Blog Livros e resenhas

A Prostituta (microconto)

– Ontem eu fiz programa.

– Como assim?

– Sai com alguém e cobrei por isto.

– Como? Garota de programa?

– Isto.

A partir daí Jéssica e Beatriz ficaram em silêncio. De um lado os olhos lacrimejaram e do outro a face ficou pálida. As mãos não se desgrudaram.

– Era isto o que de importante você tem para me dizer?

– Não.

E a surpresa foi maior.

– Eu vou me mudar hoje.

– Por quê?

Enquanto uma recompunha os olhos, a outra deixou deslisar livremente as lágrimas. Quando tentava responder, a emoção continha e a voz soluçava. Ela respirava profundamente. Engolia o vazio. Desviava os olhos em direção ao par de sapatos vermelhos com salto baixo que usou ontem. Eram ambas bem altas. Modelos de lojas baratas no Brás e Bom Retiro.

– Vou virar garota de programa, conseguiu concluir. Vou ganhar bem mais. Cansei de desejar e sem poder ter. O mundo me conquistou e eu me rendi. Ontem em duas horas recebi o cachê de uma semana.

A outra desejava tanto quanto ela o mundo. Seu corpo, entretanto, era algo sagrado porque o creme que passava, o perfume que usava, a roupa e acessórios que vestia, as horas de dedicação aos cabelos, unhas e depilação, o cuidado com os exercícios e caminhadas representavam todo valor que por hora suas memórias queriam ter na sua velhice. Queria viver sem que nada roubasse seu propósito de dormir consigo mesmo e ir a onde quisesse com a sacralidade de suas experiências e sensações, compartilhadas com emoção, porque somos nosso conjunto de emoções que arquivam nossas memórias.

– Vai morar onde?

– Vi um apartamento na Alameda Jaú. Acertei hoje de manhã.

– Não sei o que falar. Nossos mundos são tão parecidos.

– Você tem medo?

– Medo do quê?

– De virar garota de programa também?

O silêncio, então, suprimiu os carros do Minhocão. Um andar acima próximo à estação Santa Cecília. Já nem mais era barulho durante o dia. Som ambiente.  Agora nada. Cegueira e surdez interna e externamente. Veio à cabeça o cuidado do pai que ainda vivia em um pequeno sítio no interior do Paraná com a madrasta e dois irmãos pequenos por parte de pai. A crença de que a beleza pode ser uma arte no corpo de uma mulher sem que o corpo domine a essência da beleza. A professora Odete, que a motivou a ir para São Paulo “Você é linda, menina! Vai para São Paulo ser modelo.”, e ela refletiu por cinco noites seguidas até decidir. Saiu da pequena cidade Alexandra com o pai até a Rod BR-277, onde esperou na estrada mesmo o ônibus. De lá até Paranaguá, então Curitiba e então São Paulo. Faz dois anos. Indicação da própria professora Odete.

– Tenho medo, admitiu. Não quero para mim. Não quero fazer programas, e chorou.

– Eu entendo. Você não tem perfil. Eu tenho. Eu quero. Eu gosto. Me sinto bem e não quero perder sua amizade.

O silêncio dialogou com fortes abraços e algumas lágrimas.

– Já fiz minhas malas. Vou deixar dinheiro para a medade do aluguel dos próximos três meses. Estou indo agora

– Não precisa deixar dinheiro. E já está quase noite. Dorme aqui.

A amiga levantou-se da cama. Foram dez meses de confidências e amizade.

No fundo, o corpo se comunica com outros corpos, intuia ambas. Seja no distanciamento dos sentidos: visão e audição; seja na aproximação: tato, olfato e paladar. Em síntese, a prostituição são nossos instintos de aproximação, o que faz da intimidade uma troca do dinheiro pelo corpo. Por isto é mais caro do que apenas ser modelo, em que o máximo que existe é apenas ser olhado, ser visto, ser um corpo envolto por alguns panos e bijuterias. O valor do corpo não é a beleza que há nele. São os sentidos que permitimos aos outros: próximos ou distantes. A prostituição paga a aproximação. Mais do que uma escolha, uma troca.

– Uma última palavra. Posso?

– Sim.

– O problema da prostituição é que não existe troca. Quem dá perde mais do que quem recebe.

– Existe sim. Eu sou meus sentidos de aproximação e eles me dão dinheiro. Aí eu faço o que eu quiser com o dinheiro. Compro o que eu quiser.

– Por vaidade de seus próprios sentidos vale à pena ser um objeto de luxúria e prazer?

Ela não respondeu. Ficou magoada. Partiu. E as amigas nunca mais se falaram.

Curta nossa página XD

Comentários

Comentários