavam dias com ele. Lembrava-se de terem saído juntos na orla com as meninas num sábado a noite típico do verão carioca. Sorvete a quilo para elas e para eles, um açaí caprichado.

Conviveram pouco, mas o suficiente para que ela passasse a admirá-lo não somente profissionalmente, mas como um homem de enorme coração, com um amor pelas filhas exemplar e com um senso de responsabilidade social que a fizera sonhar em acompanhar seus passos.

Sempre muito reservada, nunca externava as suas intenções ante a situação conturbada que a separação causara na vida daquele homem, calmo, sereno e extremamente charmoso. Ele sabia o poder que detinha naqueles olhos verdes e pele bronzeada pelo sol.

Ela sonhava em projetos juntos, em caminhadas juntos e até possível relacionamento de um amor sincero do qual nunca se permitira. Sempre tivera muitas pré-concepções, em especial dos amigos que a aconselhavam a nunca pensar em relacionar-se seriamente com um homem divorciado e com filhos. Ela lembrava sempre de um amigo que dissera que a vida começa livre para quem é livre e isso envolvia ausência de filhos de uma das partes.

Outro paradigma era o fato dele ter uma vida conturbada ante as perdas recentes e que ela não deveria se misturar nesse problema.  E a pior de todas as concepções que ouvia era que o casamento não lhe seria bom, pois a vida a dois era um fardo quando um já tivesse sido casado, pois não teria paciência com o menos experiente.

Nossa! Quantas razões!

E ironicamente o que fora rotulada pelo homem que decidira permitir se apaixonar era que era cheia de consciência e razões. Triste rótulo a ela confiada. Ela já carregava tantos em sua vida. Da idade que ainda permanecia solteira. Do trabalho como artesã e dona de um ateliê onde liderava alguns funcionários homens que a diziam ser durona. O rótulo de ainda não ter sido mãe bem como não sair ou ficar a bel prazer com os homens que apareciam.

Por ser muito inteligente e perceptiva, com uma pró-atividade que assustava e intimidava os que a olhavam nos olhos. Sim, ela olhava nos olhos seguramente sabedora do que queria das pessoas e o que falaria aos mesmos. Não era de rodeios. Tinha personalidade forte de quem sabe muito bem o que quer.

Enfim, muitas classificações que o mundo ao redor lhe concedia, sem ter sequer conhecimento de verdade de quem era ela e de sua essência.

Se ele soubesse que ela pela primeira vez estivera disposta a romper com todos os paradigmas que a cercavam e rótulos fixados pelos que estavam sempre a lhe cercar julgando-se os sabedores de quem era ela de fato…

Na verdade, ela pensava serenamente ali, que ninguém acreditava nas mudanças que ocorriam na vida dela nos últimos anos. Era mais livre em si, com a vida a pulsar nas veias e a vontade de amar sem reservas. Descobrira um tanto tarde, ela reconhecia, mas não se arrependera, pois estivera vivendo seus melhores anos desde que assim procedia. Mas os rótulos, ela olhou para uma garrafa com um a ser removido… Nela, as pessoas teimavam em mantê-los.

Semelhantemente, não é diferente no mundo ao redor. Nunca ninguém reconhece que a pessoa mudada estará e quando assim acontece, dizem-se desconhecidos do que estão vendo. Contraditório por demais essa vida! Ela ia pensando enquanto jogava a tinta no interior de uma garrafa a ser colorida internamente de vermelho.

Vermelho, cor do amor que queria que fosse correspondido, porém, rotulada pelo homem que também era rotulado na sociedade ante um divórcio e o início de uma nova vida. Esta vida que ela não racionalizava ser difícil de acompanhar, pois estava disposta a correrem tais riscos. Mas ele não teve paciência de conhecê-la e ver em si as suas reais intenções. Ele apenas viu o exterior de pequenos lampejos do que quis ver. Talvez pelos sofrimentos internos dele. Talvez por não se propor a ter o trabalho de caminhar com uma mulher inexperiente, afinal, ele já tinha se realizado em muitos aspectos. Nossa!Sua cabeça girava. Precisava comer. Pegou um sanduíche de queijo e aqueceu no micro-ondas rapidamente. Encheu um copo com suco e foi até a janela. Viu o mar e o balançar das ondas. Como amava fazer isso. Recordou-se que ele se recolhera talvez por pensar que ela tivesse querendo competir com ele profissionalmente. Ledo engano. Ela jamais faria isso, até porque sabia bem o papel de uma mulher ao lado de um homem. Ela estaria do lado dele e nunca superior. Sua liderança arraigada em suas mãos não seria obstrução para o amor que ela inicialmente sentira querer amadurecer entre ambos.

Não. Ela não havia sido cheia de consciência do que não podia dentro dos padrões dos conselhos que ouvia ou do que aprendera. Ela havia ouvido o coração dessa vez.

Mas… Tristemente tinha que reconhecer que o amor que ela queria, tinha rótulo que aquele homem mantinha sobre seu olhar, ainda que ela não o fosse assim e nem assim estivesse disposta a agir. Tudo por que para a remoção dos rótulos, requer proximidade, tempo e certo trabalho de remover com tato aquilo que não mais deve fazer parte do que se transformará em uma bela obra de arte nas mãos de quem se dispõe a produzir.

Ela terminara de comer o lanche e voltou ao trabalho. Tinha que transformar garrafas rotuladas, em obras de arte.  Tudo em prol do amor ao outro. No caso dela, não era correspondida, mas não desistiria de procurar viver sem rótulos, máscaras dentro do círculo de amigos e amigas. Ela deixaria as mudanças acontecerem de dentro para fora, sem a menor preocupação com os que iriam pensar. Inclusive, do que pensava o homem que ainda sonhava em amar e ser amada. Vida que segue, por fim pensou e pegou a garrafa de cor vermelha para finalizar a arte ali. Havia crianças num orfanato a espera de auxílio. Isto era amar sem rótulos também e ela sorriu.

Texto escrito por: Fabiana Colimoide.

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