Blog Livros e Resenhas – Alguns lenços e com documento/Fabi Colimoide

Era sua sétima sessão de quimioterapia no ambulatório da clínica oncológica. Sentia os efeitos colaterais do tratamento para o tumor na mama esquerda. Seus trinta e seis anos estavam fadados há dias arrastados e pouco esperançosos. Detectara o tumor através do autoexame mensal. Era uma enfermeira e ironicamente trabalhara por anos no Instituto Nacional do Câncer na ala feminina. Sentia as dores de cada mulher que internada ficara na sua ala de cuidados e por vezes nestes últimos dias estivera questionando a Deus o motivo e propósito de ter que sentir na pele o que assistia a cada plantão concluído.
Amava sua profissão, mas o sofrimento humano era desumano em sua concepção. Agora, essa desumanidade estava presente em sua vida a cada segundo do tic tac do relógio. Para ela tempo significava vida. Ainda não tinha indícios de metástase, mas os linfonodos axilares estavam sendo investigados e incorria no risco de fatídicas surpresas.
Como pudera deixar de perceber precocemente algo tão sério? Era a pergunta latejante e insistente todas as noites que repousava a cabeça no travesseiro. Era na cama que chorava e que refletia no seu futuro e lamentava tudo aquilo que não fizera como prazer na vida. Dedicara muito de sua vida ao trabalho e anseio de conquistar os bens materiais que fora induzida pelo consumo ao redor. De fato, não é errado progredir na vida, mas ela pensava friamente, desde que não sobreponha ao que é essencial. Sua família sempre ficara em segundo plano. Amigos poucas vezes eram vistos. Vida corrida da metrópole.
Mas tudo isso agora estava em questão. Como viver daqui pra frente? Seus longos cabelos ruivos e muito bem tratados tinham seus fios agora, quebradiços e em queda. Decidira cortar o cabelo definitivamente para sofrer menos na sua concepção. Emagrecera por não conseguir comer como antigamente. Isolara-se dos amigos e familiares definitivamente. Encerrara-se num luto precoce sem tem a morte como vencedora sobre sua vida.
Fora surpreendida por uma senhora de uns cinquenta anos que estava em tratamento também. Usava um lenço na cabeça, colorido, com vida nos traços do tecido. Um batom nos finos lábios e lápis nos olhos, além da sobrancelha em um designer muito melhor do que a dela. Sorria naturalmente para as pessoas que fitava nos olhos. Suas roupas eram largas e floridas, ao contrário da calça preta e blusa marrom que ela na sua idade, se vestia ultimamente.
Descobrira que aquela senhora tinha metástase óssea e o prognóstico de menos de um ano de vida. Andava com dificuldade e acompanhada, mas seu sorriso era surpreendente a despeito da escassez da vida cronológica determinada clinicamente. Estava em fase de radioterapia, porém, os tratamentos eram cada vez mais paliativos conforme desejo da família e dela também. Ela naquele ano já estiveram em Bariloche, Quito e Vancouver. Aprendera italiano com uma de suas filhas e semanalmente tinha aula de violão.
Tocava para as demais pacientes de um hospital público no pátio uma vez por semana. Tinha um contralto gracioso de ouvir. Ela exalava vida!Era o que a jovem ali concluiu. E ela mesma? Estaria retirando a vida de si. Estaria entregando as armas da batalha. Estava contribuindo para as células cancerígenas avançarem e seus linfócitos T perderem as defesas por falta de apoio dela mesma.
Passou a mão sobre a sua cabeça. Estava com um boné. Meio largada, nada feminina. Perdera o seu brilho. Lábios ao natural, olhos opacos e olheiras. Nenhum disfarce. Ela por si própria. Sem sorriso, sem brilho ou esperança. Sofrimento prévio e desnecessário. Afinal, ainda existia a vida em si enquanto fôlego existisse. Colocou a mão na região do mediastino à esquerda. Sentia o ritmo regular do seu jovem coração. Viu que poderia ainda viver melhor a despeito do amanhã. Ainda não perdera a guerra, exceto se entregasse a si mesma para as situações da doença.
Não. Não poderia ser mais uma derrotada. Não poderia deixar de viver. Tinha família. Tinha amigos. Não era apenas mais um dado estatístico de mulheres acometidas por câncer e com morte precoce. Tinha uma identidade. Sorriu para aquela senhora ao observar-se sendo fitada pela mesma.
Sua consulta fora rápida e o prógnóstico envolviam novos exames, reforço na alimentação e ausência de limitações impostas. Sim, não poderia mais se limitar a não viver a despeito da doença. Tinha pernas e braços, uma beleza rara de uma mulher amazonense. Não tinha um terço do que a senhora de meio século de vida disse ter, tampouco tinha um quarto da vida que aquela senhora ousara viver. Ela sim tinha data para findar sua trajetória, mas prorrogara por conta da maneira que escolhera viver.
A tarde estava fria naquele dia. Desembarcara do terminal de ônibus que tinha uma feirinha popular. Entre as lojas e vendedores se deteve numa com venda de lenços. Cada um mais bonito que o outro. Experimentou vários e por fim levou na promoção uns doze. Variar era preciso, ela pensava com alma feminina aflorada.
Aproveitou e comprou também uns vestidos mais joviais e alegres em cores. Amava tons fortes como vermelho e azul turquesa, mas um branco fora seu preferido ali. Descansara naquela noite antecedendo seu dia mais relevante dentre todos os últimos da semana.
O sol despontava no céu límpido e o vento tocava-lhe na face. Seus olhos agora tinham cor e vida, como os lábios. Andava não mais errante para a morte certa, mas ia de encontro para a vida lá fora de seu sofrimento. Sabedora dos efeitos que a alegria e prazer causam no tratamento das doenças sobre o organismo, ela decidira sorrir ao redor. Não como uma louca desvairada, mas como uma mulher que queria trocar frações de vida. Sim, vida por vidas. Ela, despida da vaidade e apenas com um lenço rosa que se destacava entre a multidão.
A cada sorriso, sentia receber outro de um desconhecido. Às vezes recebia face carrancuda e desconfiada, mas em todas, determinara ser ela mesma. A guerreira que tanto incentivara as suas pacientes a lutarem até o final. Ela sabia as armas que tinha. Alguns lenços e um documento, uma identidade presente e que seria motivo dela escolher a vida. Uma vida em abundância. E ela ouviu o canto dos pássaros como se confirmassem ante o céu e natureza o propósito dela de viver e bem. Sorriu mais uma vez.
Olhou ao céu, sentia a brisa na face e a esvoaçar o lenço que usava na cabeça. Agradeceu à Deus, a despeito da dor da doença que mata milhares de mulheres, por ela ter vida. Programava rapidamente ao olhar para o outro lado da rua uma viagem. Iria conhecer a cidade dos incas e maias no Peru ainda naquele ano. Daria a si o prazer da vida e das realizações. Era sua escolha atrelada na luta por vida. Sim, escolhas.

Texto escrito por: Fabi Colimoide.

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